Missionários contam experiências na crise da República Centro-Africana

Missionários relatam experiências em meio à crise na República Centro-Africana

Atualizado: Sexta-feira, 7 Março de 2014 as 8

Em meio à crise de violência e opressão, missionários da Portas Abertas levam conforto e esperança aos cristãos da República Centro-Africana.
 
Eles já passaram por Mbaiki, Bangui e ainda vão a Bouar, Bozum, Bossangoa e Sibut.
 
Em carta, os missionários relatam o que têm vivido na viagem:
 
República Centro-Africana“Saímos de Mbaiki em direção a Bangui no início da manhã. Do lado de fora da pousada cristã onde tínhamos passado a noite nos deparamos com cerca de 10 grandes caminhões carregados com grandes pranchas de madeira. Uma pequena Van em processo de troca de pneu bloqueava seu caminho. Havia espaço suficiente para que nós passássemos, por isso ultrapassamos o comboio.
 
Os caminhões vinham de uma serraria ao sul de Mbaiki. A sua presença perturbava meu companheiro, porque, para ele, era um lembrete dolorido da cumplicidade clara do Chade e seu reflexo direto com a crise vivida na República Centro-Africana.  Ele explica que essas pranchas de madeira são uma commodity importante na economia do Chade e que o grupo Seleka ganha dinheiro com a venda dessa madeira. Centro-africanos se queixam de que os mercenários do Chade sustentam o Seleka, criando grandes problemas para a população local.
 
Imigrantes muçulmanos do Chade vão à República Centro-Africana e se alinham com os rebeldes aumentando a opressão da população local. Forças de segurança do Chade têm protegido membros do Seleka e muçulmanos extremistas ao longo da crise. Agora, as forças de elite do Chade estão repatriando os muçulmanos de Bangui e causando ainda mais sofrimento para as comunidades locais. Por exemplo, durante a evacuação de muçulmanos de Damara, na semana passada, os soldados do Chade atiraram aleatoriamente na população não-muçulmana e queimaram algumas casas.
 
Agora, a população muçulmana local está sendo alvo de represálias. Mas nem todos os muçulmanos são responsabilizados. Muçulmanos de origem argelina que moram no bairro PK5, em Bangui, são deixados em paz, porque eles se recusaram a tomar o lado dos rebeldes Seleka. É o mesmo para os muçulmanos libaneses que continuam a operar suas lojas também em Bangui. Os poucos líderes libaneses que colaboraram com o Seleka já deixaram o país. Há muita gratidão para as tropas muçulmanas Gula, do norte da República Centro-Africana, que protegeram a população não-muçulmana na vila Pissa contra o Seleka.
 
Estávamos conversando acerca dessas complexidades, quando chegamos de volta em Bangui, por volta das 10h. Ficamos presos em um grande engarrafamento no mercado Petevo. Este mercado tem visto um crescimento substancial nas últimas semanas porque outros mercados maiores localizados em áreas como o PK5 e na vizinhança de Miskine tornaram-se muito perigosos para a atividade comercial.
 
Ficamos gratos por finalmente chegarmos à Fateb (Faculdade Teológica Evangélica), onde passamos algum tempo com colegas de Camarões e da África do Sul. Eles são pastores responsáveis por treinamentos; são mulheres líderes e conselheiros no ministério de trauma com particular destaque para as vítimas de estupro. Muitas mulheres foram estupradas durante a crise, algumas até mesmo na frente de seus maridos. Muitas dessas mulheres foram rejeitadas por seus maridos, como resultado. Uma mulher estuprada é considerada inferior a outras mulheres. Os líderes da Igreja não sabem como lidar com este problema. A Portas Abertas tem estado junto a esses líderes para ajudá-los a enfrentar este desafio, em um esforço para acolher e reparar a vida das pessoas impactadas pelo trauma.
 
À medida que entramos em Bangui e a fim de darmos sequência nos preparativos para a nossa viagem para o oeste e o centro do país, a cidade mostra-se mais lotada do que nunca. Há muitos policiais nas ruas e os soldados são vistos por toda parte. Há também a agitação da atividade comercial. Carros fazem longas filas em postos de gasolina e há filas fora do escritório da companhia telefônica. De repente, fomos forçados a sair da estrada para dar passagem ao carro da presidente de transição Catherine Samba-Panza, ela havia acabado de deixar o palácio residencial. Uma grande escolta de carros do governo e caminhões transportando soldados a escoltava enquanto caminhões pesados carregavam espingardas e abriam caminho. Quando ela passou, nós prosseguimos em nosso caminho.
 
Nosso plano é visitar as cidades de Bouar, Bozum, Bossangoa e Sibut nos próximos dias. Vai ser uma viagem cansativa de cerca de 1.600 km. Nós não sabemos onde vamos dormir ou comer. Mas vamos perguntar por pensões cristãs nas grandes cidades. Temos comida e água no carro. Também estamos levando gasolina extra.
 
Nossa viagem até agora tem sido abençoada e somos gratos por termos retornado em segurança para Bangui. Agora, estamos ansiosos para chegar aos cristãos no interior, porque sabemos que eles estão aguardando por pessoas como nós, que lhes mostrarão solidariedade e conforto e irão fortalecê-los. Estamos esperançosos para o nosso tempo com eles. Por favor, continue orando por nós.”
 

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