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Desejo uma teologia que gera comunidade

Em minha teologia, toda a lei se resume a amar a Deus no rosto do meu próximo

fonte: Guiame, Ricardo Gondim

Atualizado: Terça-feira, 3 Fevereiro de 2015 as 9:30

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Teologia é linguagem sobre Deus. Com ela, procuro juntar os cordões do transcendente. Busco o porquê – não o como – que pode dar sentido à minha existência. Enquanto anseio pelo divino, quero me achar. Por algum motivo, não me contento em observar a indiferença do universo. Rubem Alves acertou ao dizer que teologia não pode ser malha que prende o Mistério; teologia é rede onde nos deitamos. Portanto, toda a minha teologia se constitui em linguagem precária que me abre para o transcendente. Com ela, ganho ânimo em minha busca por sentido.

Como pastor de uma comunidade cristã, já proferi incontáveis palestras sobre Deus. Em todos as minhas falas, de alguma forma, fiz teologia. Semanalmente, adolescentes irrequietos, universitários idealistas, pequenas e médias empresárias e funcionários públicos se juntam a idosos e idosas com suas indagações: Por que tanta injustiça? Por que sofrem os justos? Por que nos angustiamos? Reconheço: eu não seria capaz de responder a todas e todos. Também, diante da aflição humana, não tenho o direito de oferecer respostas cínicas. Para mim, resposta cínica absolutiza a certeza e relativiza a pessoa.

Certo domingo, Teresa molhou minha camisa com suas lágrimas. Seu filho se suicidou e ela estava perto do abismo do desespero. Meu abraço, mesmo sem palavra alguma, foi a única resposta que encontrei para sua dor. Ao acolher seu lamento, sei que articulava a teologia do silêncio. Na impotência de não ter o que dizer em um momento comum e brutal, percebi: eu não precisava dar explicação. Teresa não precisava de lógica, mas de abraço afetuoso. Naquele momento, vi que a resposta padronizada é ridícula – a gente só nota o vício do clichê quando se vê diante de uma pessoa destroçada pela tragédia.

Já não consigo falar de Deus e esquecer a sala da hemodiálise, o quintal da casa, o pátio do colégio, a coxia do teatro, o corredor do manicômio e a encosta da favela. Para que serve qualquer teoria se não tem força de encarar os Josés, as Tânias, os Rodrigos e as Kátias, que lutam para dar sentido à vida? Os amigos de Jó tropeçaram nos próprios cadarços porque se imaginaram capazes de oferecer consolo com juízo precipitado.

No confronto inesperados com a dor, aprendi a respeitar meus limites. A morte de um jovem me colocou cara a cara com a insuficiência da linguagem. Depois de encontrar aquela mulher, decidi falar de Deus sem me imaginar apto para exauri-lo. Sei que a amplitude de meus conceitos sobre o mistério da divindade é fração de uma sabedoria milenar e global. Desejo, portanto, oferecer mais compaixão e menos explicação. Se no passado confundi entusiasmo com afobação, zelo com intolerância, arrojo com precipitação, desisto de abarcar o infinito com meu dogma. Não pretendo substituir abraço com discurso.

Anseio falar do céu sem me desgrudar do mundo. Deus não vive em alguma dimensão remota do universo. Não o encontro no sobrenatural, mas em atos amorosos. Deus ama pessoas, por isso prefere tabernacular entre nós – seu nome é Emanuel.

Sem reputação a defender, desisto do fascínio do sucesso, de angariar plateias, de me inebriar com unanimidade para buscar uma teologia que expresse bondade – virtude que nos livra da bestialidade. Preciso ser compreensivo com os menos afortunados, nunca permitindo que falsas culpas promovam baixa autoestima. O conceito que desenvolvemos sobre Deus reflete o que mais sonhamos. Se falamos de amor, não há como nos manter impacientes com as inadequações de quem não consegue lidar com a dureza de existir. A religião que agrada a Deus tem tudo a ver com a oração de São Francisco de Assis: Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se nasce para a vida eterna. Em minha teologia, toda a lei se resume a amar a Deus no rosto do meu próximo.

Desejo uma teologia que gera comunidade. Desprezo conceitos medievais de um Deus zangado, que persegue e mata desafetos. Deus não está irado conosco. Preciso falar mais sobre o Deus comensal, que convida a todos para sentarem à mesa. Careço propagar a espiritualidade no reino da camaradagem e anunciar que ele anseia tornar-se nosso parceiro na condução da história.

Sei, se conseguir teologar assim, com a ternura dos poetas e a paixão dos profetas, completo a minha carreira e guardo a fé.

Soli Deo Gloria

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