O jogador de futebol que está em nós

Você e eu deveríamos nos reconhecer naqueles jogadores que saíram ontem aos prantos daquela... partida de futebol

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Sexta-feira, 11 Julho de 2014 as 4:26

David LuizNas entrevistas dos jogadores da seleção brasileira concedidas após a partida de ontem, duas declarações ajudam a termos a dimensão exata da realidade artificialmente construída do mundo do futebol. A primeira, "essa derrota marcará a nossa vida para sempre"; a outra, "só queria dar alegria ao povo brasileiro".

Para o mundo do futebol, a derrota de ontem foi uma tragédia. Mundo do futebol! O que é esse mundo? Como muita coisa na vida pela qual choramos e não deveríamos lamentar na proporção em que lamentamos, invenção humana. A bola na trave separa o vilão desequilibrado emocional do herói apaixonado pelo seu país. Ridículo.

A perda do jogo para a Alemanha só marcará para sempre a vida de quem recusar-se a usar o cérebro. Vergonhoso é ser péssimo marido e pai, menosprezar o próximo, agir como canalha. Nossos atletas deveriam lamentar na exata proporção do que aquela partida representa para a vida de um ser humano. Deixem as pessoas vaiarem vocês. Isso faz parte dessa atividade esportiva. Ofereça um ouvido surdo para elas. O que digo para eles digo também para você e para mim, que também costumamos passar por dores socialmente construídas. Que mundo.

O povo brasileiro certamente precisa de alegria. Qual a natureza da verdadeira alegria? A autêntica alegria é a paz a bailar. Significa alguém olhar para a sua vida e, a partir do mais profundo conhecimento das suas reais necessidades pessoais, chegar à conclusão de que obteve o que sonhou e ninguém haverá de tomar de suas mãos. Essa felicidade, portanto, requer um nome: Deus. Só ele pode nos oferecer tudo o que precisamos para ser felizes e nos dar a garantia do fim da incerteza, banindo para sempre de nossos corações o sentimento de medo, cuja presença na vida de um homem o torna eterno escravo. Sem Deus, só os idiotas conseguem ser felizes.

Existe a alegria que o Estado pode dar. Muito boa. Piada quando comparada àquela sobre a qual acabei de falar. Que não se sustém quando estamos entre a vida e morte na cama. Desejável sob todos os aspectos, contudo. Viver num país no qual há liberdade, previsibilidade nas relações sociais em razão do respeito à lei, ninguém é governado sem seu consentimento, a pobreza a todos envergonha, a desigualdade social é vista como inimiga do contrato social. Não há futebol que eleve o nível de alegria de um povo que não tem acesso a esses bens. Nesse sentido, a vitória de ontem teria o mesmo efeito do uso de uma droga qualquer.

Você e eu deveríamos nos reconhecer naqueles jogadores que saíram ontem aos prantos daquela... partida de futebol.


- Antônio Carlos Costa

 

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