Pedra que comprova existência do Templo de Salomão divide opiniões em Israel

Por um lado, alguns acreditam que a Tábua de Joás é a primeira evidência da existência do Templo de Salomão. Por outro, o artefato é visto como uma elaborado falsificação.

fonte: Guiame, com informações de BBC Brasil

Atualizado: Sexta-feira, 10 Março de 2017 as 4:01

Autenticidade da tábua de pedra seria prova dos escritos bíblicos. (Foto: Reprodução)
Autenticidade da tábua de pedra seria prova dos escritos bíblicos. (Foto: Reprodução)

Encontrada em 2001, a Tábua de Joás tem sido vista como a primeira evidência da existência do Templo de Salomão. No entanto, a descoberta até hoje intriga pesquisadores e autoridades de Israel, que mantêm em aberto a dúvida: o artefato é verdadeiro ou não?

O Templo de Salomão foi construído para abrigar a Arca da Aliança, que guardava as tábuas de pedra dos Dez Mandamentos. As peças desapareceram após a destruição do local, que foi incendiado pelo exército do rei babilônio Nabucodonosor em 586 a.C.

A Bíblia faz referências à reconstrução do templo por Joás, que reinou em Jerusalém um século depois de Salomão. A tábua encontrada também descreve as obras feitas pelo rei: "Reparei a construção e fiz os reparos no templo e nos muros que o rodeiam".

Autêntica ou não?

Após a descoberta, a Tábua de Joás foi encaminhada ao Serviço Geológico de Israel e foi declarada como genuína em 2003. Estudos comprovam que a tábua tinha cerca de 2,3 mil anos e sua pedra continha um composição química semelhante à presente na região de Jerusalém.

O artefato foi então oferecido ao Museu de Israel, que decidiu conduzir sua própria verificação da autenticidade da tábua. Nesse meio tempo, tanto o objeto quanto o homem que o havia descoberto — cuja identidade ainda era misteriosa — simplesmente desapareceram.

A Autoridade de Antiguidades de Israel passou a investigar o caso e, nove meses depois, chegou ao colecionador Oded Golan, que insistiu ser apenas o intermediário de outro colecionador. Mas as autoridades suspeitaram: ele, que é engenheiro, também era vinculado a outro artefato descoberto dois anos antes, o Ossário de Tiago.


A inscrição do ossário diz: "Ya'akov Bar Yoshef Akhui di Yehshúah", que significa "Tiago, Filho de José, Irmão de Jesus". (Foto: Paradiso)

No passado, judeus usavam ossários para armazenar restos mortais de familiares em cavernas e câmaras funerárias.

O ossário descoberto por Golan era especial por causa de uma inscrição que continha: "Tiago, filho de José, irmão de Jesus". Devido a ela, foi declarado em 2002 a primeira evidência física da existência de Jesus Cristo.

Investigação

Para saber se ambas descobertas eram genuínas, foi formado um comitê de linguistas e geólogos para examinar os objetos.

Yuval Goren, geoarqueólogo e diretor do Instituto Arqueológico da Universidade de Tel Aviv, encontrou evidências de que sofisticados falsificadores enganaram os especialistas.

Ele descobriu que a composição da parte de trás da tábua era diferente da frente. Era formada de sílica, mineral não encontrado em Jerusalém, e tinha grânulos de fósseis marinhos, embora o Tempo de Salomão não estivesse próximo do mar.

O ossário foi considerado autêntico, menos sua inscrição. Os cientistas confirmaram a autenticidade da primeira parte: "Tiago, Filho de José", datada da primeira metade do século 1 d.C. No entanto, a segunda parte, "Irmão de Jesus", foi adicionada pelo menos 20 séculos mais tarde.

Os resultados dessas e outras análises levaram a concluir que a tábua de pedra e o ossário eram elaboradas falsificações. No entanto, o caso nunca chegou a um consenso completo.

Quando a polícia prendeu Oded Golan e inspecionou suas propriedades, descobriu uma oficina com uma coleção de ferramentas, materiais e "antiguidades" sendo produzidas.

As autoridades chegaram à conclusão de que se tratava de uma equipe de falsificadores com especialistas  varia disciplinas.

Em dezembro de 2004, Oded Golan foi acusado de falsificar e fraudar antiguidades, mas foi absolvido das acusações em 2012.


Golan foi absolvido das acusações de falsificação em 2012. (Foto: Getty Images)

Debate

As dúvidas sobre o caso continuam até hoje. Golan falou sobre a tábua de pedra ao jornal israelense Ha'aretz:

"Pode ser da época do rei Joás, do século 9; pode ser uma cópia feita mais tarde da pedra original que estava no templo; ou até uma tentativa de gravar na pedra os reparos que foram feitos; ou pode ser uma falsificação feita há apenas 100 anos. Realmente não sei."

E os especialistas continuaram dando opiniões. Para Chaim Cohen, da Universidade Ben Gurion, se fosse comprovada a falsificação, seria "a falsificação mais brilhante de todas".

Enquanto isso, Ronny Reich, um dos fundadores da Autoridade de Antiguidades, ressaltou: "A inscrição me parece autêntica, pois é difícil acreditar que um falsificador (ou um grupo de falsificadores) possa saber tanto de todos os aspectos — físico, palográfico, linguístico e bíblico — para produzir tal objeto."

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