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Prisão perpétua para homossexuais e a inquisição evangélica

Prisão perpétua para homossexuais e a inquisição evangélica

Atualizado: Quinta-feira, 6 Março de 2014 as 8

homossexualidadeTenho um amigo que sempre me dizia, “ah, Luciana polêmica!”, sob protestos da minha parte. Detestava ouvi-lo repetir que eu era uma pessoa polêmica, porque eu realmente não o sou. Na verdade, odeio debates inúteis, e não gosto de dividir opiniões porque sei que sempre há aquelas pessoas que levam para o lado pessoal e, na falta de argumentos ou na incapacidade de expô-los, xingam e bagunçam a discussão – e eu não tenho muita paciência com situações assim. No entanto, assumo, não costumo ser uma pessoa omissa.
 
Isso quer dizer que quando algo mexe com minhas convicções, não consigo e nem aceito me calar. Sobretudo quando é algo mais óbvio e de relevância extrema. Ainda mais quando envolve o ataque à verdade e influencia pessoas para um extremo perigoso. Gosto de pensar que estou sendo movida por 1 Coríntios 13.6, que diz que o amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade, ou seja, me sinto no dever de falar. Então... mãos à obra.
 
Semana passada saiu uma notícia que divulgava uma lei promulgada na Uganda, que declarou que homossexuais podem ser punidos com prisão perpétua naquela nação. Sinceramente, eu não pretendo entrar nos méritos da questão propriamente dita, e condenar ou absolver a decisão do presidente, – não é minha intenção discutir a legitimidade de tal lei – o que realmente me interessa é discutir a reação dos cristãos diante de tal notícia.
 
Fiquei chocada ao ler alguns comentários e publicações de crentes relacionadas a ela. Juro que me senti nos tempos da inquisição (um flashback das aulas de história passou diante dos meus olhos), especialmente por não ter se tratado (apenas) de comentários de leigos sobre o assunto, mas de autoridades cristãs com reconhecimento e grande bagagem doutrinária. Referenciais evangélicos proclamando aos quatro ventos que estavam felizes com a notícia, e desejando “um governante desses em cada nação!”.
 
Veja bem, não é que eu seja simpatizante do movimento LGBTT (não sei quantos “T”). Não mesmo! Como conhecedora da Palavra de Deus, sei o que a Bíblia diz sobre o assunto e sou bem transparente nos meus posicionamentos quanto à questão. Inclusive, já me manifestei em relação à causa diversas vezes nas redes sociais, nunca me colocando contra os homossexuais, mas contra a PL122, que criminaliza a opinião e amordaça os pregadores do evangelho, e alguns absurdos relacionados ao chamado “kit gay”. Nunca contra as pessoas que escolhem a homossexualidade ou desejando sua desgraça.
 
“Ah, Luciana, mas os cristãos devem se posicionar contra o pecado!”, você poderia argumentar. Justo, concordo plenamente, mas se posicionar contra o pecado não é desejar que o pecador caia em desgraça e tenha seu futuro manchado, roubado, ceifado para sempre. O método de Cristo para conscientizar pecadores nunca foi o terrorismo psicológico, ameaças de prisão ou morte. Jamais!
 
Cristo falava de graça e a oferecia. Quando ele mencionava o inferno, tema constante dos seus sermões, ficava claro que seu intuito era alertar e informar sobre uma realidade espiritual inevitável àqueles que rejeitassem a salvação oferecida, e não uma maneira de coagir e forçar seus ouvintes a engolir o Reino de Deus. Ele não usava o medo da punição para manipular, como uma artimanha fascista.
 
É assim que eu vejo algumas pessoas agindo no nosso meio. Evangélicos que, ao invés de graça, espalham terror e condenação, na contramão dos ensinos do Mestre Jesus. Acho que no meio de tanto zelo pela Palavra (porém, sem entendimento, como o apóstolo Paulo disse que era comum no meio dos israelitas), esquecem que ser cristão significa ser como Jesus, tendo o mesmo sentimento, mesmo pensamento, mesma atitude, mesma ação e reação. E isso a gente aprende observando o Mestre.
 
Como eu sei o que Jesus faria numa situação como essa? Tem certeza de que ele não comemoraria a “santa decisão” de punir severamente os homossexuais com prisão perpétua?! 
 
Bom, particularmente, eu nunca vi Jesus comemorando a desgraça alheia na minha Bíblia. Desde que tenho a examinado atentamente (e isso faz nove longos anos), nunca encontrei uma situação assim. Até mesmo quando a punição era devida, merecida, justa, ele se compadecia do pecador como um pai se compadece dos seus filhos.
 
Tenho lembrado em especial do caso da mulher pega em flagrante adultério. Aquela mulher era israelita, vale lembrar, foi pega no ato sexual ilícito e arrastada para a rua, a fim de ser julgada. Estando sob o jugo da Lei Mosaica, cabia a ela não o cárcere eterno, mas algo ainda pior: a pena de morte! Ah, e por apedrejamento, viu? Nada de injeção letal, soninho bacana, morrer sem sentir dor – era pra levar pedrada até bater as botas. Era pra sofrer!
 
Certamente você já conhece o desfecho da história, e provavelmente sabe de cor a máxima de Jesus usada para livrar a mulher das mãos da “polícia moral” da época – Vamos, lá, em coro: “Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Deve saber também que todos saíram de fininho, rabo entre as pernas como cachorrinhos, “acusados pela própria consciência”, como relata o texto bíblico. 
 
Mas o que eu queria frisar, nem era a reação de Jesus, embora ela muito nos edifique, mas a sua “não-reação”. Fosse Jesus um desses pastores que desejam governantes como o da Uganda em cada nação, teria ele comemorado a astúcia dos fariseus com uma frase como “Nossa, que excelente trabalho de fiscalização o de vocês, parabéns!”. Sabemos que não foi assim, né? 
 
Tivesse Jesus o sentimento de alguns, teria dito algo como, “bem feito, merecido mesmo, quem mandou ir fazer safadeza? Nosso papel é limpar essa raça adúltera para conter o pecado no mundo”. Ah, e instituiria tratamento similar também para avarentos e maldizentes, como consta em 1 Coríntios 6.10, bem ao lado de adúlteros, devassos e efeminados. 
 
Mas Jesus não sentia assim, porque ele não pensava como muitos. 
 
Jesus sentia diferente, porque pensava diferente. Ele acreditava que é a bondade de Deus que conduz o homem ao arrependimento, e não o medo! Ele sabia que a humanidade só pode seguir o caminho do bem em comunhão com Deus, quando o escolhe usando o livre-arbítrio que Deus lhe deu (embora os homens queiram tirá-lo).
 
Jesus não comemorou a pena de morte, ele procurou um escape para a pecadora e ofereceu-lhe a graça e o perdão. Ele apresentou a verdade, o amor e a segunda chance. A alternativa de recomeçar com dignidade e retidão. Quando a despediu, alertou, “vá e não peques mais, para que não te aconteça coisa pior”, não para aterrorizá-la ou ameaça-la, mas porque temia sinceramente pela sua vida e destino.
 
Acredito que chegou a hora de aprendermos que o Reino de Deus e suas leis são para os que escolhem o caminho. Que as escolhas particulares das pessoas são de sua própria alçada, e o papel da Igreja não é condenar, mas fazer brilhar a luz da verdade que LIBERTA PERPETUAMENTE – jamais aprisiona.
 
 
- Luciana Honorata
 

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