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O caminho menos trilhado

Seguir na estrada menos pavimentada parece tanto meu flagelo como minha fortuna

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 7 Outubro de 2014 as 2:16

caminho _ pegadasPreciso da divina companhia de quem se atreve acompanhar-me por uma rota deserta chamada vida. Firo, magoo e decepciono muitas vezes. Sofro se não expresso gratidão. Afasto gente querida. Atropelo companheiros. Como sei a dor de olhar para trás e ter remorso de não ter celebrado mais instantes, vez por outra luto para não lacrar as janelas da existência.

Contudo, seguir na estrada menos pavimentada parece tanto meu flagelo como minha fortuna. Não é fácil andar comigo. Perseguir horizontes pouco nítidos – nebulosos – me desafia desde sempre. Mesmo quando acho difícil desvelar os enigmas herméticos, insisto em esmiuçar a sutil revelação da transcendência. Acho tudo complicado e quero saber o porquê.

Solitário – sem escolher a solidão – subo desfiladeiro. Não me interesso por descidas. Minha alma se interessa por conquistar as escarpas das serras. Cavalgo por prados selvagens sem atentar para os buracos perigosos. Nado na contramão da enxurrada que empurra toras de madeira enquanto cava rochas. Perto de mim, canhoto, as pessoas entendem o significado mais profundo de ser sinistro.

Meu corpo pede quietude, todavia, não cesso de espernear por dentro. Sou todo desassossego, todo alvoroço, todo rebuliço. Se recuo diante de acenos inquisitórios é devido ao meu destemor dos patrulheiros dos bons modos. No banquete dos bem comportados, necessito de espaço para os cotovelos. Meu ímpeto de escrever não tolera a cisma de escandalizar. Quero devanear como um poeta: alucinado com a beleza imarcescível, apaixonado pelo mistério inesgotável e alumbrado com a solenidade do sagrado.

Sei que não devo tentar explicar-me. Não por descaso, mas por me faltarem palavras. Como descrever a imensidão submersa de um coração apaixonado? Eu também tenho um caso de amor com a vida.

Minha interioridade é só minha. Mesmo assim continuo estrangeiro de mim mesmo. O homem que me encara de dentro do espelho mal sabe quem eu sou. Meus pensamentos se agitam, insubmissos. Os sentimentos colidem em noites insones. Constantes terremotos misturam medo e ousadia, ternura e raiva, fé e dúvida, empenho e fadiga. Na areia do tempo, me desconheço cada dia mais. Sou ambíguo e lógico, sensível e ríspido, melancólico e cheio de esperança.

Se insisto em não precisar de ninguém, no mesmo fôlego choro por companhia. Procuro o deserto só para morrer de saudade. Entre retroceder e avançar nos afetos, fico tensionado como elástico de estilingue. Acendo os faróis para o futuro e, ao mesmo tempo, lanço âncora. Rasgo mapas, roteiros, bulas, dogmas, contudo, gosto do rito do encontro. A antiga eucaristia do pão rasgado e do vinho tinto me enchem de significados novos. Cafuné, abraço e pequenos parágrafos carinhosos se tornam tão essenciais quanto o vento – o espírito – que me anima com eternidades. Na senda pouco povoada por onde viajo, confesso carência de intimidade.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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