Marina e a providência divina

Qual é o problema em se declarar fé, em se expor suas convicções teológicas, em citar sua cosmovisão religiosa como apoio emocional numa hora tão difícil? A meu ver nenhum problema. A democracia no Brasil é tão nova, mas já estamos profundamente doentes de laicismo

fonte: Ultimato

Atualizado: Quarta-feira, 20 Agosto de 2014 as 11:11

Marina SilvaMarina diz que não ter embarcado no voo fatal foi providência divina. Será que ela podia ter pisado em território tão pantanoso? Ela errou politicamente? Errou na teologia? A declaração incomodou muita gente.

“Penso que existe uma providência divina em relação a mim, ao Miguel, a Renata e ao Molina”, disse Marina a jornalistas, durante o voo que a levou de São Paulo para Recife para o funeral de Campos. Ela referia-se à mulher, ao filho e a um assessor do ex-governador de Pernambuco.”

Jornal online O DIA, 17 de Agosto 2014

A primeira pergunta é, do ponto de vista politico será que Marina foi sábia em fazer esta declaração? A ideia certamente constrange a alguns, primeiro por revelar uma teologia não muito popular hoje nas redes sociais da “inteligentzia” cristã. Vou discutir a questão teológica abaixo. Mas as implicações políticas também seriam sérias de acordo com alguns cristãos com quem “conversei” no Twitter.

Marina, messias político

Teme-se que a providência percebida por ela nutra uma percepção messiânica sobre si mesma. Será? Em defesa de Marina eu queria apontar para sua carreira política. Ao contrário de Lula que de 1990 em diante se recusou a se candidatar para outra coisa que não fosse a presidência, Marina trabalha para seus ideais políticos de todas as maneiras que pode. Foi vereadora, deputada estadual, senadora, ministra do PT, saindo do partido com dor e sofrimento expressados publicamente. Se não tivessem lhe puxado o tapete, é provável que não teria saído nem do ministério nem dos quadros do PT. Marina aceitou ser vice de Campos. A candidatura a vice-presidência em si já demonstra uma capacidade de concessão e humildade que não se percebe naqueles que sofrem de complexos messiânicos.

Direito a uma linguagem religiosa?

Mas diz o Reinaldo Azevedo que os seguidores de Marina a identificam como a “ungida” e imbuem sua figura de aspectos messiânicos. Não duvido nada que um setor religioso qualquer tenha feito isto, ou crie uma narrativa assim para a história dela. Mas até onde escuto ela pessoalmente não o faz. É fácil evitar esta tendência mitologizadora no Brasil de hoje? Não. É literalmente impossível impedir que outros construam com sua história uma narrativa que não é nem sua. É fácil evitar a armadilha de se deixar envolver por este messianismo? Não é tampouco. E até aí minhas concedo loas à Marina que tem valentemente evitado o discurso religioso, evitado se voluntariar ao evangelicalismo como sendo a candidata religiosamente correta. Ela é corajosa em criar um caminho político diferente, que não se escora na religião, é coerente com suas convicções mas não é religiosamente neutro.

Mas ainda podemos nos perguntar: Porque então usar linguagem religiosa? Porque mencionar providência divina?

Respondo com outra pergunta: Por que não? Qual é o problema em se declarar fé, em se expor suas convicções teológicas, em citar sua cosmovisão religiosa como apoio emocional numa hora tão difícil? A meu ver nenhum problema. A democracia no Brasil é tão nova, mas já estamos profundamente doentes de laicismo.

Quero propor que este laicismo xiita é irreal e não presta serviço à democracia. Professar uma falta absoluta de convicções religiosas já é uma convicção religiosa. Permitir que o laicismo domine o discurso político brasileiro a ponto de excluir completamente a religião do debate público, é permitir que a religião do secularismo se imponha como a única alternativa, a única cosmovisão possível politicamente, o que é um erro absurdo. O secularismo em si ele não nos provê noção de valor humano, razões morais que possam nortear legislações, coerência filosófica para se estabelecer esperança para um futuro melhor. O secularismo é vazio e descomprometido com o florescimento humano.

Liberdade religiosa não é a laicização total do estado, mas sim segundo Locke, o estabelecimento de uma tolerância mútua norteada por princípios morais comuns. Aí a conversa se torna muito longa, porque é necessário se diferenciar a tolerância proposta por Locke e vivida na América e na Europa até algumas décadas atrás e esta “tolerância liberal” proposta por Marcuse e outros que hoje paira como um urubu sobre a nossa racionalidade.

Meu ponto: Ela tem direito sim à usar uma linguagem religiosa. Afinal ela é uma mulher de fé, não podia ser diferente. Se a constituição nos garante liberdade religiosa, garante a qualquer candidato o direito a professar uma religião. Mas ser uma pessoa de fé é diferente de fazer da fé uma política de estado. O que um crente presidente não pode fazer por exemplo é uma medida provisória tornando o evangelicalismo a religião oficial do Brasil. J Mas ele tem direito a usar suas convicções para nortear suas decisões políticas? Claro que sim. A fé verdadeira não é um mero acessório que se despe quando se toma decisões políticas. A fé ou a falta dela norteia nossa maneira de viver, nos informa do bem e do mal, é uma bússola interna que não sai sem cirurgia.

Um ambiente civilizado respeita a Dilma cuja falta total de convicção religiosa lhe permite circular pelo Templo de Salomão e pelo Terreiro da Dona Maricota no mesmo dia, rezando conforme a cartilha de cada um. E respeita a Marina, quando diz que ora todos os dias, tem a Bíblia como livro de cabeceira, e que toma suas decisões políticas ou não de acordo com a moral cristã.

A teologia da providência

Agora o assunto é teológico. Estranhei que alguns colegas teólogos se doeram com a declaração de Marina. Afinal a providência é um conceito bíblico aceito por todas as corrente teológicas. Deus ama e protege os que nele creem. Disse alguém, que só encontra providência na minha Bíblia. Como? Se ele arrancou o Deus que intervém da sua Bíblia, eu não arranquei da minha. Não vou perder tempo aqui citando todas as histórias bíblicas e todos os versículos de ensino direto que nos ensinam um Deus em controle da história. Até os teólogos relacionais, ramo ao qual fui “acusada” muitas vezes de pertencer e que é visto por muitos líderes evangélicos como um heresia, acreditam numa providência histórica de Deus. Não tem um teólogo que advoga a ideia do “futuro aberto” que não acredite também em Deus dirigindo a história, a diferença é que creem que ele não controla destinos individuais.

Creia você que Deus vê o futuro ou não, se professa a fé cristã, tem que necessariamente crer que ele usa a história para te abençoar. O homem faz os planos, mas a resposta, no original, os passos, vem do Senhor (Pv16:1)

Se você crê que Deus controla absolutamente cada detalhe, do que acontece nesta terra. no caso de Marina, controlou as circunstâncias para que ela e os outros não estivessem no avião.

Outra alternativa é crer que Deus respeita o livre-arbítrio e que nossas escolhas influem nas circunstâncias e nas histórias individuais. Neste caso Deus diretamente não causa nada, mas influencia, instrui, deixando a decisão final na mão das pessoas. Ele trabalha através de nossas escolhas. E ainda como Deus pessoal tem planos pessoais para nós. E mesmo que nossos erros, pecados, incapacidades pareçam atrapalhar seus planos, ele ainda é capaz de usar o mal para o bem. Veja a história de José, vendido como escravo, de Moisés, assassino. Veja Romanos 8, que nos propõe que ele, Deus, lida com os resultados. Ele é capaz de usar os problemas e dores em fatores transformadores que acabam te abençoando e trabalhando para os planos que ele tem para você.

O extremo desta linha é pensar que o futuro é completamente determinado por nós e apenas por nós. Se isto é verdade que peso enorme temos constantemente sobre os ombros!! Viramos então o Deus da história. O que não difere em nada da terceira alternativa que exclui Deus completamente da história. Seja Deus paralisado ou morto o resultado é o mesmo. Ele não tem nada a ver com o que aconteceu nem com a salvação da Marina nem com a morte de Campos. Se esta é a sua abordagem eu tenho que te dizer que você então não é cristão bíblico, mas sim um mero teísta.

Se você crê no Deus morto, ilhado, isento de participação qualquer que seja, me explique em que esta crença diferença do ateísmo. Respeito sua opinião, mas tenho pena de você, como tenho dos ateus, por viver nesta imensa solidão cósmica.

Minha conclusão?

Marina tem o direito teológico e político de crer em providência. Que venha o futuro de acordo com o planos de Deus para nossa história brasileira, e as decisões que nós eleitores ou candidatos vamos tomando para realiza-la.


- Bráulia Ribeiro

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