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1964, um lamento

Cinquenta anos não parecem longos. O lamento persiste. A dor não passa. O dia tenebroso do golpe continua a sufocar meu riso. O pranto daquela primeira tarde totalitária me devora

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 1 Abril de 2014 as 11:50

Ditadura militarMadrugada de 1 de abril de 1964. O sol, envergonhado, sujeita-se às sombras. Nas estradas tortuosas de Minas Gerais, tanques, feito lesmas diabólicas, se arrastam rumo ao Rio de Janeiro. Nuvens se encolhem no belo horizonte. Um país inteiro assume a posição fetal. Declaro vaga a presidência da república, grita um golpista na Câmara dos Deputados em Brasília. Canalha, reage Tancredo Neves. Acabou-se a democracia. A Constituição está rasgada. Na vassalagem coletiva, a bandeira chora sangue.

O 1 de abril de 1964 permanece vívido em mim. Traumas de um pré-adolescente. Como esquecer? A família ao redor da mesa e mamãe lendo, em alta voz, a carta de despedida que papai conseguiu fazer chegar até nós. Ele não tinha ideia de seu rumo. Onde seria mantido em cativeiro?

Revejo mamãe grávida e espalho cinzas sobre minha calva. Contemplo seu desespero. Sem lugar para morar com os 5 filhos, grávida de gêmeos e sem salário. Sinto-me só ao seu lado. Cogito contratar carpideiras com ordens específicas de prantearem a nossa sorte. O jipe da aeronáutica estaciona na pracinha da Gentilândia trazendo notícias tristes. Ele realmente foi preso. Será mantido incomunicável. Papai é um subversivo e a partir daí, um pária. Trancamos a porta de entrada da casa e choramos. Somos a ponta mais frágil do processo ardiloso de políticos, intelectuais, jornalistas, religiosos, empresários e militares que jogaram o país numa ditadura.

A trapaça prevaleceu. No jogo do poder, os baixos ganharam. O Brasil perdeu. Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Raniere Mazzilli e tantos outros, vassalos do grande império, me fizeram órfão de um pai vivo. Soldados embaionetados destruíram os jardins onde eu poderia semear sonhos. Sobraram poucas flores em minha adolescência preocupada.

No 1 de abril, nossa aldeia ficou deserta. Rapinaram minha casa, saquearam meu lar. Acabaram-se as alcovas da minha privacidade. Tento amealhar um só ganho do rescaldo de tudo o que me sobreveio; nos despojos, só encontro tições frios. Procuro recompor o cenário de paz que antecedeu a gloriosa revolução do dia da mentira e eu me perco. O ódio criou uma fantasia que iludiu o Brasil por quase 30 anos.

Cinquenta anos não parecem longos. O lamento persiste. A dor não passa. O dia tenebroso do golpe continua a sufocar meu riso. O pranto daquela primeira tarde totalitária me devora. Eu e vovô continuamos sentados no corredor da velha casa, procurando desesperadamente sintonizar BBC de Londres e Rádio de Moscou em busca de notícias. Não só a saudade, mas uma angústia sutil estreita as paredes da minha esperança. Nos chiados da rádio, penso ouvir réquiens. Um beco úmido me conduz de volta a tristezas nunca remotas. O prado onde procuro silêncio para meditar sobre a justiça, a coerência, os escrúpulos, continua esburacado. Decepção infantil jamais acaba.

Para que sobrevivêssemos, muitos se tornaram guerrilheiros. Foram para as trincheiras. Morreram. Alguns se esconderam na clandestinidade. Amordaçaram artistas. Acenderam fogueiras com pianos despedaçados. Os profetas de um mundo mais justo se viram obrigados a fugir. Paulo Freire, Miguel Arraes, Darcy Ribeiro, Rubem Alves, Dom Helder Câmara, Anivaldo Padilha e Eródoto José Rodrigues (meu pai) eram os proscritos, os comunistas, os bandidos. Paulo Maluf, Jarbas Passarinho, José Sarney, Emilio Garrastazu Médici, Sérgio Paranhos Fleury, Golbery do Couto e Silva e Sebastião Curió eram os probos patriotas.

O choro de meu pai, nas caladas da madrugada, ainda assombra as minhas madrugadas. Depois de décadas, seu lamento me mantém insone. Continuo a contemplar seu rosto crispado de medo no dia do AI-5. Jamais entenderei como é conviver com a lâmina de uma guilhotina prestes a cair sobre o pescoço. Transportado para as páginas de um romance de Kafka, papai estava condenado mesmo antes de julgado. E nunca encontrou instância ou tribunal para apelar. De repente sua vida despencou. E por anos, ele rolou na ladeira do autoritarismo. A democracia veio tarde demais para ele. Os danos foram indeléveis. A correnteza que fez o oportunismo duradouro, abriu fendas inimagináveis em sua alma.

Escrevo sobre o golpe e minha escrita perde o ritmo. Salas de tortura solapam qualquer poesia. Esboço um texto sobre o tempo sinistro dos coronéis e generais e meu texto sai como um amontoado de tábuas úmidas. Por anos, me assombrei com o franzir da testa de delatores. Por décadas, as maquinações de quem só desejava se perpetuar no poder satanizaram minhas estruturas internas. O Brasil adoeceu e adoeceu gente inocente. Lutei para não me tornar cínico enquanto vi papai definhar através dos anos. Inconformado com o roubo de seus ideais, ele sucumbiu aos poucos.

Sou tentado, como o profeta Jonas, a embarcar rumo a Tarsis. Quero sumir. Parceiro do rei Davi, tenho vontade de afundar minha cama em um Hades. Vejo as famílias que disseminaram medo, ainda ricas; encasteladas na mesma mídia golpista. Quero fazer das trevas, um lençol que me agasalhe.

De repente, noto que milhões escapam da miséria. O sorriso de crianças, esperançosas com um Brasil mais inclusivo e justo, me aconselha: continue. Mulheres e homens, dos quais o mundo não era digno, deram a vida para que um novo amanhã surgisse depois do pesadelo de 1964. Devo honrar a história que eles nos legaram. Continuarei.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

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