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Imutabilidade nega o amor

Não há como ser misericordioso, gracioso e imutável ao mesmo tempo. A alvissareira nova de Jesus é que Deus não se prende a dogmatismos, legalismos e determinismos

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Quinta-feira, 31 Julho de 2014 as 4:34

coraçãoNão simpatizo com algumas categorias teológicas do senso comum religioso faz tempo. A associação imediata que se faz entre poder e Deus me inquieta.

Antes, preciso confessar: eu já concebi os atributos de Deus como verdades metafísicas inquestionáveis. Enquanto as defendia, desejava preservar Deus de possíveis diminuições. Hoje percebo que tal zelo se apoiava em premissas da filosofia grega. Quando raciocinava sobre Deus e sobre o exercício do poder, repeti, inconscientemente, o conceito aristotélico do motor imóvel. Eu acreditava que a sobreposição helênica às narrativas semíticas sobre a divindade era importante para dar consistência racional à fé. Mal notei que, enquanto as páginas da Bíblia continham textos inconclusivos para descrever Deus, a lógica filosófica procurava encerrá-lo no absolutamente perfeito. Na filosofia, Deus é dado como axioma que extrapola a imperfeição humana. Como Deus faz parte do mundo das ideias perfeitas, nada pode afetá-lo, nada altera seu desígnio, nada o comove. Ele tudo move, mas nada consegue movê-lo.

Intrigado, questionei o motivo de Jesus Cristo escandalizar a elite religiosa de seus dias – fariseus, saduceus e doutores da lei. Os judeus aguardavam o Messias há séculos. Nutriam uma expectativa triunfalista para a chegada do ungido de Deus e imaginavam um redentor sem igual. Em setores mais politizados de Israel, ele se manifestaria como o grande libertador, numa versão melhorada e glorificada de Moisés. Entre os mais ortodoxos – fariseus e levitas – o preferido de Deus viria renovar os princípios da Torá. Seu profetismo excederia o de Elias, o profeta mais reverenciado na tradição hebraica. Entre herodianos e zelotas, o redentor vingaria Israel como grande império; sob sua liderança, Roma seria esmagada.

O processo de helenizacão do mundo já afetava os lugares por onde Jesus transitou. A Bíblia hebraica estava traduzida para o grego – a Septuaginta. A mensagem de Jesus escandalizou exatamente essa cultura. O que o amigo dos pecadores vivia e ensinava, simplesmente não cabia nas idealizações gregas sobre a divindade. O Deus que ele afirmava revelar parecia loucura.

O Deus dos fariseus zelava para que a lei nunca fosse desobedecida. Ele castigava duramente pecadores que traziam maldição sobre Israel (Deuteronômio 28 contém várias advertências e promessas de maldição para os desobedientes). Jesus ensinava e vivia em suas relações com o próximo a flexibilização da lei em nome da misericórdia.

A mulher apanhada em adultério experimentou como ele usou a força do amor para dobrar a rigidez do mandamento: Onde estão os seus acusadores? Eu não condeno você. Vá em paz e não peque de novo. Outra mulher (siro-fenícia, portanto, gentílica) foi alvo do triunfo da bondade sobre a coerência – Jesus curou sua filha momentos depois de dizer que a sua missão se restringia à casa de Israel. Um centurião romano exemplificou a excelência da solidariedade como exemplo de fé. Certa mulher impura devido a uma menstruação crônica foi curada apesar da impureza. O endiabrado de Gadara experimentou uma libertação que a cidade, seduzida pelo lucro do comércio de porcos, nunca lhe dera. Bartimeu, o cego da calçada, atestou em seu encontro com Jesus: pobres, marginalizados e esquecidos podem se aproximar de Deus.

Jesus não revelou um Deus juiz que persegue culpados como Javert. Ao contar a parábola do filho pródigo, o rabino de Cafarnaum deixou claro que, entre as muitas narrativas hebraicas, ele pinçava as que mostravam o Deus amoroso e não guerreiro, acolhedor e não justiceiro, suave e não imperativo. O Deus de Jesus não se assemelhava em nada ao motor imóvel de Aristóteles. Ele é o pai ferido da história. Enquanto aguarda a volta do filho perdido, sofre. O pai corre ao encontro do filho. Mesmo com o mal cheiro de lavagem de pocilga, o filho recebe beijos, ganha anel e sandália.

Se o farisaísmo antecipou um Deus mais forte que Baal, Jesus se mostrou frágil. Ele preferia andar ao lado de pescadores rudes ao ambiente refinado do clero. Se zelotes aguardavam um líder à frente de um exército mais destrutivo que as legiões romanas, Jesus mostrava crianças e dizia: O reino de Deus pertence a elas. Se herodianos ambicionavam guindar Israel como líder do mundo, revertendo séculos de opressão, Jesus abria o rolo da lei e lia: O Espírito do Senhor me ungiu para dar boas notícias aos pobres. O nazareno se condenou. Depois de afirmar que era a expressa imagem de Deus, os interesses financeiros da religião sentenciaram: ele tem de morrer. Um Deus fraco não servia, não serve e nunca servirá, aos interesses da religião – qualquer uma.

A revelação que Jesus trouxe de Deus eclipsou tanto o Deus dos fariseus como o de Aristóteles. Ele não se assemelhava em nada com o Ato Puro da filosofia. Em Cristo, Deus não é apático. Ele se comoveu de afetos viscerais por uma viúva a caminho de enterrar o filho e chorou diante da sepultura do amigo. O filho de Maria, encarnou, de fato, a profecia de Isaías 63:9: Em toda a angústia deles, ele também foi angustiado. A dor de homens e de mulheres magoa Deus.

Todavia, o que verdadeiramente escandalizou no Deus que Jesus encarnou foi sua tremenda inconsistência. Não há como ser misericordioso, gracioso e imutável ao mesmo tempo. A alvissareira nova de Jesus é que Deus não se prende a dogmatismos, legalismos e determinismos. Ele perdoa, restaura, reescreve história e caminha, pacientemente, ao lado de homens e mulheres. Deus conhece nossa estrutura, sabe que somos pó e como um pai/mãe, ama. Os fariseus se desesperaram com essa quebra de paradigma. Religiosos nunca suportam que a teologia montada na premissa do Deus intransigente e inamovível desabe. Enlouquecidos pelo zelo, a elite religiosa cometeu deicídio.

Jesus inaugurou um reino sem paralelo nos reinos humanos. O verbo se fez carne e os poderosos não perceberam. Jesus se valeu de metáforas diminutas para revelar seu reino: grão de mostarda, meninos e meninas, ovelha indefesa. Outras vezes, falou de servos inoperantes e inúteis para mostrar o cuidado divino. Para descrever as relações de Deus com a humanidade, valeu-se de personagens como o filho pródigo, a prostituta, o leproso, o cego, o mendigo. E para o horror dos que exigem pureza na fé, até romanos e exorcistas informais ganharam elogio.

Jesus confunde qualquer elaboração filosófica e teológica a respeito do poder. Nele, Deus é todo amor, portanto, todo vulnerabilidade. Essa fraqueza, entretanto, é forte. Deus não é poder que ama. Ele é amor todo-poderoso. No carpinteiro da Galiléia, todas as outras expressões da divindade podem ser descartadas como idólatras.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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