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Sei, sou maior

Sei, sou maior do que imagino, mas continuo sem a menor ideia do que isso significa

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Quinta-feira, 13 Novembro de 2014 as 10:56

espelho_leãoSou maior do que os meus sonhos. Minhas fantasias nascem das inadequações que me atormentam e me enriquecem. Meus devaneios veem da percepção cruel, e fascinante, de saber-me incompleto. Minha sede de eternidade surge da constatação de que sigo rumo ao caminho de todos os mortais. Meu porvir me igualará à minha pré-história, à inconsciência que antecede o dia da minha concepção. O diagnóstico me acorda: meu presente excede em nobreza a qualquer aspiração futura.

Sou maior do que a minha imagem refletida nas águas. A ideia que faço de mim mesmo está contaminada com os rasgos elogiosos de quem me ama, e envenenada com o ódio camuflado de quem me antipatiza. Construi-me a partir de opiniões subjetivas – minhas e dos outros. Não passo de uma abstração. Coexistem em mim o mito e a personagem real. Mas, quem poderia dissociar um do outro? Decompus o sofrimento a meu modo. Criei calos, envernizei arestas, suturei feridas e ninguém jamais entenderá, nem mesmo eu, onde dói mais. Absorvi alegrias de um jeito único. Prazer e felicidade formam, também, em minha peculiaridade, um universo distinto. Minha alma sente cócegas onde nenhum outro sente. Meu espírito se rejubila sem que eu jamais saiba explicar o porquê.

Sou maior do que as minha convicções. Penso, medito, reflito, repenso e regurgito ideias sem esgotar questionamentos infantis. Por que existe algo e não o nada? Como o mal se universalizou? De onde vem a intuição sobre alguém ou algo divino? Por que o conhecimento de mim mesmo produz tanta angústia? Continuarei sempre encafifado ao notar a vida tão curta e a Fortuna tão aleatória na distribuição de suas benesses? Meu universo de dúvidas será eternamente, disso estou certo, maior do que a minha diminuta gleba de certezas.

Sou maior do que a minha saudade. A longevidade me deixou órfão. Perdi amigos. Vejo o tempo levar para o anonimato rostos que mal recordo o nome. Perco-me na vizinhança onde estudei o be-a- bá. Lateja dentro do peito ver o rio do devir levar, enxurrada a baixo, os anos dourados, a adolescência onipotente e a juventude idealista. Saudade é dor sem cura. A aflição que a saudade provoca nunca arrefece, só dá trégua – feito dor de parto, aumentam apenas os intervalos.

Sou maior do que a consciência que desenvolvi sobre Deus. Ele está muito além do substantivo que o define. Dentro de mim, surpreendo-me caminhando nas margens rasas do Mistério. Mesmo depois de tudo que já estudei, li, escrevi e falei sobre o Eterno, nada sei. Por vezes, fecho os olhos e penso nEle como um senhor grande, diáfano e magnífico supervisor do Universo. Retrocedo imediatamente. Reconheço: estou diante de um ídolo. Minha sede indica que jamais direi basta, mesmo ajoelhado ao pé da fonte d’água viva.

Sei, sou maior do que imagino, mas continuo sem a menor ideia do que isso significa.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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