MENU

Nem tudo são flores no movimento evangélico

Quais perspectivas teológicas se desenham no futuro do movimento evangélico?

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Sexta-feira, 12 Setembro de 2014 as 9:19

evangelhoEntrei em um salão de snooker sentindo náuseas. Uma vertigem diferente invadiu meu corpo. As mesas verdes espalhadas pelo largo espaço me lembravam um necrotério. Eu estava na Inglaterra.

Por que um necrotério? Eu explico. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja. Porém, a congregação definhou através dos anos e o prédio precisou ser vendido. O pastor que me levou na insólita visita relatou que na Inglaterra um grande número de igrejas, iguais aquela, minguaram. Devido aos altos custos de manutenção, só restou ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são muçulmanos, donos de lojas de antiguidades e bares e boates. Duro para um pastor ver um púlpito transformado em bar. Triste ler, entre bêbados, inscrições de textos bíblicos talhados em pedra - Pregamos a Cristo crucificado – O sangue Cristo nos purifica de todo pecado.

Procurei voltar no tempo. Lembrei: aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já tinha experimentado vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, ostentavam o nome de pastores ilustres que pregaram no altar – agora, balcão de servir whisky. Eu estava ali, em um sábado, e o espaço estava cheio de homens vazios. Perguntei a mim mesmo: o que matou essa congregação? Em meu solilóquio, pensei no Brasil.

Semelhante ao avivamento wesleyano, o movimento evangélico cresce com taxas surpreendentes. Não há como negar a efervescência religiosa que toma o país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem mais que cantores seculares. Publicam-se centenas de revistas e incontáveis títulos de livros. Livrarias comercializam bugigangas religiosas. Por outro lado, talvez bem diferente do que aconteceu na Inglaterra, o desgaste do movimento é assombroso. Entre os formadores de opinião – jornalistas, blogueiros, acadêmicos – a credibilidade ética fica na redondeza do zero.

Essa realidade produz desdobramentos preocupantes. Se, com toda a rigidez doutrinária do protestantismo inglês, ética do metodismo e a própria disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo não pode acontecer no Brasil? Infelizmente, sim. Insisto: as razões que implodiram inúmeras congregações européias são diferentes, óbvio. Lá, a reação anti-clerical alicerçada na filosofia naturalista apressou os processos de secularização. Universidades fomentaram enorme antipatia a tudo o que não cabia no esquema lógico e racional. Sem penetração popular, o liberalismo teológico ainda procurou avenidas de diálogo, mas não foi muito longe. No Brasil, o que ameaça o movimento evangélico? A própria estrutura teológica e institucional que o sustenta e expande.

Quem visita uma igreja evangélica no Brasil tem a oportunidade de perceber o culto a uma divindade bem tribal. O Deus paroquial cultuado na maioria das igrejas se molda aos contornos teológicos da comunidade. A divindade ajuda a ascender com upgrade financeiro, com cura e com solução imediata de problemas. Deus não passa de um ajudador celestial, que se acessa e que se conquista, cumprindo obrigações. Devidamente adulado, ele resolve tudo. O divino selvagem fica tão domesticado que o pastor parece ser o único a ter medo: talvez a oferta não cubra as despesas da igreja e os planos de expandir a obra de Deus fiquem comprometidos. Essa habilidade de manejar o divino fomenta uma atitude displicente e descomprometida quanto ao sagrado. O Deus a serviço do povo para lhes cumprir desejos se distancia tanto da tradição judaica, que identificava Javé como fogo consumidor, como da tradição cristã – católica e protestante -, que sempre cantou o Aleluia de Hendel em pé.

O tom de voz exigente e determinante dos neo-apóstolos deixa uma dúvida: quem é o senhor de quem? O culto no movimento evangélico é antropocêntrico. Enquanto prevalecem as catarses coletivas com testemunhos mirabolantes de milagre, fica uma pergunta: Deus é mais um estimulante químico? Pastores não se incomodam de transgredir o mandamento de tomar o nome de Deus. Juram falar em seu nome — só para serem contraditos por suas próprias profecias. Os milagres, inflados pela manipulação, revelam falta de reverência. Descaso com o sagrado é faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra a familiaridade do sacerdote, por outro, gera complacência entre o povo.

Complacência e enfado são sinônimos. Acostumado com o Mistério Tremendo, o crente trivializa o divino. O espaço religioso se profana e acaba no mesmo patamar dos encontros corriqueiros, aqueles que podem ser adiados ou não, dependendo das conveniências.

O movimento evangélico mostra pouco cuidado com jargões e clichês. Frases de efeito são copiadas e repetidas sem muita preocupação com seus conteúdos. Algumas, vazias, servem apenas para criar o frenesi ou para demonstrar as certezas do líder. Em alguns redutos, vinhetas repetidas ad nauseum escondem despreparo teológico. Nada como uma frase pronta para legitimar a preguiça. Existe um interesse claro de elevar a temperatura emotiva do culto, mas não de desenvolver senso crítico. Gera-se triunfalismo, mas não se fornecem ferramentas para transformar realidade social. Hannah Arendet, filósofa do século XX, comentou sobre o fato de Eichmann, nazista e braço direito de Hitler, responder com evasivas às interrogações do tribunal de guerra: Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos.

As afirmações tempestivas que infestam o movimento evangélico agem como uma droga pesada. Além de alienar, em cada picada ou cheirada, o narcótico cria mais dependência por dar a sensação de que o próximo efeito será maior do que o anterior.

Quais perspectivas teológicas se desenham no futuro do movimento evangélico? A mistura de meios e fins deve agudizar-se. A ideia de que os fins justificavam os meios já foi devidamente desmerecida – a premissa justifica qualquer comportamento anti-ético. Tomado por um pragmatismo exacerbado, o movimento evangélico tende a confundir o que é meio e o que é fim.

Grave, não saber se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro é mero instrumento de continuar com a igreja. A música cultua ou diverte? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar ideias? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou proclamar uma mensagem? A resposta deixou de ser fácil. Jesus não virou a mesa dos cambistas por discordar do serviço que eles prestavam aos peregrinos que adoravam no templo. Jesus detectou que ali, meios e os fins se tornaram confusos. Já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se o negócio ajudava o culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e a paixão por títulos escancaram realidades complicas: muitas igrejas já não sabem se existem para faturar ou se faturam para existir; não gastam energia em busca de um auditório que os ouça; agora, procuram uma mensagem que segure o auditório. A confusão de meios e fins já começou e o processo de implosão do movimento fica próximo. Vale tudo para manter o show da fé.

O fato de crescer, numericamente, não imuniza o movimento evangélico dos perigos que o rondam. O contrário é mais temerário. Quanto mais um movimento cresce, mais vulnerável à cultura que o rodeia; e quanto mais parecido com cultura, menos ousado em tentar transformá-la. Esses pequenos desvios podem se tornar abismos amanhã. Imaginar que um imenso templo pode virar um bar de snooker pode parecer exagero. Todavia, eu testemunhei na Inglaterra: pesadelos acontecem.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

veja também