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Entre a beleza mágica e a certeza fria

Os que roubaram de mim a beleza da fé, devolvam minha alma de poeta, coração de menino e a leveza de bailarino

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Segunda-feira, 29 Dezembro de 2015 as 11:08

reflexãoInfelizmente o mundo continua dividido entre feiticeiros e químicos, cientistas e filósofos, gramáticos e poetas. Digo infelizmente porque não foi sempre assim.

Houve um tempo em que os astrônomos se enamoravam pelo piscar das estrelas, os físicos acreditavam que uma linda bordadeira havia costurado o universo e os biólogos celebravam respirar dos humanos, mesmo vindos de um boneco de barro.

Houve um tempo em que os jumentos falavam, as estéreis geravam filhos (extra)ordinários, os anjos vingavam agressores, os cajados secos floresciam e o sol parava para esperar pelos frágeis, quando perdiam batalhas.

Houve um tempo em que as fadas ajudavam as órfãs, o beijo do príncipe ressuscitava a princesa do sono, os espelhos se rebelavam para responder com honestidade, e as crianças talhadas em madeira viravam gente.

Houve um tempo em que a metáfora reinava na literatura. A copa das árvores era cálice verde de onde respingava o orvalho da manhã; a saudade, uma mulher que arrumava o quarto do filho que já morreu; e a alma da lua se escondia na garganta do galo a soluçar o seu canto da madrugada.

Houve um tempo em que se experimentava Deus com fôlego, olfato e paladar.

Naquele tempo encontrávamos o colo materno, perdido desde a adolescência. Deus encarnava o pastor solitário que, sentado numa pedra, espia as ovelhas a pastar numa montanha distante; era o amante que abandona o harém para cortejar a amada; tornava-se juiz que assume a briga dos mais frágeis; era o médico que traz um bálsamo que alivia a dor da alma; ladeava o amigo, tão achegado quanto um irmão; era o rei que anuncia o despertar de uma nova ordem, onde justiça e paz se beijam; era o pai que educa seus filhos para uma existência madura e autônoma.

Houve um tempo em que se liam os textos sagrados com reverência. Diante do numinoso, o mortal tremia; diante do sagrado, o pecador temia; diante do infinito, o finito se perdia; diante do eterno, o humano se encolhia.

Lentamente, teólogos e exegetas, cientistas e técnicos, gramáticos e linguistas minaram os sonhos e as fantasias dos meninos. No esforço de explicar o mistério, esvaziaram a verdade dos poetas. Na tolice de captar a verdade, sistematizaram Deus. Em nome do racional, dissecaram o poema e criticaram a alegoria. Pior, conseguiram! Exilaram os magos que correm atrás das estrelas. Sumiram com os profetas alucinados que descrevem rodas de fogo no céu. Queimaram mulheres que sentem no corpo o êxtase do divino. No ímpeto de explicar o impossível e mapear os rumos do Espírito, assassinaram a beleza; deixaram o mundo mais pobre, a fé mais segura, a oração menos incerta — e Deus menor.

Agora, quando precisarem de milagre, as pessoas dispõem de hábeis evangelistas que sabem abrir as janelas do céu; no caso de dúvidas, podem adquirir manuais exaustivos sobre o Mistério; quando a vida parecer ameaçadora, é possível domesticá-la, sempre algum mago de aluguel estará disposto a cobrar pouco.

Minha alma anseia, porém, pela poesia que me abandona reticente; quero a prosa que me ferve o sangue; desejo a ficção que me comove as entranhas; anelo pelo drama que me arrepia a pele; sou atraído por personagens que saltam dos palcos para chão da vida.

Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças, ainda habita na musa do poeta, ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro. Sinto que sua habitação fica no vazio. Deus mora no nada que o vento sugere. Sua glória se esconde numa nuvem espessa no alto das montanhas. Sinto que só alcanço sua verdade no desconhecido absoluto. Preciso do inaudível para escutar sua voz. Sinto que Deus é presença imperceptível, verdade diáfana e mistério espantoso.

Morri para o esforço de fazer análise sintática ou crítica textual dos textos sagrados. Já não invejo os apologetas, defensores das certezas. Busco, tão somente, aprender a crer como transcendência. Os que roubaram de mim a beleza da fé, devolvam minha alma de poeta, coração de menino e a leveza de bailarino.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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