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A igreja e a cidade

Os dias exigem mais do que igrejas NA cidade ou PARA e DA cidade. O próximo passo é a multiplicação de igrejas COM a cidade.

fonte: Guiame, Ed René Kivitz

Atualizado: Terça-feira, 13 Setembro de 2016 as 12:53

É necessário se converter à verdade de que Jesus tem muitos amigos que a igreja não conhece. (Foto: EyeWonder Photo)
É necessário se converter à verdade de que Jesus tem muitos amigos que a igreja não conhece. (Foto: EyeWonder Photo)

Mal chegou às minhas mãos, foi consumido com voracidade. “Por que crescem os pentecostais?” era um livro na medida certa para um jovem pastor que tudo quanto desejava era “fazer sua igreja crescer”. Obra de Peter Wagner, um dos precursores, juntamente com Donald McGravan, do “movimento de crescimento de igrejas” do Fuller Theological Seminary, Los Angeles, EUA, o livro chegou ao Brasil no mesmo contexto em que aterrissaram por aqui os modelos das mega-igrejas na Coréia, na Argentina, e na Colômbia. No mesmo período proliferaram os congressos e conferências para pastores e líderes, com temas invariavelmente abordando técnicas e estratégias para o crescimento de igrejas, que aliás perduram até hoje.

As igrejas identificadas nesse paradigma cujo foco é o crescimento, chamo de “igrejas NA cidade”. São igrejas cujo modelo de atuação prioriza “ganhar almas para Jesus”, que na prática significa “tirar pessoas do mundo e integrá-las na igreja”, para que entrem na dinâmica de atividades e esforços para “ganhar almas para Jesus” e “integrá-las na igreja”. As igrejas NA cidade querem ser tudo na vida das pessoas que nelas se integram. Elas não estão preocupadas com a cidade, estão preocupadas consigo mesmas e, no máximo, com as pessoas da cidade. Estão NA cidade, mas fazem pouquíssima ou pequena diferença na cidade.

Além das igrejas NA cidade, existem também as igrejas PARA a cidade. Geralmente são igrejas que além de consolidadas, experimentaram notável crescimento e se tornaram ricas em recursos humanos, financeiros e materiais. Estas igrejas romperam o patamar da sobrevivência e da expansão, atingiram um número de membros e frequentadores suficiente para mobilizar um contingente de pessoas capaz de gerar uma dinâmica onde o crescimento é quase automático. A rede de relacionamentos dos membros e frequentadores dessas igrejas se entranha na cidade, e o afluxo de gente às suas atividades, eventos, e cultos dominicais é constante. A preocupação dessas igrejas já não é mais o crescimento. Já se tornaram igrejas grandes. Agora querem ser relevantes. Conscientes da necessidade de harmonizar evangelização e responsabilidade social, passam a desenvolver programas e projetos de prestação de serviços para a cidade. E isso concorre ainda mais para que o afluxo de pessoas se intensifique em sua direção. As igrejas PARA a cidade servem à cidade. Em relação às igrejas NA cidade, significam um avanço considerável. São raras as igrejas que conseguem esse salto na direção do serviço, capazes de conciliar palavras e obras, kerigma e diaconia, e que não apenas “ganham almas para Jesus”, mas reproduzem na cidade o estilo de vida de Jesus, que “andou por toda parte fazendo o bem”.

O estágio "igrejas PARA a cidade" é considerado o ideal a ser alcançado por muitas igrejas, e a maioria das que o alcançaram desejam ampliar sua rede de serviço e influência. Consideram que ser igreja PARA a cidade é o estágio final, quando a igreja NA cidade se torna a igreja DA cidade. Mas existe um desafio ainda maior.

Os dias exigem mais do que igrejas NA cidade ou PARA e DA cidade. O próximo passo é a multiplicação de igrejas COM a cidade. Identificar organizações, projetos, iniciativas alinhadas com os valores do reino de Deus, buscar parceria com pessoas que promovem a valorização da vida humana em ampla dimensão, promover o intercâmbio entre a igreja e a sociedade nos ambientes de defesa e ação em favor dos direitos humanos, são desafios ainda a ser vencidos por igrejas com mentalidade meramente proselitista.

Abandonar a pretenção do protagonismo sectarista, abrir mão da necessidade de assinar as ações de solidariedade, atuar juntamente com os conselhos municipais, entidades de classe, movimentos sociais, coletivos diversos, ongs, integrar a igreja nas expressões de generosidade supra-religiosas, canalizar recursos financeiros, mobilizar voluntários e trocar tecnologias sociais com organizações não confessionais, são possibilidades remotas para a maioria daqueles que pensam que a graça de Deus é monopólio religioso evangélico.

Abrir os templos para a agenda social e cultural da cidade, colaborar na elaboração das políticas públicas, mobilizar as comunidades religiosas para as ações coletivas de interesse público são coisas próprias de igrejas com fé cidadã.

O salto de ser igreja NA, PARA e DA cidade a fim de ver surgir a igreja COM a cidade exige o arrependimento da pretensão de controlar os agentes e atores da missio Dei. Implica ouvir Moisés ensinar aos que pretendiam proibir os que profetizavam: “eu queria que todo o povo do Eterno fosse profeta; queria que o Eterno pusesse seu Espírito em todos eles” – e não venha dizer que o povo do Eterno está restrito àqueles que passaram pelo batismo em “nossas igrejas”.

Para ser igreja COM a cidade é imperativo superar o pensamento dos muitos João e ficar com a revolucionária proposição de Jesus – “Mestre, vimos um homem usando teu nome para expulsar demônios e o impedimos, porque ele não é do nosso grupo”. Jesus reprovou-os: “Não o impeçam. Se ele não é inimigo, é aliado”. Para ser igreja COM a cidade é necessário se converter à verdade de que Jesus tem muitos amigos que a igreja não conhece.

 

*As opiniões aqui expressas são de exclusiva responsabilidade do autor do texto e não refletem necessariamente o posicionamento oficial do Portal Guiame

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