Não procure por paciência em um fast food

Não procure por paciência em um fast food

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 09:14

Quer ouvir uma estridente buzina? Basta demorar dez segundos para sair com seu carro quando o farol fica verde, o motorista atrás de você fará o serviço. Além da irada buzina, quer ouvir palavrões e ofensas? Demore mais dez segundos e aguarde. Quer correr risco de vida? Dê uma fechada no trânsito ou, para arriscar ainda mais, vá se vingar de quem te fechou.

O trânsito é apenas um dos lugares que alertam para o estado de ânimo atual. Somos filhos da pressa. Queremos tudo pronto, já, pra ontem. Nosso tempo nos treinou assim, exigentes, apressados, mal acostumados. Toda a parafernália tecnológica que invadiu nossa rotina só reforça a ideia. Digitalmente nos falamos, nos vemos, trabalhamos. Fotos ruins deletamos na hora, e na hora já produzimos outras. E as eleições? Esqueça os Estados Unidos, bom é o Brasil, aqui sabemos o resultado em pouquíssimas horas...

O fato é que vivemos numa sociedade que assimilou a cultura fast-food, a tal da comida rápida, é só chegar no caixa de um McDonalds qualquer, pedir, pagar e já pegar o lanche. Esperar pra quê? Por que? O negócio é não perder tempo, é andar, correr, acelerar. Impacientes, tornamos tudo urgente. Com isso, perdemos qualidades vitais para usufruirmos o melhor da vida.

Outro dia fiz um passeio numa Maria Fumaça. Velocidade máxima: 40 km/h! Que delícia! Pude explorar com calma o vagão restaurante, observar detalhes das paisagens, sem nenhum susto, risco ou pressa. Fiz amizades, conversei, falei, ouvi. Falei de novo, prestaram atenção no que eu falava. Ouvi de novo, prestei atenção no que falavam. Somente assim, em experiências como a da Maria Fumaça, encontramos os benefícios da paciência. Por mais que se queira apressar, a natureza tem seus ciclos, seus caminhos, seu tempo. É inútil querer queimar etapas, já diziam os antigos. Sábios antigos. Namoro, noivado, casamento e sexo, quantos têm paciência para esperar estas etapas nos dias de hoje? E quantos estão quebrando a cara com frustrações, brigas, vazios e insatisfações produzidas por casamentos apressados, precipitados, impacientes?

Existem muitos sorrisos que você deseja sorrir que dependem, essencialmente, de paciência. Um filho, um amor, uma casa, um mestrado, um ministério, um perdão, uma solução. A vida, definitivamente, não é uma rede de fast-food. A vida combina mais com um pequeno restaurante que certa vez almocei em Parati. Eu e minha família escolhemos o prato, pedimos e o dono nos disse: “Podem ir passear, marquem duas horas e voltem.” Fiquei surpreso, mas imediatamente entendi, concordei e gostei. Tudo, das entradas, passando por salada, arroz e peixe, iria ser feito na hora. A espera valeu. Comidinha fresca, quentinha, bem temperada. Cada momento daquela refeição foi vagarosamente apreciado. Da mesma forma devemos e podemos  apreciar a vida, as pessoas, as dores, as conquistas, os sentimentos, as dificuldades.

No evangelho de Lucas, Jesus pronuncia uma frase intrigante. No capítulo 21 Ele começa o sermão profético. Neste sermão Jesus fala de tragédias para sua época e também para o tempo do fim. Um tempo marcado por guerras, pestes, divisões, dores, sofrimentos. Um tempo onde as pessoas correm de um lado a outro procurando alívio. No meio de palavras pesadas e tensas, Jesus deixa o intrigante conselho no verso 19: “Na vossa paciência possui as vossas almas.”

Note, “paciência” é a chave. Não é por acaso que os sistemas e esquemas do mundo lutam tanto para nos tornarem seres impacientes. Impacientes metem os pés pelas mãos. Impacientes põem tudo a perder. Impacientes não suportam o joio e, irados, arrancam o trigo junto. Impacientes não enxergam qualidades, só defeitos. Impacientes minam, adoecem e matam suas almas numa total sequidão de esperança, posto que perderam a principal virtude para a sua preservação, a paciência.

Uma grande porcentagem dessas doenças inexplicáveis da modernidade, somatizadas por inúmeros fatores, seriam banidas se os ritmos da contemplação e da reflexão dominassem nossas ações. Lembre-se, fomos criados para vivermos eternamente, sem ?neuras? ou ?pressas?. A impaciência é amiga do pecado. A paciência é virtude do céu, a virtude de um Deus que nunca se atrasa, sabe o fim desde o começo, com paciência espera que os seus filhos não se iludam com a velocidade do terceiro milênio e, com resignação e submissão, saibam esperar nEle, somente nEle.

Paz!

 

Por Edmilson Mendes

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