Detido há dois anos, pastor Saeed Abedini conta detalhes da prisão no Irã

Uma organização americana está trabalhando para garantir a liberdade do pastor Saeed, preso por causa da sua fé em Jesus.

fonte: Guiame, com informações de Portas Abertas

Atualizado: Segunda-feira, 11 Maio de 2015 as 9:01

Pastor americano Saeed Abedini, preso há mais de dois anos no Irã por causa da sua fé em Jesus.
Pastor americano Saeed Abedini, preso há mais de dois anos no Irã por causa da sua fé em Jesus.

 

O pastor americano Saeed Abedini, preso há mais de dois anos no Irã por causa da sua fé em Jesus, compartilhou com a sua família uma espécie de diário, onde mostra detalhes de como é um dia na prisão de Rajaei Shahr, na cidade de Teerã.

8h Acordo depois de uma noite sem dormir, sem saber o que o dia me prepara. Será que hoje algum de meus companheiros de prisão será arrastado para a forca? Será que algum preso roubará meus pertences? Será que um guarda me ameaçará pedindo para que eu negue minha fé e retorne ao islamismo?

Começo a preparar minha mente buscando forças para o novo dia, mas meus pensamentos são interrompidos quando os guardas chegam para a contagem. Para eles, eu não sou um homem, mas apenas outro número. Fico pensando se devo voltar a cabeça no travesseiro e dispensar o café da manhã, mas chego à conclusão de que, se o fizer, terei pouco alimento para me sustentar durante todo o dia. A realidade me atinge bruscamente todas as manhãs, despertando-me de meus sonhos de família e liberdade. O sono é incrivelmente sedutor, porque é nesse momento que escapo temporariamente da realidade da vida na prisão. O sono também me ajuda a passar o tempo e evitar tensões com outros prisioneiros.

Há dias em que não tenho forças para sair da cama, mas felizmente hoje não é o caso. Começo meu dia orando para acalmar minha mente e me lembrando das promessas de Deus.

10h Vou tomar banho. Parece algo simples, mas aqui, com instalações limitadas e um problema sério de superlotação, é uma bênção poder se lavar, apesar da sujeira do banheiro.  Veja só, existem apenas três chuveiros para cerca de 80 detentos em minha seção. Na prática, isso significa que eu posso tomar banho mais ou menos uma vez por semana. A água é fria, mas eu sou grato.

11h Depois do banho, penso se devo voltar ao meu cantinho na cela ou tentar me juntar aos outros prisioneiros. São cerca de 80 pessoas no meu pequeno quarto construído para 20, mas tenho um canto onde eu posso orar e evitar conflitos com outros prisioneiros.

Antigamente eu podia fazer cruzes de papel para pendurar na minha cama, uma espécie de pequeno santuário, mas os guardas proibiram tais exposições. Ao mesmo tempo em que os dias passam mais rápido quando me reúno com os meus irmãos, essa atividade tem ficado cada vez mais difícil. Alguns prisioneiros veem minha presença como uma ameaça, pois não sou apenas um convertido ao cristianismo, mas também um americano. Essa tensão só tem crescido enquanto os Estados Unidos e o Irã estão em negociação. Hoje resolvi ficar no meu pequeno espaço, sozinho com meus pensamentos.

12h Os guardas nos agrupam para levar para o pátio. O pátio é como uma cela de concreto ao ar livre, mas é a minha única oportunidade de sentir o sol no rosto. Ficar ao ar livre é um luxo oferecido diariamente; mas no ano passado, em muitos dias eu tive que evitar, pois foi lá que alguns prisioneiros associados a grupos terroristas islâmicos ameaçaram me matar. As tensões são fortes com prisioneiros que se opõem a minha fé e conversão do islã. E por causa dos acontecimentos geopolíticos recentes, minha cidadania se tornou uma fonte de tensão. A luz solar me atrai, mas sei que colocar os pés lá fora me coloca em situação de grande risco. Por isso que hoje eu evito o conflito e decidi que a luz do sol não vale o risco.

14h Na condição de prisioneiros, somos responsáveis por manter a ala e por cumprir cada tarefa e função a nós atribuídas. Mas mesmo com essas tarefas que desempenhamos, o grande número de pessoas e a falta geral de cuidados com as instalações criaram condições desumanas e insalubres. Nosso banheiro, do qual estou encarregado pela limpeza hoje, não é mais do que um buraco no chão. Toda tentativa de limpar o banheiro é inútil, já que está com vazamentos de fezes e urina do banheiro. Enquanto eu limpo, tento ponderar os fatos cantarolando músicas de adoração. Em meio a esta sujeira, lembro-me da profundidade da minha própria imundície que Jesus levou por mim, morrendo na cruz.

17h Meu estômago começa a sentir as dores terríveis da fome. A porção de pão e queijo do café da manhã não me sustentou durante o dia. Além dessas dores de fome, também busco desesperadamente um alívio para as dores no meu abdômen - lesões que sofri de inúmeros espancamentos na prisão ao longo dos anos. O nível de dor tem variado nos últimos anos, mas hoje em dia ela é forte. Infelizmente, os analgésicos leves que inibem a intensidade da minha dor já acabaram há muito tempo. Os médicos da prisão disseram-me que não fornecerão nenhum medicamento extra para os meus ferimentos internos. Então, hoje vou recorrer à única fonte que conheço para ajudar a minha dor - vou ao encontro de Deus.

18h Pela segunda vez hoje, devo entrar na fila para ser contado pelos guardas.

19h Quando um prisioneiro chega, tem apenas as vestes e um pouco de dinheiro que tinha no bolso no momento em que foi detido. Depois de passar pela quarentena obrigatória, o detento se integra ao grupo e deve adquirir as coisas de que precise da loja da prisão. Devemos comprar os nossos próprios pratos e utensílios para comer, nossos cobertores para nos aquecer no inverno frio, nossas roupas de baixo e nossos produtos de higiene pessoal. Assim, alguns prisioneiros afastados da família têm muito pouco recurso e comem a sua comida em recipientes de plástico cortados, de garrafas de leite usadas e de produtos de limpeza. Hoje me sinto abençoado por minha família ter colocado dinheiro suficiente na minha conta da loja para que eu pudesse adquirir minha própria tigela e colher. Para o jantar, recebo uma única batata ou uma tigela de arroz com um pouco de molho. O jantar de hoje é - arroz com algo que tem gosto de molho de soja. Dos dois anos e meio vivendo aqui, a prisão só disponibilizou proteínas, que deviam ser compradas na loja, por 2 meses. A última vez que comi proteína foi há mais de 7 meses. A água potável também é um item raro. Já faz meses que tenho que beber água da torneira – tenho que deixar a água descansar para que os sedimentos se assentem antes que eu remova a água de cima. Posso dizer que a falta de alimentos nutritivos tem trazido consequências sobre a minha força e saúde.

21h O sol se pôs e o dia está terminando. Volto para a minha cela e tento encontrar algo para ocupar minha mente. O quarto é extremamente lotado e escuro. Há uma pequena janela perto da minha cama, sem vidro e barras de aço. É terrível ter a janela quebrada durante os meses de inverno, por isso estou grato pelo fato de o tempo estar esquentando. Antes de me acomodar, tenho que verificar regularmente as camas, já que a prisão está infestada de baratas e ratos. Algumas semanas atrás, fui pegar um lenço na minha caixa - e descobri um rato morando lá dentro.

0h30 Luzes apagadas. Enquanto procuro dormir, o sono me foge. Nas últimas semanas, o número de execuções na prisão aumentou consideravelmente. Tento fechar meus olhos e evitar os sons e as imagens da morte. Tento convencer minha mente a reconhecer que eu posso parar meus pensamentos sobre minha realidade e voltar aos meus sonhos, onde estou reunido com minha esposa e meus dois filhos lindos. Tento contar os dias da semana e me agarro à esperança de que vou conseguir ter uma visita da minha família iraniana na quarta-feira - são nessas visitas que vejo fotos dos meus filhos crescendo. Nessas visitas, recebo palavras de encorajamento de todos os meus irmãos e irmãs em Cristo que se comprometeram a orar pela minha liberdade.

A organização American Center for Law and Justice (ACLJ), dedicada a defender os direitos de liberdades constitucionais garantidos pela lei, continua trabalhando para garantir a liberdade do pastor Saeed. A ACLJ representa a esposa do pastor Saeed, Naghmeh, e seus dois filhos pequenos que vivem no Estado de Idaho, Estados Unidos.

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