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Reflexões sobre o fundamentalismo

O fundamentalismo sintetizou o que se considerava inegociável na fé cristã. Desse modo, o literalismo dos textos passou a ser chamado de inerrância - por considerar a Bíblia como revelação da verdade objetiva e absoluta de Deus

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Quarta-feira, 4 Junho de 2014 as 2:19

BíbliaDe onde vem o movimento evangélico? Quais as raízes do que se alastrou pela America Latina como uma expressão popular do protestantismo? Movimento evangélico e fundamentalismo se tangenciam?

No final do século XIX, a cristandade protestante europeia fervia. Os centros teológicos passaram a estudar a Bíblia também como obra da literatura, e não como um livro meramente sagrado, ditado por Deus. Esse novo exercício, chamou-se de Alta Crítica. Nos bancos acadêmicos, perguntavam o processo histórico que organizou a Bíblia desde as tradições orais; quem foram os verdadeiro autores dos livros tanto da Bíblia hebraica como do Testamento cristão? Junto com a Alta Crítica, um revisionismo teológico se espalhou nos centros acadêmicos. Esse exercício pareceu uma ameaça à fé. Segmentos mais conservadores, herdeiros tanto do pietismo alemão como do puritanismo inglês, se viram forçados a solidificar suas posições dogmáticas. Nos Estados Unidos, a reação dos protestantes milenaristas (que esperavam a volta de Cristo antes da virada do século XX) a esse tal modernismo teológico foi veemente. Desta reação, nasceu, assim, a militância que tenta preservar a Bíblia, por ser a palavra de Deus, de possíveis ataques humanistas: os fundamentalistas.

Pelo menos alguns fundamentos, diziam os protestantes norte-americanos, precisam ser preservados na relativização que a Auto Crítica desencadeou. O nascimento virginal de Jesus, miraculoso e sem a intervenção humana, sua ressurreição corpórea e sua volta apoteótica eram alguns dos fundamentos considerados inamovíveis da fé. Nos círculos metodistas e nas turnês de cura divina que evangelistas promoviam, o fundamentalismo se alastrou como fogo em palha seca.

Em Dogmatismo e Tolerância, Rubem Alves explica alguns motivos para o fundamentalismo ganhar tanta força:

A grande atração do fundamentalismo [...] está em que, uma vez atingido um consenso sobre a expressão intelectual da fé, terminam as dúvidas. Todos os problemas novos podem e devem ser resolvidos em função das respostas já cristalizadas nas confissões. Deus revelou sua vontade eterna de maneira completa e perfeita por meio da Bíblia. A Bíblia é, assim, o livro sagrado, inspirado. Suas palavras foram ditadas pelo Espírito Santo. Se dispomos de uma confissão ou um sistema de doutrinas que contenha aquilo que o Espírito falou, então, estamos de posse de uma verdade absoluta, que transcende a história, e que permanecerá para sempre, aconteça o que acontecer. O fundamentalismo, assim, constrói um mundo estável e fixo, dominado por certezas, e quem quer que ali penetre verá todas as suas dúvidas terminadas. As questões que a história levanta, os novos problemas que surgem dia a dia, longe de ameaçar o universo fundamentalista, são nada mais que expressões da perversidade do homem, do seu pecado e da sua resistência à verdade bíblica*.

O fundamentalismo sintetizou o que se considerava inegociável na fé cristã. Desse modo, o literalismo dos textos passou a ser chamado de inerrância - por considerar a Bíblia como revelação da verdade objetiva e absoluta de Deus. A inerrância afirma que a Bíblia não tem erro algum. O empenho em preservar a Bíblia foi uma guinada histórica importante. Até então havia certa liberdade em ler as escrituras com suas metáforas, lendas e relatos míticos, sem que essa abordagem significasse apostasia. As doutrinas sobre o nascimento virginal, ressurreição corpórea e salvação do crente como resultado da aceitação dos efeitos forenses da cruz, se tornaram carros chefes do fundamentalismo.

Os fundamentalistas precisavam ler as escrituras literalmente também para preservar os esquemas escatológicos que mapeavam para eles, direitinho, em que época Cristo voltaria. Assim, a volta triunfal de Cristo para arrebatar a sua igreja dos males da grande tribulação se popularizou. Os fundamentalistas se viam como a derradeira geração, o remanescente, dos verdadeiros cristãos. Eles eram a chuva serôdia que antecederia a grande ceifa do reino milenar de Cristo na terra.

Esse fundamentalismo se tornou tão hermético, tão sectário, tão intolerante que antes de 1950, teólogos, pastores e evangelistas romperam com ele. Carl Henry, teólogo, fundador da revista Christianity Today e o evangelista batista, Billy Graham, sentiram a necessidade de arejar o fundamentalismo e dialogar com outros segmentos cristãos. Esse arejamento era muito mais pragmático que conceitual. Os novos evangelicais abriram frestas para o ecumenismo, aceitando católicos na organização das cruzadas de evangelização e, já nos anos 1960, admitindo os pentecostais como crentes legítimos. Os pentecostais, que cresciam pelas beiradas sociais, não podiam ser rejeitados como seita herege.

Desse modo, os evangelicais passaram a ser a cara mais palatável e visível dos fundamentalistas. Com o status de verdadeiros crentes, o pentecostalismo se juntou aos evangelicais e o movimento evangélico, ganhou velocidade. Com a chegada dos irmãos bizarros e barulhentos, os fundamentalistas de origem fizeram bico, mas acabaram se distanciando de uma vez por todas dos evangelicais. Os fundamentalistas permaneceram no anonimato por mais de cinquenta anos até que Ronald Reagan os trouxe às luzes da ribalta com a Moral Majority, que se opunha ao aborto, ao homossexualidade, à teoria da evolução e aos ataques à família. George W. Bush os turbinou e ganhou duas eleições.

Billy Graham, junto com os evangelicais mais arejados, ganhou notoriedade. Graham escalou os degraus do primeiro escalão da política estadunidense. Como capelão oficioso – na verdade, um conselheiro – de vários presidentes, foi uma celebridade. Junto com a ascensão dos evangélicos, os crentes enriqueceram. O dinheiro facilitou o acesso à mídia. De repente, evangelistas, profetas, apóstolos e curandeiros de toda espécie tinham dinheiro para comprar horário na televisão. Daí até a teologia da prosperidade foi um pulo. A teologia da prosperidade chocou os neopentecostais nas incubadoras de Mamóm.

Os evangelicais empreenderam enormes projetos missionários. Dominaram vários seminários e conseguiram redefinir a grade curricular dos cursos de teologia. A formação de pastores na América Latina, por exemplo, aconteceu com subsídio das grandes denominações e do grande capital de crentes fundamentalistas que sentiam a urgência de combater o perigo comunista.

Os evangelicais jamais abandonaram antigos vícios e ranços que deram origem ao fundamentalismo. Na década de 1960, os evangélicos devoravam um autor que se pretendia crítico da modernidade: Francis Schaeffer. Seus livros buscavam mostrar a racionalidade da fé; também desmontar toda e qualquer investida da filosofia contra a factualidade histórica da Bíblia. Nesse mesmo período, os evangélicos elegeram o inglês C. S. Lewis como referência. Ele, um literato de Oxford, servia de exemplo: o cristianismo não é só para gente ignorante – embora C. S. Lewis fosse anglicano e nada soubesse das querelas, tão caras aos fundamentalistas. Quando a teologia sistemática começou a reinar nos seminários evangélicos, acreditava-se que a codificação lógica da verdade era imprescindível para manter a fé relevante. Alunos estudaram e escreveram teologia a partir de categorias lógicas, pretensamente acadêmicas, sempre demonstrando que ciência não invalida fé. Os evangélicos passaram a aceitar o diálogo inter-disciplinar, mas como crítica; não havia diálogo, eles liam sociologia e filosofia à cata erros e sempre demonstrando por critérios científicos a realidade de Deus; também comprovando a necessidade da religião.

Os tempos, contudo, mudaram. De repente, desconstrutores pós-modernos como Lacan e Derridá sugeriram categorias diferentes para a compreensão da linguagem. As leituras que um texto permite se diversificaram. Foucault afirmou que a verdade é, a princípio, um controle. Quem detém o poder dita o que é e o que não é verdade. Para ele, a versão oficial não é, e nem pode ser tratada como “a” verdade factual ou objetiva. Portanto, Foucault propõe que não se restrinjam os textos às lentes racionais emprestadas pela modernidade, pela cúria ou por qualquer escola de pensamento.

As compreensões precisam partir de leituras que rompem com os ditames do poder. Uma verdade deve considerar os afetos, os compromissos emocionais e até as adesões ideológicas. A exatidão da verdade como expressão do verdadeiro perde, assim, a sua antiga importância. As intenções subjetivas, os instrumentos sociais e as manipulações institucionais podem mascarar ou postergar a percepção do que se considera “a” verdade. Portanto, não se deve pretender buscar entender, decodificar ou autenticar “a” verdade, apenas percebê-la, com todas as suas implicações.

Desta forma, não importa o acesso a uma verdade autêntica, única. Tudo se reconfigura, inclusive o conceito de justiça, ou a essência do bem, que passa a ser compreendido no que se forja no palco da vida, no decorrer da história e não em abstrações conceituais. A questão não é mais chegar a um conhecimento absoluto, não é possuir o domínio do saber último, mas adensar o que se pode perceber a favor da vida. A verdade que se vive numa sociedade mais justa excede em importância todas as verdades articuladas na teoria.
O movimento evangélico permanece, infelizmente, dentro do paradigma da modernidade. Ao repetir cogito ergo sum, mantém-se preso a um cartesianismo ultrapassado. O fundamentalista ainda batalha pelo texto, acreditando que a literalidade da escrita serve para comprovar a verdade divina. Cogitar e crer não são sinônimos.

A verdade cristã procura reverter as palavras iniciais do Evangelho de João, e o verbo se fez carne, para transformar carne em verbo. Cristianismo, em outras palavras, busca adensar o discurso na vida, e fazer da vida o melhor discurso. Ghandi acertou ao afirmar: Devemos ser no mundo a mudança que queremos ver no mundo. É necessário transformar-se no que é proclamado e esse esforço não tem nada a ver com a apologética ensinada nos seminários. Grandes segmentos do evangelicalismo restringiram a teologia aos contornos da exegese, confundindo o compreender exatamente com o exercício da fé.

Na percepção da verdade, a consciência se ilumina – não para aumentar o conhecimento – para produzir maturidade humana. Ao descobrir a verdade a razão não atrofia, mas convida ao mergulho interior, às profundezas sensitivas do espírito, ao silêncio de Deus.

Hans Burki repetiu por anos uma frase em inglês: We need to learn the unlearnable – numa tradução livre: “Precisamos aprender o inaprendível”. Paulo não esqueceu de avisar: A letra mata, o espírito é que dá vida [2Coríntios 3.6]. Santo Agostinho afirmou: Deus tem filhos que a igreja não tem. E eu me atrevo a dizer: a verdade não está contida em um texto específico, não é propriedade de qualquer instituição e não se reduz ao que uma geração aprendeu. Repetir, dogmatizar ou policiar um conceito não o torna verdadeiro. Onde está a verdade, então? Bob Dylan pode responder: The answer, my friend, is blowin’ in the wind/ The answer is blowin’ in the wind.

Soli Deo Gloria
*Alves, Rubem – Dogmatismo e Intolerância – Edições Loyola, 2004, 72


- Ricardo Gondim

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