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A versão verdadeira

É simplismo afirmar que existe um único jeito de encarar a vida. Cultura alguma é central, ou referência primordial, para outras culturas

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 21 Outubro de 2014 as 11:20

certo e erradoExiste um jeito certo de enlaçar os cadarços dos sapatos? Ziguezagueando de um lado para outro ou esticando na horizontal? Como se prepara café? Em coador de pano, com filtro de papel ou em sofisticada máquina de espresso? Nas refeições, por que o garfo prevaleceu e não os palitos? Como se deve escrever? Da esquerda para a direita, da maneira ocidental, ou da direita para a esquerda, como em vários países – há lugares em que a escrita é de cima para baixo, em colunas.

O mapa do mundo pode ser desenhado de ponta cabeça, com o sul para cima e o norte para baixo? No atlas, seria possível rachar a América do Norte no meio, ao invés do Oceano Pacífico para que a Ásia não pareça dividida?

Abacate se come como fruta, com leite e açúcar, ou se prepara com azeite, sal e vinagre? – parece que só brasileiro bebe abacatada. Como se aceitou a carne bovina comestível e se rejeitaram pratos com carne de cavalo?

A miséria é horrorosa para todos. Qual teoria, entretanto, possui a melhor resposta para a injustiça social? O capitalismo vingou onde? O comunismo soviético não deu certo por quê? Qual o motivo dos cristãos ingleses, quando dominaram a Índia, não conseguirem promover um desenvolvimento sustentável ali. Aliás, que país colonialista respeitou a cultura que invadiu?

Quem determinou a cor-de-rosa como feminina? Por que o preto remete ao negativo? De onde vem o costume social de o homem ser mais velho que a mulher nas relações conjugais? Por que se tornou incomum a mulher relacionar-se com homens mais baixos?

Para conhecermos a verdade verdadeira, melhor termos uma chancela institucional, partidária, acadêmica, eclesiástica? Que versão da história merece ser a mais fidedigna? Caso ouvíssemos os massacrados o que diriam sobre nossa ideia de civilização? Por que a religiosidade espanhola devastou culturas e etnias na América Latina? O que pensaram aztecas, incas e maias sobre o Deus dos cristãos, que teria autorizado o extermínio de suas culturas? O que pensavam os africanos mortos no porão dos navios negreiros sobre a racionalidade que os condenava a um inferno? Como qualquer sistema, que pretende representar Jesus de Nazaré, justifica processos desumanos e não de esperança?

É simplismo afirmar que existe um único jeito de encarar a vida. Cultura alguma é central, ou referência primordial, para outras culturas. Correção e verdade só participam na construção da história se desembocarem no compromisso com a lei áurea: Faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você. O futuro não acontece a partir de versões intransigentes e ensimesmadas da verdade. Para coexistirmos na dureza dos anos, precisamos, mais que tolerância, reverenciar o diferente. A vida acontece nas frestas da humildade. Se reconhecemos o outro em sua complexidade, teremos coragem de somar nossas intuições. Só assim nos aproximamos da verdade.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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