A Igreja brasileira, a missão integral e os negros

A teologia da missão integral pode, enfim, tornar-se o instrumento para que a igualdade racial se transforme em uma meta da própria igreja evangélica

fonte: Ultimato

Atualizado: Terça-feira, 9 Setembro de 2014 as 10:59

negrosSe olharmos para a igreja brasileira com os olhos da missão integral, não poderemos, de forma alguma, esquecer a questão racial, em particular, dos negros. Esse é um assunto preponderante para a reflexão da teologia da missão integral que se propõe lutar por uma igreja que enxergue o homem como um todo, com suas múltiplas necessidades. Ver o homem e a sociedade com um olhar integral é ter em mente que todas as necessidades devem ser atendidas. Portanto, ser aceito na sociedade como um cidadão com todos os seus direitos, independentemente de sua raça, etnia ou cor, faz parte da missão integral. A igreja, por sua vez, deve ter a postura de Cristo, que conversava com samaritanos, sendo judeu, e que conversava com judeus, exigindo que eles também olhassem para o outro.

No Brasil cerca de 45%* da população têm o biótipo negro (pardos e pretos), segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Não é possível que uma igreja que representa o reino de Deus como agência deste novo estado de coisas se aniquile tanto quanto a questão racial, pois é esta a igreja que está repleta de afro-descendentes que participam ativamente nos cultos e nas festividades.

O problema para a teologia da missão integral no Brasil passa por refletir alguns quesitos que levem em conta a negritude vivida pela história dos negros brasileiros. Por que não construir uma teologia que seja do oprimido, do excluído, do pobre e do espoliado, que são os negros que vivem à margem da sociedade? Por que não edificar uma teologia que olhe para os negros como ponto principal para o desenvolvimento de conceitos teológicos? Por que não repensar a teologia a partir da dor periférica daqueles que sabem o que é a dor da exclusão social e do racismo cordial? Por que não penetrar no contexto das angústias dos que vivem excluídos social, emocional e espiritualmente? Por que não reconstruir a hermenêutica, tendo o negro como personagem central das várias histórias bíblicas? Sei que estas perguntas não ecoam nas mentes dos teólogos brasileiros. Em sua maioria, eles estão presos a categorias teológicas nas quais, por um lado, o pensamento metafísico e abstrato se transforma na égide de verdade e de vida cristã; por outro lado, alguns estão tão submersos na necessidade de poder que aceitam todo tipo de “teologias” primárias que os coloquem numa posição privilegiada. O problema é que o pensamento filosófico nem sempre é entendido a contento, causando angústias ou ignorância. Já o tipo “primário” causa sérias decepções pelo imediatismo existente nos pressupostos radicais das preposições defendidas e pelas manipulações do povo promovidas por quem almeja poder e riquezas.

Dentro desse contexto precisamos ressaltar três caminhos que a teologia da missão integral no Brasil deve seguir para obter maior êxito como um pensamento coerente com os valores que defende, que são os do reino de Deus, e com os eleitos, que são o alvo primordial do amor de Cristo.

O primeiro caminho a seguir, segundo penso, é o da formação teológica dos líderes da igreja brasileira de forma maciça e constante. Muitos líderes em nossas igrejas estão distantes da teologia da missão integral. Muitos nem têm conhecimento de que existe uma teologia que se preocupa com o homem todo. Alguns até demonstram uma prática que se coaduna com a teologia da missão integral, mas fazem as coisas sem nenhum parâmetro teológico. É a prática pela prática, que produz um ativismo sem reflexão. Não há reflexão teológica sobre o que estão fazendo. Por isso, muitos caem num fundamentalismo descontrolado. O primeiro passo, então, é dar aos líderes a base teológica adequada, visando formá-los de modo que sejam capturados pela visão de Deus para a história da igreja no Brasil. Essa formação não deve ser branca, ou seja, não deve valorizar os pensadores do Primeiro Mundo. Precisa partir da reflexão dos pobres, dos excluídos, dos negros. Não queremos transformar a teologia da missão integral numa teologia de libertação, mesmo que reconheçamos semelhanças entre as duas. Mas queremos propor que haja uma reflexão própria em nosso país, pois somos diferentes até mesmo dos outros países da América Latina. Depois da África, somos o lugar de maior número de negros. Isso precisa solidificar-se na mente dos que se aventuraram a pesquisar a Bíblia sob o pano de fundo da missão integral.

O segundo caminho que propomos é construir no Brasil uma hermenêutica bíblica que mostre o valor dos negros no processo salvífico. As nossas igrejas locais estão cada vez mais distantes da necessidade de análises profundas de temas como racismo, escravidão, preconceito e exclusão. Por quê? Porque no Brasil não existe uma hermenêutica produzida por teólogos sérios que veja os negros como instrumentos históricos e agentes da história bíblica. Deve ser tarefa da teologia da missão integral uma releitura da Bíblia a partir das angústias dos negros alcançados pela graça de Deus. Uma releitura que dê lugar ao grito de uma etnia que experimentou em sua história o que muitos no passado sofreram: a escravidão, a opressão e a destruição. Ler a Bíblia de uma nova forma não é deixar de crer nos seus fundamentos, mas sim, pôr em prática os fundamentos ensinados por Jesus de Nazaré.

O terceiro caminho está relacionado com a proposta eclesiológica da teologia da missão integral. Os teólogos comprometidos com a leitura bíblica sob o prima da teologia da missão integral precisam propor uma eclesiologia que se pareça mais com o povo brasileiro. Não se trata de enlatar mais um modelo de criar grandes igrejas que engordam os bolsos e os egos pastorais, mas uma eclesiologia que seja realmente do povo, na qual os costumes culturais sejam respeitados e não “demonizados” — uma eclesiologia em que a música, a alegria, os instrumentos, a dança e a forma de cantar do negro sejam entendidos como manifestação da “multiforme graça de Deus” na história deste povo afro-descendente.

A teologia da missão integral pode se transformar na diretriz para a igreja brasileira ver nos negros agentes de transformação social, política e, principalmente, espiritual do povo do Brasil; pode ser o veículo para a necessária filtragem desses pensamentos espúrios que muitos chamam de “teologias”. A teologia da missão integral pode, enfim, tornar-se o instrumento para que a igualdade racial se transforme em uma meta da própria igreja evangélica.

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Marco Davi de Oliveira é pastor batista em São Paulo (SP) e autor de A Religião Mais Negra do Brasil.


*Nota
Capítulo 20 do livro Missão Integral (já esgotado) da Editora Ultimato. Publicado em ocasião do CBE2 (2º Congresso Brasileiro de Evangelização) em 2003, com o título "Teologia da Missão Integral e Negritude".

 

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