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A ameaça que vem do frio

A ameaça que vem do frio

Atualizado: Terça-feira, 25 Fevereiro de 2014 as 10:27

frioÉ possível se adaptar a quase tudo. Dores cruéis, depois de certo tempo, deixam de machucar. Sofrimentos atrozes conseguem se incorporar ao viver. Até decepções passam a ser esperadas. Viver pode consistir em aprender a absorver baques. Encaliçar a alma para seguir adiante. A lei da sobrevivência do mais forte também diz respeito aos humanos. Eles, igualmente, devem se adequar. Sobreviver é preciso. Adaptar-se para não desaparecer na evolução. Criar anticorpos existenciais. Desenvolver resistência espiritual. Vacinar-se emocionalmente.
 
Locusta era uma envenenadora profissional de Roma, que viveu no primeiro século depois de Cristo. Locusta ficou conhecida por ingerir pequenas doses de veneno todos os dias com o intento de adquirir defesa contra as toxinas que usava para matar. As doses homeopáticas do veneno a protegiam. A assassina conseguiu matar sem nunca ser afetada pela peçonha que se valia.
 
As Locustas estão por toda a parte. A alma humana tem capacidade de se revestir. Uma pele grossa a defende de ataques emocionais. Pequenos desgostos tornam os olhos frios. Para não sucumbir, a alma também se adapta. Os anos de ingratidão fazem com que as respostas sejam gélidas. Quem dessensibiliza um coração, cria um apático. O complacente absorve todos os percalços: a noite mal dormida, o almoço requentado, o descaso da burocracia, o quarto mal iluminado. Indiferença passa a ser mecanismo que visa salvar a vida biológica. O insensível segue adiante, sobrevive. Mas paga um alto preço.Vai igual ao boi no corredor do matadouro. Cabisbaixo, aceita a marcha da morte. Anestesiado, consente com o destino. Sem reação, vive à mercê da providência.
 
Interessa a alguns o espírito de manada. Sistemas totalitários preferem mentes domesticadas. Daí, os pessimista de carreira. Quanto mais micro lesões existenciais, mais entorpecidos. Como não é necessário proximidade com a alma para repetir clichê, multiplicam-se os futriqueiros. Ímpios manobram, não só para a maldade explícita, eles preferem lobotomizar. Melhor existir o passivo que o desobediente. Todo ímpeto revolucionário acaba na conformidade. No lugar da revolta, a vassalagem. O indolente vara anos entregue à estupidez da televisão. Sem qualquer senso crítico, caminha na superficialidade do jornalismo de massa. Sem atinar, o amorfo é vítima, enquanto contribui com a demência geral. E quando a complacência se generaliza, pensar passa a ser um privilégio e redarguir, uma raridade.
 
A vida só continua porque os humanos assimilam os baques que produzem. A maior ameaça que paira sobre a humanidade, portanto, não é propriamente a morte socio-ambiental. Seremos destruídos não pelo fogo, mas por um frio interno, o torpor.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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