MENU

Eternizar o instante

Acredito que viver significa valorizar a fração diminuta do tempo antes que ele se disperse em esquecimento

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Quinta-feira, 18 Dezembro de 2014 as 3:27

tremAinda adolescente, assisti a um filme produzido na antiga União Soviética. O enredo contava a história de um rapaz destacado para o front na II Guerra Mundial. 

Depois de dois anos longe, o jovem finalmente ganhou um salvo conduto de quinze dias para voltar para casa. Gastaria o tempo com a mãe. A viagem de regresso, contudo, foi cheia de percalços. O trem quebrou. Aconteceu um ataque de tropas inimigas. Nevou. Os incidentes se multiplicaram. Depois de inúmeros atrasos, ao desembarcar na estação do vilarejo, o soldado só dispunha de alguns poucos minutos antes de pegar o trem que lhe devolveria às tropas. Se falhasse, enfrentaria processo como desertor.

O inominável se deu com a mãe: ela também se atrasou. Os raros minutos do rapaz foram desperdiçados a andar, desesperado, de um lado para outro. O tempo se esgotou. Ele se viu obrigado a subir de volta ao mesmo vagão. Mas eis que, no exato momento em que o trem começou a se afastar, a mãe chega. A dramaticidade da trama atinge o ponto máximo quando a mulher corre atrás do trem. Com a locomotiva em movimento, filho e mãe mal conseguem tocar a ponta dos dedos.

Todo o esforço da viagem se resumiu ao simples toque de dedos e uma mera troca de olhares. Na última cena, o vagão desaparece numa curva enquanto o filho se recosta, aliviado, em um assento de madeira. Ele parece feliz, com um leve sorriso nos lábios. O filme deixa uma mensagem: quando amamos, qualquer encontro, mesmo fluido, rápido ou impermanente se torna precioso.

Na vida, contamos com duas dimensões: passado e futuro. O passado, que se alonga como sombra, e o futuro, que encolhe. Nunca possuímos o presente. O instante foge. O presente escapa. O momento se esfumaça. A vida se dilui velozmente. A única constância que existe é o devir, que transforma, sem parar, futuro em passado. Essa fluidez ninguém impede.

No hiato fugaz entre o porvir e o passado, alguns acontecimentos se perdem, outros se eternizam. Com o passar dos anos nossa memória vai se tornando seletiva. De tudo o que vivenciamos, apenas um punhado de eventos fica armazenado – alguns doloridos, outros felizes.

Sempre que conseguimos armazenar na lembrança um acontecimento, eternizamos aquele instante. Permanecem na gente tanto as recordações boas como as ruins. Carregamos em algum recôndito da alma, cicatrizes, traumas, olhares ferinos, frases destruidoras, gestos ameaçadores. Também mantemos, como um flash agradável, incentivos, abraços solidários, acolhimentos, sorrisos.

Participei de reuniões que não consigo recordar a data – dia, mês e ano se apagaram. Consigo lembrar, entretanto, o semblante de pedra das pessoas que lá estavam. Posso, inclusive, repetir uma frase agressiva que me foi dirigida. Ainda me retraio com a lembrança da mão gelada que me cumprimentou em uma despedida.

Esqueci o nome de vários antigos amigos. Perdi o contato com eles e já nem sei por onde andam. Posso rememorar, contudo, piadas, brincadeiras e sorrisos que tornaram esses amigos preciosos.

Meus pais se eternizaram dentro de mim. Bem criança, lembro: o dedo estendido do papai substituía a mão. Sempre que saíamos para algum lugar, papai cerrava o punho e deixava apenas o indicador para eu segurar. O dedo servia de âncora para mim – só de mencionar me sinto forte. Continua impregnada em minha alma a iniciativa que mamãe teve de passar a limpo o meu dever de história do Brasil. Desde aquele longínquo quarto ano primário, as páginas do caderno, com uma letra bem desenhada, continuam nítidas dentro de mim.

Os anos me tornaram um museu de imagem e som. Vez por outra visito a sala onde ressoam vozes antigas. Revejo, também, como um filme, a Carolina engatinhando, acompanho a Cynthia em sua ginástica artística e ensino o Pedro a andar de bicicleta. Em meus arquivos, guardo o abraço da Geruza para me receber de uma longa viagem ao exterior.

Acredito que viver significa valorizar a fração diminuta do tempo antes que ele se disperse em esquecimento. Sim, viver é estocar memória. No derradeiro segundo, quando contemplaremos, num relance, toda a vida passada, será bom fechar os olhos com o mesmo sorriso do jovem soldado russo.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

veja também