Carlos Bezerra Jr.: "O nosso coração deve bater por aquilo que faz o coração do Pai bater"

Carlos Bezerra Jr.: "O nosso coração deve bater por aquilo que faz o coração do Pai bater"

fonte: Guiame

Atualizado: Quarta-feira, 16 Abril de 2014 as 4:32

Carlos Bezerra Jr.: "O nosso coração deve bater por aquilo que faz o coração do Pai bater"As lutas de Carlos Bezerra Jr. contra injustiças sociais, como o uso do trabalho escravo e atentados contra os princípios da família e do direito à vida têm ganho projeção. Prova disso, é que foi chamado para presidir a CPI do Trabalho Escravo.

Em entrevista ao site Genizah, o deputado falou mais sobre cristianismo, política, estas conquistas e o contexto em que estas lutas têm-se desenrolado.

Confira a entrevista na íntegra, logo abaixo:

Recentemente, o senhor afirmou não se alinhar a bancadas evangélicas. Por quê?

Não me envergonho do Evangelho, mas tenho, sim, vergonha dos abusos que alguns evangélicos têm cometido na política usando o nome de Deus. Quando ser "luz nas trevas" é criticar injustamente uma irmã nossa com o testemunho e a contribuição pública da Marina Silva e criar polêmica que turbina a venda de revistas pornográficas, algo vai muito mal... As trevas que precisamos iluminar são as das crianças vítimas de abuso sexual, dos imigrantes explorados como escravos, da falta de ética, da impunidade, da injustiça, da religiosidade moralista e vazia. São esses os lugares para onde devemos levar nosso candeeiro. Escrevi certa vez um texto intitulado "Um cabo eleitoral muito poderoso", que falava justamente dessa instrumentalização do Evangelho a favor de ambições pessoais. Muitas vezes a bancada evangélica tem sido notícia mais pelo que faz em benefício próprio do que por suas propostas em prol dos excluídos, por exemplo. Mais pelo que é contra do que pelo que é a favor. Não falo como quem julga. Não aponto meu dedo. Faço um alerta e oro a Deus pedindo misericórdia, de mim inclusive. A política é uma ferramenta muito poderosa para salvar vidas, mas pode ser fatal quando mal usada.

O senhor é a favor do Estado laico?

Muitas pessoas confundem isso de ser laico ou não com censura da liberdade de expressão religiosa. O Estado precisa fazer frente aos desafios que tem com princípios de justiça, de retidão, de igualdade, de paz. Agora, sempre serei contra qualquer iniciativa que, disfarçada de "isenção", tente cercear nosso direito de afirmar a fé em Jesus Cristo ou que nos trate com preconceito. Sou contra, por exemplo, quando o movimento gay quer impor sua condição como normativa ou ridicularizar a nós evangélicos, reduzindo-nos a estereótipos. Da mesma forma, sou contra as bancadas evangélicas quando usam de demagogia moralista para esconder a irrelevância de suas contribuições políticas. O rebanho evangélico está crescendo muito, mas somos mais que números. Temos uma contribuição importante na história do nosso país e da democracia. Lutamos por avanços, somamos esforços em momentos decisivos, participamos de conquistas. Somos referência moral e ética sempre que imitamos nosso Mestre nas mais diversas frentes, como na luta pelos direitos civis e no combate à impunidade. As igrejas vão aonde o Poder Público não vai. Se alguém tem dúvida, basta visitar a periferia das cidades brasileiras. Nós evangélicos estamos lá, amando aquele povo, nos importando com seus problemas, sendo bons samaritanos nas estradas da vida. Precisamos ser respeitados e ouvidos. Nossa voz jamais deve ser calada.

Parte das bancadas evangélicas de todo o Brasil parece se importar mais com temas morais. O que pensa a respeito?

Jesus chama de "guias cegos" aqueles que coam mosquitos e engolem camelos. Infelizmente, muitos que se mostram escandalizados com questões morais não têm nenhum tipo de sensibilidade aos problemas sociais ainda vivenciados por muita gente. Como parlamentar, defendo as verdades bíblicas que aprendi e aprendo dia a dia. Em temas como a defesa da família e a valorização da vida, por exemplo, sou tradicional. Assim como no caso do casamento – tema que tem sido alvo de muitos debates. Nesse ponto, vou deixar claro: casamento, para mim, é questão da Igreja, e não do Estado. Ao Estado cabem outras questões, mas na Igreja as regras são outras. Em outros temas, sou progressista. Na defesa do pobre e dos que não têm voz, radical. Mas minha fé vale mais do que qualquer posição política. Independentemente de cores partidárias, conjuntura, voto ou popularidade, é à Palavra que devo fidelidade. Junto com isso, acredito que devemos exceder o campo moral – não ignorá-lo. Está na hora de fazer como Jesus ensinou em Mateus, alertando os mestres da lei: "...vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes: a justiça, a misericórdia e a fidelidade." Ao que o Mestre concluiu: "Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas". Devemos manter firmes nossas posições como cristãos, mas é preciso demonstrar essa mesma firmeza com propostas concretas por uma sociedade justa, mais humana e mais parecida com o Reino de Deus.

Precisamos de um presidente evangélico no Brasil?

Acredito que teremos um presidente evangélico somente quando nossa conduta fizer diferença fora da Igreja. Quando a sociedade, e não exclusivamente os evangélicos, notar a diferença na honestidade, na transparência, nas condições de saúde pública, na segurança, na educação, na sustentabilidade, na defesa de quem mais precisa. Afinal, a Palavra diz que, quando o justo governa, o povo todo – e não apenas a parte cristã - se alegra. Antes de falar em presidente evangélico, precisamos de um olhar crítico sobre nossa ação política. A Igreja já tem em Jesus seu único e suficiente defensor, então, chegou a hora de deixar de lado o discurso barato de defensor da Igreja e levantar a voz profeticamente, colocando o Evangelho em prática para combater a injustiça, ser limite à maldade, quebrar os grilhões das opressões sociais e sinalizar o Reino de Deus em nossa nação. Com esses valores e objetivos, estou comprometido desde antes de ingressar na vida pública e pelo tempo em que nela estiver.

O senhor vai presidir a CPI de combate ao trabalho escravo. Qual sua expectativa?

Não esperava que essa CPI, cuja criação propus em agosto ou setembro de 2011, chegasse a ser instaurada ainda neste mandato. Havia uma "fila" imensa de outras comissões, protocoladas anteriormente. Depois da sanção da nova lei paulista contra o trabalho escravo, achei que não haveria novidades sobre o assunto na Assembleia Legislativa. Mas, como disse, a dor e o clamor dessas pessoas movem o coração de Deus. E o nosso coração deve bater por aquilo que faz o coração do Pai bater. A CPI é um conquista importante. Agora teremos um instrumento forte e com poder judicial para enfrentar essa violência absurda, que é uma afronta ao nosso Criador. Ele nos fez à Sua imagem e semelhança, não nos criou para que vivamos em condições subumanas, tratados como animais. Estou certo de que uma investigação como a que pretendemos fazer, aliada à nova lei, será um golpe duríssimo na exploração de trabalho escravo e, sem dúvida, mudará a realidade do Estado. Trata-se de um passo importante para garantir que, aqui, a busca pelo lucro jamais terá maior valor que a vida humana. Conto com o apoio em oração de todos os irmãos em Cristo para que me apresente "apto e plenamente preparado para toda boa obra" (2 Timóteo 3.17).

Com esse tipo de trabalho, não tem medo de ser perseguido?

Há muita represália. Ameaças, tentativas de desmoralização pública... Coisas que talvez você nem possa imaginar. Mas é sempre assim: quando rejeitamos a política do "jeitinho" e nos posicionamos a favor de quem não tem, grupos poderosos se mexem para impedir mudanças e desqualificar quem quer fazê-las. Mas cada calúnia me faz ter mais certeza do caminho certo. "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça", diz a Palavra. Então, esse tipo de ataque jamais vai me assustar. Eu sei quem é meu refúgio e meu escudo.

Com informações do Genizah

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