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O abismo entre o clichê e a vida

No instante da escolha, entra em ação a lei da semeadura: O que o homem plantar, isso ele colherá - Gl 6.7. Mais pragmático, o provérbio bíblico adverte: Aquele que semeia a injustiça segará males (22.8)

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 13 Maio de 2014 as 12:57

rapazLugar comum é expressão desgastada, massificada e repetida. Chavão vai além: é frase ou combinação de palavras que, de tão repetido, perde sua força original. Já clichê não passa de expressão vazia de conteúdo, superada e sem imaginação. Ao se juntarem linguagem religiosa e pragmatismo, o chão parece ficar mais fértil para brotarem palavras desgastadas.

Religioso adora falar de esperança sem atinar exatamente ao que se refere; trata santidade como um absoluto. A banalização da teologia da prosperidade menciona bênção sem desdobrá-la em miúdos. Há também os cultos impregnados de culpa. Repete-se o lugar comum das cobranças e das listas de compromissos: orar mais, ler disciplinadamente a Bíblia, fazer regime, voltar a cantar no coral. Promessas e mais promessas acontecem mesmo se reconhecendo, de antemão, que tudo ficará engavetado no decorrer da semana. Piedade instrumentalizada pelo lugar comum não passa de platitude, voto vazio.

Os dias veem e passam. O janeiro de hoje se torna igual ao do ano passado – ou do retrasado. Em meados de maio, os anseios do reveillon envelheceram e sobra o tédio. Agosto, bem como os demais agostos, se sobrepõem uns aos outros numa cadeia de mesmice. Carlos Drummond de Andrade percebeu: Para ganhar um ano novo que mereça este nome/ Você, meu caro, tem de merecê-lo/ Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil/ Mas tente, experimente, consciente/ É dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre.

As engrenagens do destino não se revertem automaticamante. Fortuna, a deusa da sorte, demora a bater na porta da casa da gente. Pior, Fortuna premia indiscriminadamente. A maioria dos mortais acorda todos os dias obrigada a enfrentar uma realidade dura. Viver, para muitos, custa mais que o suor do rosto.

Ninguém se esquiva dos seus dramas repetindo jargões religiosos. Exorcizar os males da vida com frases de efeito, não passa de coreografia ou de placebo religioso. Não custa notar: idealizações neurolinguistas ou espirituais são impotentes para alterar a realidade. Hannah Arendt (filósofa que buscava entender a mente dos assassinos nazistas durante o tribunal de Nurembergue) se inquietou. Os generais de Hitler respondiam às perguntas dos promotores com clichês. Daí, a conclusão de Arendt: Clichês, frases feitas, adesões a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência.

A vida não acontece nas voltas que a terra dá ao redor do sol, mas na coragem, e prontidão, com que reagimos aos impasses do cotidiano. O futuro não se concretiza na simples cronologia do tempo. A sequência das decisões, gestos, palavras e atitudes geram consequências. Paul Ricoeur repensou fé, acertadamente: uma oportunidade convertida em destino através das constantes escolhas. Sim, o desdobramento de cada escolha anterior inventa um futuro novo.

Quem deseja alterar sua própria história, precisa fugir do desdém, rejeitar o ódio, abominar o rancor, desprezar a avareza e desdenhar da inveja. Vive quem agasalha afeto e semeia a verdade, promovendo concórdia. Relacionamentos, olho no olho, devem estar no topo das prioridades de cada pessoa. Norberto Bobbio, jurista italiano, ao aproximar-se dos 87 anos de idade, escreveu em sua autobiografia intelectual: Hoje alcancei a tranquila consciência, tranquila porém infeliz, de ter chegado apenas aos pés da árvore do conhecimento. Não foi do meu trabalho que obtive as alegrias mais duradouras de minha vida, não obstante as honras, os prêmios, os reconhecimentos públicos recebidos, que aceitei de bom grado mas não ambicionei e tampouco exigi. Obtive-as dos meus relacionamentos – dos mestres que me educaram, das pessoas que amei e que me amaram, de todos aqueles que sempre estiveram ao meu lado e agora me acompanham no último trecho da estrada. [O tempo da memória, Editora Campus]

O presente é o prólogo do futuro. No instante da escolha, entra em ação a lei da semeadura: O que o homem plantar, isso ele colherá - Gl 6.7. Mais pragmático, o provérbio bíblico adverte: Aquele que semeia a injustiça segará males (22.8). Se palavras de ordem não têm força, uma maior segurança para as cidades brasileiras depende de vontade política. Menos fome nos sertões abandonados virá quando se espalhar consciência solidária entre todos os cidadãos. Só a práxis, ação consciente, desmantela estruturas perversas que promovem morte. Pessoas engajadas fazem justiça fluir como ribeiro. Consciência revolucionária depende de revolucionários. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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