MENU

Sede de viver

Minha sede de viver já me deixou descontente várias vezes. Eu sei o motivo: não me satisfaço em existir, tão somente

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Quarta-feira, 17 Dezembro de 2014 as 8:54

adoraçãoComo meus pais me conceberam por paixão, sou só sentimentos. Desde que seios generosos cessaram de me nutrir, nunca parei de procurar o insólito, de desejar o impossível.

Minha sede de viver me dá tédio por lógicas herméticas. Pensamentos altamente organizados me chateiam. Não gosto de moralismo. Bocejo com discurso piegas. Guardo suspeita de que todo conservadorismo procure defender alguma zona de conforto. Morro de medo de que a demagogia contamine minha fala e minha escrita.

Minha sede de viver me dá apetite por uma mesa rodeada de amigos. Meu paladar melhora com o tempero do afeto. Não preciso ler mais um tratado sobre ternura. Qualquer ombro me basta. Minha sede de viver me fragiliza com abraço, sussurro, pele, suor, olhar. Me vejo disposto a pagar uma exorbitância para ser ouvido. Saber que posso falar para alguém com um rosto amoroso e compreensivo se torna terapia para mim.

Minha sede de viver me faz correr qualquer distância para assistir ao poeta declamando poesia. Me rebelo contra os grilhões do mundo concreto. Ambiciono transcender. Magia, fantasia, ficção, tudo me encanta. Fico deslumbrado diante de palcos e picadeiros. Gasto o que for necessário para ver o artista desempenhar a sua arte. Com uma simples parábola sou capaz de intuir sobre o reino eterno. Uma fábula tem força de inspirar em mim critérios éticos. A trama de um romance ou conto pode me ensinar sobre amor, vingança, ciúme, bondade.

Sei que a música possui métrica matemática. Entendo: sem compasso só teríamos barulho. Quero, entretanto, não pensar nessas engrenagens, apenas me deixar embalar pelo que ouço.

Não dependo de mais explicação sobre o divino; prefiro acreditar que posso degustar Deus. Entre a possibilidade de entender o grande mistério e ser imerso nele, quero, mil vezes, o mergulho.

Minha sede de viver me deixa inebriado com a cores do crepúsculo. O brilho longínquo da estrela também me fascina. Gosto da escuridão do meu quarto, que me dá paz para dormir.

Minha sede de viver já me deixou descontente várias vezes. Eu sei o motivo: não me satisfaço em existir, tão somente.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

veja também