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O que um nome encerra?

O nome cria preconceitos. Em determinados círculos, mencionar Karl Marx suscita admiração, em outros, rejeição

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 16 Setembro de 2014 as 3:06

nomeA pergunta é de Shakespeare. Procuro responder. Um nome guarda alguém, estabelece uma identidade, firma um perfil, cria uma personagem. Dizer Martin Luther King, Nelson Mandela ou Madre Tereza relembra valor, solidariedade, justiça.

O nome cria preconceitos. Em determinados círculos, mencionar Karl Marx suscita admiração, em outros, rejeição. Minha avó paterna tinha o sobrenome Franco; seu nome soa doce aos meus ouvidos. Na Espanha, Franco se associa à Guerra Civil espanhola. Quem lembra do Pinochet avô? Seu nome ficará para a história como fascista, um truculento. Watergate grudou em Nixon. Contracultura e Beatles remontam a década de 1960. Sim, um nome encerra universos distintos.

Os títulos também contam. Na religião, taxar alguém de herege desautoriza à priori. Todavia, o mesmo herege pode transitar em espaços acadêmicos sem tanta oposição. No futebol, cartola significa caudilho, que conspira e manipula. O xingamento para sindicalista venal é pelego. Desqualifica-se alguém na política se grudar nele o adjetivo corrupto.

Caim ganhou um sinal que o diferenciou por toda a vida. Um estigma pode ter mais ou menos relevância em épocas diferentes. Nos anos de chumbo da ditadura, ser guerrilheiro era maldição. O subversivo sofria discriminação, era um maldito (meu pai foi chamado de subversivo).

Hoje, basta tratar qualquer movimento de resistência como terrorismo para que perca a credibilidade. A pecha suspende não só a argumentação sobre o grupo, como coloca as pessoas envolvidas nele sob risco de serem assassinadas. Na baia de Guantanamo, em Cuba, os Estados Unidos mantém um campo de concentração com presos que ninguém sabe onde, quando ou porque foram considerados terroristas. Como nunca foram processados e não têm acusação formal, mofam à espera que alguma dia alguém informe o crime que cometeram. Kafka não imaginou que o pesadelo de O processo aconteceria tão cedo.

Com quais critérios um país trata o outro como terrorista? Pela sofisticação das armas? Quando os Estados Unidos despejavam bomba Napalm sobre o Vietnam, comportavam-se como nação terrorista? A aventura cubana de exportar revolução para a África foi legítima? Um palestino que se explode em praça pública para matar o maior número de pessoas é terrorista, com certeza, mas o que dizer do piloto que aperta o botão que dispara mísseis a laser sobre uma praça em Gaza? Qual a diferença entre os dois?

Nizar Rayyan era terrorista; um dos lideres do Hamas. Não há como justificar o ódio de Rayyan, principalmente, depois que se soube que ele não procurou evitar que seu filho de 22 anos de idade se explodisse como homem bomba. Ele respirava vingança. Não posso e nem quero defendê-lo. Rayyan foi assassinado numa ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Para eliminá-lo, Israel bombardeou a sua residência. Matou todos enquanto dormiam. Quatro mulheres, seis filhos e duas outras pessoas da família.

Não, Rayyan não se valeu de inocentes como escudos humanos. Ele dormia em casa. Por que não houve uma comoção planetária contra o massacre, não de Rayyan, mas dos 12 inocentes? Porque o mundo considerou as mortes meros danos colaterais? O bem maior de eliminar um terrorista perigoso justificou que outros também fossem assassinados juntos? A frieza que faz valer nosso direito de revidar pode seguir impune?

Fica a pergunta: caso um palestino considere um líder judeu uma ameaça, ele tem legitimidade para assassinar? Não sugiro tal absurdo. Procuro pensar como qualquer um reagiria se todo o seu bairro fosse destruído porque na esquina morava alguém taxado de terrorista. A violência do mais forte suscita uma ira reprimida no mais fraco. Essa ira um dia aparecerá com mais violência, perpetuando o ciclo do ódio. Portanto, não é possível ficar de um lado da trincheira, cheio de preconceito, justificando e aceitando atrocidade, de qualquer lado, contra inocentes.

A lógica da vingança é errada. Nenhum inocente deve pagar pelos erros alheios. Não é possível que, em nome de uma caçada a terroristas, crianças, mulheres e idosos paguem com suas vidas. Ódio nunca gera paz. Assassinatos jamais acabam com a violência. Brasileiros, que já testemunharam a truculência de atirar sem qualquer critério nas favelas, sabem: os traficantes não são eliminados com tiro – quanto mais a polícia mata, mais cria ambiente para o crime.

Se o governo de Israel optar por um cinturão de bondade, lutar para que haja justiça na Faixa de Gaza e tratar o povo sofrido com a dignidade que faltou aos judeus na década de 1930, tenho certeza que o ciclo da violência acaba. Em um momento crítico, quando a violência seria justificável, Jesus ordenou a Pedro que guardasse a espada e não revidasse. Porque quem com a espada fere, com a espada será ferido.

Chega de rótulos, chega de preconceitos, chega de ira. Somos todos irmãos. Habitamos uma só casa, nosso planeta. Mesmo que discordemos sobre religião, política ou filosofia, em nome da sobrevivência da espécie, resta respeitarmo-nos uns aos outros. Nosso nome ficará para a posteridade como? Semeadores de discórdia? Pacificadores?

Soli Deo Gloria

 

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