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Igreja, uma comunidade de cura e restauração

Lidar com disciplina na igreja sem total dependência do Espírito pode produzir mais doença do que cura.

fonte: Guiame, Hernandes Dias Lopes

Atualizado: Sexta-feira, 31 Julho de 2015 as 2:43

Igreja
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Na sua epístola aos Gálatas, o apóstolo Paulo diz que a igreja de Cristo recebeu o Espírito (3.2), nasceu segundo o Espírito (4.29), anda no Espírito (5.16), é guiada pelo Espírito (5.18), produz o fruto do Espírito (5.22,23), e vive no Espírito (5.25). Mas, ainda não está no céu. Há ainda a terrível possibilidade de quedas e fracassos. Estamos sujeitos a fraquezas e quedas. É nesse contexto que a igreja precisa se firmar como uma comunidade terapêutica. Paulo escreve: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gl 6.1). À luz deste versículo, destacaremos três pontos importantes:

Em primeiro lugar, o perigo de uma queda repentina (6.1a). “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta…”. O termo surpreendido indica que não se trata de um caso de desobediência deliberada. Não houve um propósito maldoso antes da ação. A palavra “falta” significa, literalmente, “pisar fora do caminho” ou “dar um passo em falso”. Por que Paulo levanta esse caso hipotético? Porque nada revela de maneira mais clara a perversidade do legalismo do que a maneira como os legalistas tratam aqueles que pecaram. Paulo está alertando, também, que o pecado é um laço, uma armadilha colocada em nosso caminho, que pode nos surpreender. A expressão “se alguém” inclui a todos, sem exceção. Há terrenos escorregadios diante dos nossos pés. Não podemos andar despercebidamente.

Em segundo lugar, a necessidade de um confronto amoroso (6.1b). “… vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado”. Muitos lançam mão dos erros dos irmãos, usando-os como ocasião para insultá-los e atingi-los com linguagem rude e censuradora. Paulo diz que os crentes espirituais, ou seja, aqueles que andam no Espírito e são guiados pelo Espírito é que devem tomar a iniciativa de cuidar daqueles que são surpreendidos pelo pecado. Paulo está mais preocupado com aqueles que vão lidar com o caído do que com a própria pessoa que resvalou os pés.

Lidar com disciplina na igreja sem total dependência do Espírito pode produzir mais doença do que cura. Os exortadores podem tornar o caso pior do que foi propriamente a falta. A única maneira de levantar aqueles que caíram em pecado é a confrontação amorosa. Paulo diz: “… corrigi-o”. O termo grego katartizo significa “por em ordem” e “restaurar à condição anterior”. No vocabulário médico esse temo referia-se ao ato de encanar um osso fraturado ou deslocado. O crente que caiu em pecado é como um osso fraturado no corpo que precisa ser restaurado. Obviamente, essa palavra aponta, também, para a motivação daquele que corrige. Seu intento não é tripudiar sobre o faltoso, mas ajudá-lo a colocar-se de pé. O confronto precisa ser com “espírito de brandura”. A dureza, a insensibilidade e a hipocrisia não podem estar presentes no processo da confrontação. Precisamos ter a ternura de Cristo e a doçura do Espírito de Deus, a fim de que a pessoa ferida pelo pecado seja curada e restaurada. A igreja não é uma comunidade geradora de traumas e doenças, mas um lugar de cura e restauração. Não somos um exército que executa seus soldados feridos, mas uma clínica que cuida com amor daqueles que foram surpreendidos e caíram nas malhas insidiosas do pecado.

Em terceiro lugar, um alerta sobre o cuidado preventivo (6.1c). “… e guarda-te para que não sejas também tentado”. A confrontação precisa ser feita com cautela e humildade. Não é sem razão que o apóstolo muda do plural para o singular. Ele dá vigor à sua exortação, quando se dirige individualmente a cada crente, instando a que cuide de si mesmo. Quem corrige não pode jactar-se, julgando-se melhor do que o indivíduo corrigido. Todos temos a mesma estrutura: somos pó. Se nos apartarmos um minuto sequer da graça de Deus, poderemos também tropeçar e cair. Somos todos vulneráveis e dependentes da misericórdia de Deus. Portanto, precisamos vigiar para não condenarmos nos outros aquilo que nós mesmos praticamos, ou para não cairmos em práticas semelhantes àquelas que reprovamos na vida dos nossos irmãos. Por mais perspicazes que sejamos em detectar os erros alheios, muitas vezes, não conseguimos ver a mochila pendurada às nossas costas.

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