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E quem merece ser estuprada?

Acho mesmo que estamos perdendo tempo com discussões vãs e campanhas fúteis (ou alguém acha que algum estuprador será conscientizado por cartazes escritos a lápis de cor?), e debatendo um tema tão... tão... enfim!

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Sexta-feira, 4 Abril de 2014 as 8:55

Eu não mereço ser estupradaDe um modo geral, sou meio avessa a modinhas. Olho um pouco atravessado para algumas campanhas ou comoções das massas, porque há muita coisa estúpida e insensata acontecendo de forma “unânime”, e a internet parece estar facilitando a disseminação da ignorância e da falta de bom senso. Tudo é motivo de polêmica, e a moda do politicamente correto está “abarrotando a sacola”, para não usar a expressão coloquial equivalente, que é deselegante.

Tudo isso é pra falar da modinha viral da vez, – #EuNãoMereçoSerEstuprada – nascida de uma pesquisa mal feita e pessimamente interpretada, que teria “revelado” a suposta aprovação das pessoas ao estupro de mulheres que não saibam se comportar (seja lá o que signifique “se comportar mal” segundo a pesquisa) ou usem roupas que mostrem o corpo.

Mas quem, pelo amor de Deus, (que seja um cidadão de bem, claro), acha realmente que alguém mereça ser estuprado? Acredito que ninguém em sã consciência. E também acredito firmemente que se as perguntas tivessem sido feitas de forma mais clara e direta, muito provavelmente não estaríamos aqui discutindo coisas óbvias e arrazoando o porquê de, à la “Feliciano não me representa”, as pessoas estarem tirando fotos-protesto com placas e divulgando a hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada.

Acho mesmo que estamos perdendo tempo com discussões vãs e campanhas fúteis (ou alguém acha que algum estuprador será conscientizado por cartazes escritos a lápis de cor?), e debatendo um tema tão... tão... enfim!

Dizer que alguém merece ser estuprado porque usou “pouca roupa” é mais ou menos como dizer que alguém mereceu ser roubado porque saiu de casa com objetos de valor. Embora saibamos que o sujeito não tem culpa, vamos ter que combinar que é muita tolice andar à noite, numa rua esquisita, com smartphone brilhante à mão, distraidamente. Qualquer pessoa diria que, no mínimo, ele estaria facilitando sua própria desventura.

A maior discussão está girando em torno disso, – de se pensar que a sociedade machista e primitiva torça pelo infortúnio de quem acha que “o que é bonito (ou não) é pra se mostrar” – mas minha mãe poderia muito bem calar essa discussão. Explico: ela vive reclamando comigo porque saio na rua digitando no celular e dando bobeira para os ladrões. Tenho certeza de que, se um dia alguém arrebatasse o bendito da minha mão num minutinho de distração, com certeza ela passaria o resto da vida (literalmente, sem exagero) no replay do sermão “a CULPA foi sua, eu lhe avisei!”.

Veja bem, minha mãe sabe que roubar é crime. Ela também estaria ciente de que a delinquência não teria sido praticada por mim, e também sabe que #EuNãoMereçoSerRoubada, afinal, nunca roubei nada de ninguém na vida! – nem caneta. A despeito de tudo isso, cada vez que eu fosse comprar um celular, teria que ouvir o “mimimi” de que eu sou irresponsável e não mereço ter um, porque não sei cuidar daquilo que é meu.

Confesso que eu sou meio “descuidada” mesmo, muitas vezes. Digo isso no sentido de estar sempre confiante de que nada vai me acontecer, embora já tenha sido agredida e rompido dois ligamentos da perna por reagir a um assalto em que um cara tentou me tomar o carro. Mas gosto de dizer, porque acredito piamente, que é direito meu usar minhas coisas, e transitar sem ser assaltada ou agredida, e ponto final.

Sempre repito que Deus fez tudo para usufruto do homem, e que conto com a proteção dos anjos que o Salmo 91 garante que Deus envia para que me guardem e eu não tropece em pedra alguma, muito menos seja assaltada, mas quando sinto que “a barra ta pesada”, tenho me treinado para dar aquela guardadinha básica na bolsa – celular, tablet, relógio e o que mais possa chamar a atenção, afinal, não vou ficar abanando bife na frente de leão faminto.

Acredite, também acho que #EuNãoMereçoSerRoubada, mesmo que eu goste de andar na rua enquanto converso no whatsapp, confiro minhas notificações das redes sociais ou leio um artigo, mas se um dia isso viesse a acontecer, minha amada genitora que tanto me ama diria, sem papas na língua, que eu mereci e a culpa foi minha, mesmo que ela saiba que o culpado foi o ladrão e não eu.

Agora, vou DESENHAR o que estou dizendo, pra ninguém sair por aí falando que eu concordo que as mulheres seminuas merecem ser estupradas: NINGUÉM MERECE!, – assim como eu não mereço ser roubada – mas muita gente facilita, e isso é verdade incontestável.

A culpa da agressão nunca será da vítima, mas provavelmente alguém que se vista de um jeito despudorado terá mais chances de chamar a atenção do maníaco, assim como quem anda exibindo seus bens de valor por aí vai chamar a atenção dos ladrões.

Além disso, se “não saber se comportar”, segundo a pesquisa, significar “embriagar-se” ou algo do gênero, não tenho dúvidas de que qualquer pessoa que age desse modo está se colocando numa posição de vulnerabilidade e, portanto, sendo irresponsável com sua própria vida. Logo, de algum modo está sendo responsável pelo que lhe sobrevém.

Veja bem, achar que alguém é responsável pela desgraça no sentido de ter sido descuidado ou provocativo, não é o mesmo que achar que foi responsável no sentido de ser culpado, e aí entra a questão de interpretação do que seria a responsabilidade, já que essa não é uma palavra portuguesa de sentido restrito, mas que permite ampla interpretação.

“Ah, quer dizer que homens que se embriagam merecem ser estuprados, então?”, “E se um homem andar sem camisa está pedindo para ser estuprado?”, e mais um monte de comparações são feitas pelo feminismo insensato que insiste em tratar homem e mulher como se fossem completamente iguais. Mas além de inadequadas, elas são incoerentes e cansativas, por várias razões.

Já sabemos que a esmagadora maioria dos estupros são cometidos por homens (eu realmente acho que essa informação é óbvia, mas fazer o quê?), e suas vítimas geralmente são mulheres (idem/ululante), em sua maioria adolescentes ou crianças, e por quê? Por serem presas mais facilmente domináveis pela força, evidentemente.

Homens são naturalmente mais fortes que mulheres (isso é uma questão genética, não sociológica), e têm instintos sexuais mais fortes também (falando de regras, não de exceções). Além do mais, as mulheres não são tão incitadas sexualmente pela aparência dos homens quanto os mesmos o são pela das moçoilas. Vamos combinar, um peitoral definido pode ser bonito e chamar a atenção, mas dificilmente (quase impossivelmente) vai fazer uma mulher ter fantasias eróticas e movê-la a atacar um homem com o intuito de estuprá-lo, né?! Então já podemos concordar que os homens que andam sem camisa podem até ser deselegantes, mas não cabem nessas analogias estapafúrdicas.

Eu poderia continuar discorrendo sobre todas as incoerências desse tipo de pensamento, mas acho desnecessário diante do que já foi dito e do que é evidente. Então, se a questão é que nenhuma mulher merece ser estuprada por causa da (falta de) roupa que usa, tranquilizemo-nos, porque isso é prego batido com ponta virada; mas aqui vai um bom conselho: é melhor não dar bobeira! Como diz a minha vó desde sempre, “o seguro morreu de velho”.


- Luciana Honorata

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