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O silêncio de um telhado

O silêncio de um telhado

Atualizado: Terça-feira, 18 Fevereiro de 2014 as 10:47

telhadoQuando a saudade aperta sem apresentar suas razões, lembro de que como eu gostava de ficar só. O telhado da casa da vovó virou um refúgio secreto. Com pouco mais de 11 anos, eu já precisava de solitude; nossa casa estava sempre superlotada. Subia três metros de um muro, me agarrava à eira da casa e escalava o telhado. Nessa cordilheira, no alto de uma cobertura, encontrava absoluto recolhimento. Sentado nas telhas de barro, por duas horas, que pareciam séculos, meditava. Enquanto contemplava o infinito, devaneava sobre o mistério da vida. Décadas mais tarde, li em Vladimir Nabakov que todo silêncio é o reconhecimento de um mistério - eu intuía essa verdade sem racionalizá-la.
 
Às vezes, volta o desejo de sentar no pináculo da catedral que eu mesmo ergui. Pré-adolescente, construi no tempo, o espaço que me possibilitava distanciamento. Na cumeeira de casa, alcançava o próprio céu. Aquela reclusão representava para mim um cantinho de felicidade. Era um parêntese onde me achava e me perdia.
 
O sol opressivo grelhava a minha pele. O horizonte se limitava ao fundo do quintal. O universo, entretanto, se coloria com as lágrimas da minha inquietação pueril. E eu gostava de ficar ali. O velho bangalô onde vivíamos tempos difíceis já foi demolido, esquartejado pedra por pedra. Em algum monturo deve ter sobrado uma telha com os sulcos cavados pelas gotas salgadas de meus premonitórios prantos – lágrimas que me pouparam da loucura.
 
Ainda consigo lembrar: eu solfejava certas melancolias. Nunca fui afinado, mas ali eu me sentia livre para murmurar alguma bossa-nova. Recordo que sonhava, viajando para longe. Qualquer lugar desconhecido parecia muito distante. Meu desejo de partir expunha o tamanho da sede; prenúncio do suplício que me induziu a repetir na vida adulta: Sou como a corça que suspira por correntes de água… Os anos de ativismo quase embotaram aqueles tempos de introspecção. Graças a Deus, eles ressuscitaram.
 
No velho telhado sussurrei as primeiras preces. No alto, as calhas convergiam em forma de cruz. Deitado, braços estendidos, eu abraçava o convite da dor. Era um asilo construtivo, mas que não se encolhe quando vê sangue. Era pacífico, porém atormentado. Ali, o Eterno contemplou um menino em intermináveis idealismos. Eu me imaginava mais forte que qualquer incidente. Também plantei a semente da poesia que me salvou quando a velhice se avizinhou. Aquele menino continua parecido comigo. Prefiro o desterro a ambientes sofisticados. Ainda faço do recolhimento, um refrigério.
 
Luto para que os muitos barulhos não te destruam dentro de mim, telhado amigo. Já tentaram me deitar abaixo, igualmente esquartejado. Eu resisto. Persistem em minha alma as marcas do recanto que proveste e que me deixava pertinho da eternidade. Devo a ti as palavras do poeta: O tempo passa e junto passam os amigos, mas as memórias são para sempre.
 
Na lancinante  - e fascinante –  tarefa de viver, continuo parceiro do silêncio.
Ando à caça de outros telhados.
Quero voltar a ouvir o cicio de uma bruma sagrada.
Ela pode me refazer por dentro.
 
 
Soli Deo Gloria
 

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