Pr. Mario Freitas fala sobre os desafios do apoio à igreja sofredora

Mario Freitas: "Os maiores heróis da igreja brasileira são missionários desconhecidos"

Atualizado: Segunda-feira, 17 Fevereiro de 2014 as 8

Mario FreitasOrdenado pastor em 1998, bacharel em teologia e mestre em missiologia, Mario Freitas percebeu que atuaria no campo missionário ainda bem novo, enquanto estava no seminário teológico.
 
Quando foi missionário na China e viveu de perto a perseguição religiosa, definiu-se como missionário para a igreja sofredora, tanto que, alguns anos depois, fundou a MAIS - Missão em Apoio à Igreja Sofredora, que dirige até hoje.
 
A MAIS atua em diversos países e preocupa-se com o ser humano integral.
 
Em entrevista exclusiva ao GUIAME, o pastor Mario Freitas fala de seu chamado para missões, dos desafios da MAIS e da relação das igrejas com o trabalho missionário. Confira:
 
GUIAME: Quando e como foi o seu chamado para missões?
Mario Freitas: Fui para o seminário teológico nos anos 90, era ainda muito jovem e queria servir a Deus. Ser pastor era a alternativa que eu conhecia para um ministério de tempo integral. No seminário, houve a oportunidade de realizar uma viagem missionária para o Paraguai. Foi quando Deus falou comigo. No campo missionário, tive a experiência de não conseguir me imaginar em qualquer outro tipo de ministério. Percebi que havia nascido para fazer missões. 
 
GUIAME: A MAIS surgiu após uma mobilização idealizada por você ao Haiti, por conta do terremoto em 2010. O que você viveu lá que o fez iniciar esse amplo projeto?
MF: Entre 2000 e 2002, eu havia sido missionário na China. Retornei ao Brasil e pastoreei 2 igrejas ao longo de 8 anos. Mas o fiz com grande inquietude, sabendo que um dia voltaria a ser missionário, pois tratava-se de meu verdadeiro chamado. O terremoto exigiu uma reação rápida da igreja brasileira, e chegamos lá 15 dias após a catástrofe. O objetivo era levar algum recurso e apoiar a igreja local haitiana. Mas Deus se utilizou daquele evento para marcar meu retorno definitivo a missões. Os recursos arrecadados para o Haiti nos surpreenderam, bem como as necessidades apresentadas no país. Simplesmente, nunca mais conseguimos sair de lá. 
 
GUIAME: Como foi a experiência de ser missionário na China, país que faz parte da lista de países que sofrem perseguição religiosa?
MF: Foi o que me definiu como missionário para a igreja sofredora. Quando vivi na China, a perseguição era ainda mais acirrada que hoje. Atualmente há grande preocupação da China com a imagem internacional, principalmente por conta do comércio. Isso faz com que a perseguição seja mais velada. Na época, a China ainda pleiteava o mercado internacional, mas a perseguição era muito severa. 
 
GUIAME: Qual é o maior desafio da MAIS?
MF: Trabalhamos em alguns países do mundo iniciando programas de microcrédito para famílias cristãs. O objetivo é que a igreja tenha dignidade. No Sudão, por exemplo, mais especificamente no norte, cristãos não conseguem emprego porque os muçulmanos não os ajudariam. Então, ajudamos algumas famílias a iniciarem pequenos negócios. É desafiador conseguir recursos para manter e ampliar esses projetos.
Além disso, recentemente começamos a receber famílias sírias no Brasil, refugiadas de perseguição e guerra. Nosso chamado é apoiar a igreja sofredora no campo, onde ela está. Mas nesse caso, tem estado impossível que os cristãos sírios permaneçam em seu país. A imprensa tem pouco acesso ao que acontece especificamente com a igreja. As fronteiras foram dominadas pela Al Qaeda, e famílias cristãs têm sido executadas assim que são identificadas. Queremos ajudar mais famílias, precisamos ampliar recursos e estruturas também para isso.
 
Refugiados - MAIS
Campanha de acolhimento às famílias refugiadas
 
GUIAME: Em que condições chegam as famílias refugiadas pela MAIS?
MF: Chegam desgastadas, algumas traumatizadas. Uma das famílias que chegou recentemente demorou alguns dias para conseguir sair da Síria, por conta da necessidade de driblar as barricadas da fronteira. O filho de 4 anos viveu o último ano ouvindo bombardeios constantes em Homs, sua cidade natal. Ao chegar em nossa base, todas as suas brincadeiras incluíam barulhos de bombas e explosões. Demorou para que ele percebesse que estava em ambiente seguro. São as marcas da guerra. 
 
GUIAME: Quantas famílias, aproximadamente, estão sendo refugiadas pela MAIS e qual é o trabalho feito com elas?
MF: Já ajudamos aproximadamente 40 pessoas oriundas da Síria, desde Novembro de 2013. Esses irmãos ficam conosco durante o período em que expedimos seus documentos básicos (protocolo de refúgio, CPF e carteira de trabalho). Esse processo demora aproximadamente 30 dias. Uma vez que tais documentos estejam prontos, eles são redirecionados de nossa base para igrejas do Brasil que aceitam hospedá-los. Esse acolhimento possui alguns padrões básicos, que exigimos para que as famílias tenham segurança nesse início. A igreja compromete-se a alugar uma casa por um ano, para aquela família, além de custear um curso formal de português para estrangeiros, e viabilizar um emprego para o pai da família. É um trabalho integral. A obra de missões precisa observar o ser humano integral.  
 
GUIAME: Pelo o que você vê nos lugares que vai, o interesse das igrejas por missões, no geral, ainda é pequeno?
MF: Não diria que é pequeno, mas a informação é pouca e a reação é superficial. Muitas igrejas querem mandar equipes, ir ao campo, etc. Não sou contra as viagens de curto prazo, pois acabo de testemunhar que numa delas o meu chamado se estabeleceu. Mas a tarefa missionária da igreja deveria consistir efetivamente em ações de transformação a longo prazo. Realizar viagens ao campo não pode servir como desencargo de consciência, como se a tarefa já estivesse cumprida. Vale dizer que, com o custo da ida de 10 jovens para passar uma semana no Haiti (onde não conseguem se comunicar na língua local e, na maioria das vezes, não possuem um preparo sólido) é possível custear microcrédito para mais de 100 famílias no mesmo país, ou construir ali 2 templos. Portanto, podemos investir no curto prazo, mas devíamos "fazer essas sem omitir aquelas".  
 
GUIAME: Por sua experiência pessoal, do que é preciso abrir mão para ser missionário e atender ao IDE?
MF: É preciso não fazer questão de holofotes. Os maiores heróis da igreja brasileira não estão nos púlpitos: são missionários desconhecidos nos rincões do sertão ou no sincretismo da Índia. Não aparecem para os homens. Mas Deus os supre em todas as coisas. 
 
GUIAME: Deixe uma mensagem sobre a importância do investimento em missões a todos que estão lendo essa entrevista.
MF: Investir em missões não trará um retorno imediato ou direto à sua família, nem à sua igreja. Pode não haver crescimento numérico também, por conta disso. É Reino. É lançar o pão sobre as águas, crendo que Deus alimentará a quem deseja. Se não tivessem feito o mesmo séculos atrás, a nosso respeito, o evangelho não teria chegado até nós. 
 
 
Juliana Simioni
www.guiame.com.br

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