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A vida sem mistificação

O que virá pela frente? Em alguns aspectos o mundo não escapará de certos gargalos

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Sexta-feira, 24 Outubro de 2014 as 10:02

ebolaA macro-história segue devagar, passando aos nossos olhos igual à paisagem que vemos de cima de um avião a jato. Entretanto, súbito e sem aviso prévio, os eventos parecem pegar embalo. Os fatos se derramam no rio da história em torrentes. O novo milênio acelerou. As notícias chegam aos borbotões, tantas, que não dá para tomar fôlego. Tirando as catástrofes naturais e eventos programados – Copa do mundo, Olimpíada e eleição – mal temos tempo de lidar com o massacre contínuo das novas notícias. O pião da vida gira freneticamente, dando a sensação de que o mundo vai mudar, ou acabar, em uma semana.

Devido ao Ebola, a África – principalmente Serra Leoa – mostra ao mundo o lado mais cruel da pobreza. Enquanto transacionais do petróleo saqueiam a costa ocidental do continente – Angola, Nigéria – a sobrevivência de diversas etnias africanas continua uma antessala do inferno. Não bastasse o sofrimento já crônico em Darfur, multiplicam-se grupos terroristas por toda a região. Militantes, que não defendem religião ou ideologia, buscam marcar território enquanto estupram e vendem meninas para a prostituição. Bárbaros espalham terror entre os mais indigentes do planeta. A África se contorce em ódio étnico. E a cada dia aparece um novo grupo fundamentalista – cristão e muçulmano. Resultado: inocentes se veem forçados a fugir para escapar do pior. Sem escapatória, aceitam a viagem sem volta. Muitos morrem de fome e sede em barcos imundos rumo à Europa. O enredo ganha proporções dantescas. E a resposta mundial permanece pífia. No hemisfério ocidental, o Haiti, destroçado por ditadores ordinários, vez por outra sofr
e com furacões. O mundo se tornou um vale de lágrimas onde multidões esperneiam na lama da miséria.

As crianças são condenadas ao sofrimento mais atroz. O número de meninos e meninas palestinas mortos por Israel e escorchados no maior campo de concentração da história é avassalador. A muçulmana adolescente Malala recebeu o prêmio Nobel pelo ataque que sofreu e por não desistir de lutar pela inclusão de outras meninas na escola.

O que virá pela frente? Em alguns aspectos o mundo não escapará de certos gargalos. A islamofobia nos Estados Unidos e na Europa, com certeza, não perderá força. O cartel do tráfico colombiano enfraqueceu, mas o mexicano ganha músculos truculentos. Violência urbana é praga por toda a América Latina, principalmente no Brasil. O jeito como a economia mundial se organizou resistirá qualquer revisão. A aposta de que o mercado ajusta o próprio mercado revelará o lado obscuro e mau do capitalismo predatório praticado pelo mundo.

Os temas que ocupam as principais lideranças mundiais continuam contraditórios. A indústria bélica mantém seu vigor. O contrabando de armas não sofre fiscalização quase nenhuma. E não há explicação do porquê a Unesco contar com recursos parcos para salvar inocentes. Por que sobra dinheiro para acudir instituições bancárias e qual justificação para se opor à distribuição sistemática de comida entre os pobres?

O desequilíbrio socio-ambiental, as mudanças climáticas, consta na agenda periférica dos países ricos. Infelizmente, enquanto os estoques de petróleo continuarem abundantes, suprindo a demanda mundial, não há interesse em desenvolver tecnologia que diminua a emissão de gás carbono. Talvez a mãe-terra acabe se revoltando contra seus filhos irresponsáveis antes do que se imagina.

A história do violinista Ytzahak Perlman, quem sabe, pode ajudar a manter a esperança. Sua história inspira. Perlman contraiu pólio aos 4 anos de idade e passou o resto da vida obrigado a andar com muletas. Apesar do impedimento, Perlman se tornou um grande violinista, um virtuose. Diz-se que certa vez subiu ao palco para uma apresentação junto com uma orquestra sinfônica. Deitou as muletas no chão, ao seu lado, posicionou o violino sob o queixo e começou a apertar as cordas para a última afinação. Com um ruído estridente, uma das cordas se rompeu. Quando todos esperavam que ele solicitasse outra corda, Perlman fez um sinal ao maestro para começar assim mesmo. Executou todo o concerto com apenas três cordas. No final, o auditório o ovacionou em pé. Em suas considerações finais, disse: A tarefa de cada um de nós é fazer música com o que resta. Todos perceberam: suas palavras se referiam à sua vida como portador de deficiência e não às cordas arrebentadas.

Por mais que nos revoltemos, ou não admitamos, a história continua ambígua. Dores se misturam à felicidade. Enquanto respiramos, não temos como evitar perplexidade e esperança, luto e festa, descaso e solidariedade. Teremos que conviver com pessoas que nos insultam. Celebraremos gente que nos induz a marchar pela paz. Nesse ritmo frenético, rindo ou chorando, um dia aprenderemos a fazer música com as cordas que nos restarem.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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