Pastor fala sobre trabalho com refugiados na Jordânia: "Deus está à espera de ceifeiros brasileiros"

"Cristãos brasileiros, se importem com as crianças perdidas desta região. Elas precisam conhecer o verdadeiro Pai, o único que pode levá-las a um lugar seguro", pede ele à Igreja brasileira

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Segunda-feira, 15 Dezembro de 2014 as 2:15

pastor HomeroNa mesma semana em que Kailash Satyarthi e Malala Yousafzai receberam o Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho na luta pelas crianças, a Rede Mãos Dadas conversou com o pastor Homero, que está em trabalho missionário na Jordânia há três meses.

O pastor trabalha com famílias refugiadas da Síria ou Iraque e cristã, em sua maioria. Na entrevista, ele fala da realidade das crianças que pararam de estudar e até perderam os pais em meio aos conflitos.

Uma das histórias compartilhadas relata uma família cristã cujos membros (todos) foram mortos em casa no momento em que pai, mãe e filhos realizavam um culto doméstico em gratidão pela formatura de uma de suas filhas.

Confira a entrevista:

1) Vocês estão a apenas 3 meses na Jordânia para um trabalho missionário em loco. Mas já são 7 anos envolvidos em missão e com o coração voltado para a evangelização dos povos muçulmanos. Vocês estão sentindo muita diferença entre atuar de longe e agora tão perto?

Sim, temos sentido muita diferença. Sem sombra de dúvidas dia a dia temos visto que durante anos compreendemos de forma errada a realidade do Mundo Muçulmano. Tivemos diversas experiências prévias em toda a região e sempre trabalhamos com a conscientização da Igreja Brasileira sobre as necessidades e desafios entre os povos não alcançados, mas somente ao viver entre eles é que percebemos o quanto a visão ocidental está errada. Os muçulmanos são, de maneira geral, muito abertos e, especialmente hoje por causa dos conflitos na região, estão sensíveis para ouvir a mensagem do evangelho. No Brasil, se tem a visão errada de que é quase impossível ver muçulmanos sendo alcançados para Cristo e, por isso, muitas vezes tratamos os obreiros entre eles como super heróis e os convertidos seres super especiais. Não estou dizendo que servir entre eles seja fácil ou que não seja perigoso para os obreiros ou para os convertidos, entretanto, Jesus nos ensinou o caminho da Cruz e este é o tempo da colheita. As portas estão abertas, eu diria escancaradas. Tenho certeza de que Deus está à espera de ceifeiros brasileiros, que são amados e queridos pelos povos muçulmanos. Estamos amando viver no Oriente Médio, nos sentimos muito bem recebidos e estamos felizes por ver a ação de Deus por aqui.

2) Com relação às duas crises políticas, primeiro na Síria e em seguida no Iraque, que tem expulsado milhões de sírios e iraquianos para campos de refugiados na Jordânia, como fica a situação das crianças?

A guerra na Síria já deixou mais de nove milhões[1] de pessoas desabrigadas interna ou externamente. São mais de três milhões de sírios refugiados em todo o Oriente Médio, especialmente Turquia, Líbano e Jordânia. A UNICEF[2] diz que cerca de seis milhões e meio das pessoas afetadas são crianças, das quais 2,8 milhões deixaram de estudar desde o início da guerra e mais de um milhão fugiu – com ou sem os pais – para os países vizinhos. Os números dos iraquianos são ainda mais assustadores. Desde o início da guerra em 2003, já são mais de cinco milhões de refugiados iraquianos fora do país[3] e, somente nos últimos três meses, surgiram mais de um milhão de refugiados internos. Todos os dias centenas de iraquianos morrem na guerra e ninguém se importa. Quanto ao refugiados externos, somente na Jordânia, existem cerca de 700 mil iraquianos e outros 700 mil sírios[4]. Boa parte deles, como já foi mencionado anteriormente, são crianças. Os números são frios e assustadores, mas confesso que não consigo escrevê-los sem pensar nos rostos das crianças que servimos por aqui. Infelizmente devido a limitação de recursos e estrutura, os governos da região não têm dado conta da demanda de ajuda humanitária que a crise gerou. As crianças não tem acesso a educação, saúde e alimentação adequada. E é também com muita facilidade que encontramos crianças completamente traumatizadas com os horrores da guerra. Em uma visita a uma família síria, um menino de uns 10 anos tomou o celular da mãe e nos trouxe para nos mostrar a foto de um parente morto em uma explosão. Em nossa primeira visita a uma família iraquiana, logo que chegamos no início de setembro, conhecemos uma menina de pouco mais de 10 anos que estava sofrendo visivelmente de depressão por causa do trauma da fuga, da perda de amigos e de tudo que ficou no Iraque, inclusive parentes. Essa família era cristã e deixou tudo para manter sua fé em Jesus e não se submeter às imposições dos militantes ou morrer nas mãos do Estado Islâmico.

3) Na sua experiência, visitando e interagindo com as famílias refugiadas na Jordânia, o que as famílias sírias, muçulmanas diriam para nós, brasileiros cristãos, se pudessem?

Entre visitas e eventos de distribuição de cestas básicas e roupas que fizemos para as duas comunidades de refugiados já tivemos contato com quase duas mil famílias. Nas casas, sempre dizemos às famílias que a Igreja Brasileira está orando por eles (independentemente se são cristãos ou não) e que Deus nos enviou do Brasil para sentir suas dores e chorar com eles. De fato, muitas vezes choramos mesmo, apenas abraçamos e choramos. Certamente, em primeiro lugar, as famílias diriam aos cristãos brasileiros: obrigado por se importar. Ninguém se importa com os refugiados (cristãos ou não), mas Deus se importa e, por amor e graça, nos escolheu para representar a Igreja Brasileira em cada abraço, palavra de encorajamento, lágrima e gesto de amor. Em segundo lugar, creio que os refugiados cristãos – iraquianos ou sírios – diriam para que os cristãos brasileiros aproveitassem a liberdade que têm. Sabemos que não é um momento político-econômico muito favorável para o Brasil, e, na verdade, muitas vezes, sentimos isto em nosso sustento mensal ou nas conversões cambiais que fazemos, entretanto, é tão fácil reclamar quando temos tudo, não? Esses refugiados mal chegam com a roupa do corpo, mas estão felizes pois Deus está com eles e os livrou da morte. Os cristãos brasileiros são livres e possuem tudo que precisam, então, até quando desprezaremos a liberdade que Deus nos deu para usarmos para glorificar o seu nome? Aprenda a desfrutar em Cristo de sua liberdade e conforto.

4) E as famílias iraquianas cristãs? Talvez fosse melhor começar explicando porque há tantos iraquianos cristãos entrando na Jordânia hoje!

Tudo começa com um grupo chamado Estado Islâmico. Ele nasceu no Iraque como uma milícia sunita que combatia o poder xiita instaurado pelos americanos e tinha como bases fortes vínculos com a famosa rede Al Qaeda. Seus soldados migraram para a Síria para lutar contra o governo local, adquiriram experiência, treinamento, dinheiro e, há poucos meses, começaram uma vasta campanha militar para tomar o Iraque. Decidiram começar pelo norte do país (fronteira com a Síria) e tomar a segunda maior cidade do país: Mosul. Acontece que toda essa região é predominantemente cristã, e o grupo tem como fundamento a aplicação extremista da lei islâmica. Isso significa que não há espaço para o cristianismo. Infelizmente a campanha militar foi bem sucedida e o norte do Iraque caiu nas mãos do Estado Islâmico. Aos cristãos foram dadas três opções: a. Converter-se ao islamismo; b. Pagar uma taxa mensal para permanecer em suas terras; c. Fugir. A verdade é que muitos foram simplesmente expulsos ou mortos. Entre meados de junho e agosto aconteceu o maior genocídio de cristãos dos últimos tempos, sem que ninguém fizesse nada. Em agosto, o governo da Jordânia abriu as portas para cerca de 7 mil iraquianos cristãos que, todos os dias, têm vindo para cá fugindo da perseguição e dos horrores da guerra contra o Estado Islâmico. O que você faria se tivesse que escolher desistir de tudo para ficar com Cristo ou mudar de religião e seguir com sua vida? Já não existem mais cristãos em Mosul e tantas outras cidades do norte do Iraque. Os cristãos iraquianos tiveram que fugir ou pagaram com suas vidas, mas escolheram permanecer com Jesus.

5) Como você tem lidado com o sofrimento humano tão próximo e que tem sua causa tão aparente: a maldade e violência da guerra?

Confesso que é muito doloroso para nós. Eu e minha esposa sofremos junto com cada família, choramos juntos, sentimos a sua dor. Soubemos de alguns obreiros que, após seis ou oito meses de visitas, tiveram burnout e chegaram até voltar para seus países. Às vezes, sentimos raiva dos mau tratos e abandono que os refugiados enfrentam e, outras vezes, nos sentimos incapazes e pequenos demais para atender tamanha necessidade aqui da região. Em uma visita a uma família muçulmana sírio-curda no Líbano tivemos uma experiência que é sempre muito difícil de compartilhar. Fomos levar uma cesta básica para a família e chegamos numa noite chuvosa no cortiço pequeno e mal cheiroso em que viviam sete pessoas. A matriarca tem o marido e o filho mais velho desaparecidos desde o início da guerra. Ela e os familiares restantes fugiram para o Líbano, mas no caminho uma bomba caiu perto deles e, Mustafa, um menino de menos de três anos, neto desta senhora, ficou com ferimentos nos tímpanos por causa do barulho da explosão. Como não tinham meios de buscar tratamento adequado no Líbano, algo terrível aconteceu. Alguns dias antes de eu chegar para atender a família, o menino ficou surdo. Quando aquela senhora soube que eu era pastor, pegou a criança, que se assustou e começou a chorar, e a colocou em nossa frente pedindo que orássemos por ela para que Jesus a curasse. Olhei para o menino e comecei afanar sua cabeça. Eu apenas queria chorar, pois ao olhar para Mustafa via meu filho Athos, um pouco mais novo. Essa talvez tenha sido a oração mais difícil que eu fiz em toda minha vida. Meu desejo era apenas chorar, mas recobrei as forças e orei. O garoto continua surdo, mas creio que Deus pode fazer um milagre na vida dele e de tantas outras crianças que têm sofrido injustamente com a guerra. Nosso pastor no Brasil nos acompanha semanalmente e temos nos cercado de amigos brasileiros, estrangeiros e árabes que nos cobrem em oração e cuidado enquanto desenvolvemos nosso ministério. Além disto, temos que viver debaixo de muito compromisso com a Palavra e em oração, pois essa é única maneira de temos forças para dividir o fardo de tantas famílias no Oriente Médio e não nos ferirmos.

6) Qual é o seu apelo para a Igreja Brasileira? Podemos fazer alguma coisa?

Nosso apelo para a Igreja Brasileira é que ela se desperte. Antes de nos mudarmos para a região, tive o privilégio de ter rodado ao longo de sete anos quase todo o Brasil ministrando sobre a realidade da Igreja Sofredora. Confesso que vimos com nossos próprios olhos a indiferença de muitos em relação a essa nobre causa. São milhões e milhões de cristãos sofrendo agora por causa de Cristo. Precisamos fazer algo por eles. A Igreja iraquiana está à beira da extinção e não podemos deixar isto acontecer. Além disto, é tempo de colheita! Nunca se viu na história da cristandade recente tamanha oportunidade de se apresentar o evangelho de Cristo aos povos muçulmanos ainda não alcançados como nos dias de hoje. Pastores, enviem seus vocacionados para o Mundo Muçulmano. Organizações missionárias, se despertem para a realidade dos refugiados no Oriente Médio. Cristãos brasileiros, se importem com as crianças perdidas desta região. Elas precisam conhecer o verdadeiro Pai, o único que pode leva-las a um lugar seguro. E é pensando nisto que começamos uma campanha de distribuição de Bíblias entre as crianças refugiadas e se vocês quiserem se envolver conosco, esta é uma boa maneira de começar, doe uma Bíblia infantil para uma criança refugiada[5]. Deus os abençoe!

 

com informações da Rede Mãos Dadas
via Ultimato

veja também