O que você aprontou dessa vez?

O que você aprontou dessa vez?

Atualizado: Terça-feira, 21 Dezembro de 2010 as 3:15

O telefone toca, é da portaria do prédio. No trânsito, estranho a chamada, imaginando que boa coisa não deveria ser. "Oi, dona Deborah, olha, jogaram uns azulejos lá do seu apartamento, felizmente não atingiram ninguém, mas blá, blá, blá…" Seu Zé deve ter continuado a falar, mas eu já não ouvia. Saí de casa deixando meu caçula, Vinicius, então com 3 anos, na companhia de duas empregadas. Mas ele deu um nó em ambas. Na sacada do meu quarto, encontrou uns pedaços caídos do rodapé de ardósia… E achou divertido enfiar as pedras pelo vão da grade. Vinte andares abaixo, os pedaços poderiam ter causado algum acidente grave. Mas, ufa, foi só um susto! E a certeza de que basta um segundo para os filhos aprontarem alguma estripulia, que pode levar ao pânico imediato. De cortar os próprios cabelos a passar trotes para o serviço de emergência, saiba como agir – e o que não fazer – diante das atitudes mais inesperadas das crianças.

Surpresa! Seu filho...

1…desenhou um lindo retrato da família… no sofá da sala! E com canetinha!

O que fazer A primeira recomendação é: deixe passar a raiva. "Uma criança pequena deve ser punida pelos seus atos, não pelas consequências dele. Isto é, se o desenho tivesse sido feito em outro lugar, as consequências do ato seriam menos graves, mas o ato seria o mesmo", aconselha a terapeuta familiar Lidia Aratangy, para quem certamente a criança teve "um cúmplice, que deixou essas canetinhas fatais ao alcance de suas mãozinhas". Sofá, a gente sabe, é um dos itens mais caros no mobiliário e você, obviamente, vai tentar salvar o seu. Para Ana Cristina Albuquerque, consultora e treinadora da rede Lavasecco, o ideal é resistir à tentação das receitas caseiras e não mexer na mancha. "Cada revestimento exige um solvente específico, que vai promover um tipo de reação química e isso deve ser feito por profissionais." Em alguns casos, há uma falsa impressão de que a mancha saiu, mas o que pode ocorrer é que ela fique ainda mais profunda. José Carlos Larocca, da Elite Lavanderia e presidente do Sindilav (o sindicato dos donos de lavanderias), afirma que é recomendável passar um pano limpo com sabonete, mas só para evitar que a manche se espalhe. O melhor é levar o estofado para um serviço especializado. "Mas tenha em mente que algumas manchas, como de esferográfica, nem sempre saem. Até na lavanderia é difícil de resolver." Aí, a solução é jogar uma manta para disfarçar a marca.

Controle-se e não... Use um solvente sem que tenha testado antes. Talvez você fique com um problema ainda maior porque ele poderá desbotar seu sofá. Os tecidos de tapeçaria podem sofrer danos irreversíveis se forem tratados com produtos errados. O melhor é gastar um pouco mais e levar para a lavanderia do que perder seu sofá para sempre. Também conte até dez e não saia gritando com seu filho, explique onde ele PODE desenhar. Se a criança for muito pequena, mostre os lugares permitidos e deixe-a ver que o desenho não sai fácil do sofá.

2…engoliu moeda, bateria, pilha...

O que fazer Se você tiver certeza de que a criança engoliu algo que não deveria, ligue para o pediatra. Ele provavelmente vai pedir um raio X para confirmar se o objeto está no estômago, e não nas vias respiratórias. "Mantenha a calma e leve-a para um pronto-socorro. O objeto aparece no raio X e, se o atendimento não demorar muito, é possível retirá-lo via endoscopia", esclarece o pediatra Antônio Carlos de Siqueira. Outra possibilidade será esperar ele sair naturalmente. "Tive um paciente que engoliu a chavinha de fenda de um brinquedo. Ele estava dançando com ela na boca, engoliu, foi para o hospital e teve o objeto retirado por endoscopia", conta Siqueira. Caso o objeto vá parar no pulmão, pode ser necessária uma broncoscopia. O médico alerta que a moeda é menos problemática do que as baterias, que têm componentes químicos de maior risco. Para tentar evitar esse "acidente", Ana Bontorin, gerente da ONG Criança Segura, diz que a família deve estar atenta. "Tenha certeza de que o piso está livre de objetos pequenos como botões, colar de contas, bolas de gude, moedas, tachinhas. Sem esses ‘inimigos’ por perto, o risco de seu filho engolir o que não deve será drasticamente reduzido."

Controle-se e não... Tenha um ataque histérico! O desespero, numa hora dessas, só vai deixar a criança com mais medo. Lembre-se de que o que foi engolido sairá, uma hora ou outra. "Nada de dar comida para o objeto descer. Isso é bobagem. E o médico não tem acesso a um estômago cheio", alerta Siqueira.

3…colocou você na maior saia-justa!

O que fazer Luiza, minha filha mais velha, tinha pouco mais de 3 anos quando em uma viagem, diante de uma senhora bem idosa que tinha ido até nossa mesa no café da manhã elogiar a beleza da minha menina, tascou um "você é muito velha, sabe que vai morrer logo, né?" Eu, claro, queria morrer, me enfiar em um buraco, fingir que aquilo não era comigo... As crianças são capazes, sim, de olhar para aquele vizinho barrigudo e perguntar se ele está grávido, ou de confessar para um aniversariante que aquele presente que ela trouxe foi um repasse do último Natal, para desespero dos pais. Tudo porque são os seres mais sinceros que existem, que dizem o que pensam doa a quem doer, afirma a consultora Vanessa Barone, autora do livro Descomplique! Um Guia de Convivência e Elegância (Ed. Leya). "A melhor forma de lidar com as gafes cometidas pelas crianças é respirar fundo. Para começar, deve-se levar em conta a idade do seu filho. Os menores de 5 anos dificilmente vão entender o que está acontecendo, então, não adianta dar sermão. O melhor é pedir desculpas e encerrar o assunto", aconselha. Com os maiores, é importante conversar. Se a criança fez um comentário ofensivo com relação a outra pessoa (chamou de burra, velha etc.), o ideal é repreendê-la na hora, de maneira firme, mas sem violência. "Explique que esse tipo de comentário não se faz, que a outra pessoa ficou chateada, e peça que ela se desculpe." Se a criança diz, por exemplo: "Olha, mãe, ele está grávido", para um homem que tem um barrigão, ou seja, fala para uma pessoa gorda que ela é gorda, os pais não devem ficar tão constrangidos, afirma Lidia Arantangy. "O gordo sabe que é gordo. Basta dizer, com serenidade, que os homens não ficam grávidos, que aquele senhor apenas comeu demais. Depois, a sós com a criança, aproveite para dizer que as pessoas não gostam de ouvir que são gordas ou narigudas.

Controle-se e não... Exagere na bronca. Isso pode deixar as pessoas (e a criança) ainda mais constrangidas. "Não alimente o assunto para tentar consertar a gafe. Fica pior. O melhor é se desculpar (ou a própria criança, se ela for maior) e encerrar o incidente", sugere Vanessa.

4…enfiou um feijão no nariz!

O que fazer O chamado corpo estranho, seja feijão, milho, bolinha etc., em nariz ou orelha, precisa ser retirado por um especialista. Portanto, a primeira coisa a fazer é ir ao pronto-socorro. "Para retirá-lo, é feita pressão com oxigênio do lado oposto da narina", explica o pediatra Antônio Carlos de Siqueira. Segundo ele, o que pode muitas vezes acontecer é ninguém perceber logo que há um corpo estranho na criança, uma vez que esse tipo de acidente ocorre sem adultos por perto. Por isso, é importante a história clínica ou depoimentos, como o de um irmão mais velho que viu a criança enfiar o objeto no nariz ou no ouvido. "E, quando é material vegetal, como feijão, é pior, pois vai putrefando", lembra o médico. Nesse caso, a criança fica com coriza purelenta, e ninguém sabe de onde vem – um sinal de que há algo errado. A atenção é necessária porque esse é o tipo de acidente que pode acabar em tragédia. Segundo a ONG Criança Segura, a sufocação (ou obstrução das vias aéreas) é a primeira causa de morte, entre os acidentes, de crianças com até 1 ano. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde, que são de 2007, mostram que 701 crianças de até 14 anos morreram dessa forma no Brasil. Então, é preciso ficar bem atento e não se esquecer de que até os 4 anos as crianças ficam muito expostas a esse tipo de risco. Afinal, é nessa fase que fazem a exploração do mundo ao redor por meio dos sentidos.

Controle-se e não... Retire o corpo estranho. Você poderá acabar enfiando o grão ou o objeto ainda mais para dentro, em vez de conseguir arrancá-lo, e dificultar o trabalho dos especialistas.

5…cortou o próprio cabelo.

O que fazer Maria Luiza, minha afilhada, tinha pouco mais de 2 anos quando, depois de ver uma moça de cabelos curtos na televisão, se enfiou embaixo da mesa da cozinha munida de uma tesoura escolar, e... plaft. Ganhou uma franja disforme, para dizer o mínimo. Passado o susto de ver uma criatura tão pequena com um objeto cortante, mesmo sendo de ponta arredondada, minha comadre Maria Eliza levou a filha ao salão de beleza. Naquele momento, não deu para salvar muita coisa… Os lindos cabelos lisos e pretos da Malu viraram um corte moderninho, com pontas irregulares, um charme. As crianças adoram cortar os próprios cabelos da pior maneira possível, bem perto da raiz, o que dificulta, e muito, o conserto do estrago. O ideal é não tentar resolver em casa. Leve para um profissional e aproveite para testar novos cortes. Em tempo: Malu gostou tanto do novo estilo que mantém, até hoje – ela está com 4 anos –, os cabelos curtinhos.

Controle-se e não... Fique bravo. Se você tiver um surto por causa da peraltice da criança, é bem provável que ela também fique assustada e comece a chorar. Você certamente terá em mãos um filho nervoso, que vai dar um escândalo na hora de sentar na cadeira do cabeleireiro e tornar tudo ainda mais difícil. As crianças não têm noção de que os cabelos podem crescer normalmente, e se você reagir mal, elas podem entrar em pânico. Muitas vezes, o choque de se ver com os cabelos daquele jeito já é punição suficiente para eles. Não precisa mais do que isso. Ah… e nunca é demais falar: cabelo cresce, OK?

6…fica falando sobre seus órgãos sexuais ou passa a tocá-los na frente das visitas.

O que fazer A terapeuta Lidia Arantagy recomenda: pergunte no tom mais neutro e ingênuo possível se a criança está com algum desconforto ali, como dor, coceira ou calcinha apertada. Diante da negativa, basta dizer que, então, não mexa nesse lugar tão delicado.

Controle-se e não... Valorize o assunto ou chame a atenção repreendendo a criança. Ela não tem a malícia dos adultos e pode apenas estar se divertindo com o visível constrangimento que causa. O ideal é conversar a sós com seu filho, sem dramas.

7…passou trotes para o 190.

O que fazer Esse é outro tema delicado. Segundo o capitão Emerson Massera, do Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo, o serviço de emergências da capital recebe 35 mil chamadas por dia. Pouco mais de 15% são trotes, ou seja, cerca de 6 mil ligações. "Fizemos um mapeamento e concluímos que de 75% a 80% são crianças. A maioria liga, dá risada e desliga. Muitas telefonam do orelhão da escola, no horário de intervalo", afirma. Trata-se, afinal, de um número fácil, que qualquer criança decora. "As pessoas podem esquecer o número de casa, jamais o 190." Sem falar que a ligação é gratuita. Se descobrir que seu filho passou um trote, explique que ele está congestionando o atendimento e pode fazer com que uma pessoa em real situação de emergência deixe de ser atendida e, até, salva. Além disso, quem passa trote pode até ser processado por falsa comunicação de crime, injúria, calúnia... Antes, porém, os policiais fazem contato com os pais da criança e optam pela orientação, claro.

Controle-se e não... Assuste seu filho. Mas como as consequências são mais graves, é preciso lidar de forma enérgica, diz Lidia Aratangy. "Explique que a polícia consegue identificar de onde veio a chamada e que uma pessoa pode até morrer porque a emergência estava atendendo um trote." Se ele persistir, você pode colocá-lo de castigo: quem sabe alguns dias sem televisão?

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