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Viver ou existir, eis a questão

No viver, desafiamos limites. Criados com a eternidade no coração, carregamos o imperativo de sonhar para além do possível. O improvável nos fascina

fonte: Guiame, Ricardo Gondim

Atualizado: Quarta-feira, 7 Janeiro de 2015 as 8:51

alegria
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Minha sede se parece à da corça perdida, que suspira por um regato. Anseio viver. O passar do tempo impôs uma questão essencial: quando, finalmente, encontrarei coragem para embarcar na aventura de desdobrar a existência em vida?

Viver e existir se diferenciaram qualitativamente. Existir cumpre a sina biológica de preencher a lacuna entre o nascer e o morrer. Viver confere significado ao tempo – àquele hífen que há de separar as duas datas que constarão em minha lápide.

Viver significa hospedar beleza dentro da gente; é jeito de agasalhar o que percebemos com o coração. Se existe alguma sublimidade no universo, ela deve começar a partir do nosso olhar. A única beleza possível é a que retemos. Não existe esplendor descolado da contemplação. O barulho de uma árvore, ao tombar na floresta, inexiste se não houver alguém por perto para escutá-lo.

Sem nosso olhar, o arco-íris jamais poderá dar qualquer esplendor ao universo – ele depende das conexões e analogias que fizermos. Um prado congelado se compara ao que desejarmos. Um sertão calcinado pelo sol tem força de remeter à coragem. (O sertanejo é antes de tudo um forte!) Para o poeta, tanto faz a neve alva e fresca da cordilheira como o areal perolizado e incandescente da duna. A vida transcenderá nos infinitos significados que damos ao que nos rodeia.

Quando vivemos, povoamos o coração de memórias vivas. Só as recordações salvam nossa interioridade da insipidez mecânica da vida. A realidade estéril mata. Sem poesia, a vida empobrece e mirra. Marcel Proust provou um biscoito madeleine e o passado se atualizou. Bastou-lhe o paladar para sair Em busca do tempo perdido.

Eu cheiro farofa com cebola na manteiga e, imediatamente, volto à cozinha de minha avó. O gosto de qualquer remédio travoso me devolve o rosto bondoso da minha mãe. Não tolero rede que range nos ganchos – na sala onde dormi, o ranger das redes me amedrontava como o piado de uma coruja agourenta. Se entro em algum ônibus e procuro a janela é porque ali, quando era menino, eu me senti isolado para meditar.

Viver é desabotoar a alma e nunca deixar que a grandiosidade do que está lá fora passe desapercebido. A vida acontece em lugares e instantes triviais: o ancoradouro, o crepúsculo, o sorriso indisfarçável da criança, a despedida dolorida, a alegria da conquista. Na celebração do instante único, não esquecemos: a história nunca se repetirá (Desculpe, Nietzsche.) Vive quem medita no mistério, intui o belo e floresce no delicado imperativo de celebrar o eterno.

No viver, desafiamos limites. Criados com a eternidade no coração, carregamos o imperativo de sonhar para além do possível. O improvável nos fascina. Vive quem não se acomoda, mas se atreve na direção do horizonte, sempre a se afastar de nós; no viver, ousamos desbordar a linha que junta céu e mar.

Em nossa gana de viver temos capacidade alquímica até de transformar pedregulhos em esmeraldas. Cabe qualquer exagero em nosso anelo pelo inefável. Algum tesouro se esconde na trilha bucólica e apertada por onde bem poucos peregrinos se aventuram.

Os que ousam, tornam-se arautos da esperança e artesãos de uma nova história. Os segredos do porvir só serão conhecidos por viajores insistentes. Eles já sabem: a vida está no percurso, nunca na chegada.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim

 

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