Daniel Mastral: "Não vejo nenhum relato de Jesus ofendendo homossexuais"

Falando com exclusividade ao Portal Guiame, o escritor e palestrante cristão Daniel Mastral abriu o jogo sobre suas opiniões com relação à 'guerra' entre os movimentos LGBT e os evangélicos.

fonte: Guiame, por João Neto

Atualizado: Sexta-feira, 12 Agosto de 2016 as 5:50

Daniel Mastral é escritor, palestrante e autor da série literária de sucesso "Filho do Fogo". (Imagem: Youtube)
Daniel Mastral é escritor, palestrante e autor da série literária de sucesso "Filho do Fogo". (Imagem: Youtube)

No mês de julho, o procurador Jefferson Aparecido apelou para a manutenção da ação contra o pastor Silas Malafaia por supostas "declarações homofóbicas". Já na última quarta-feira (10), o deputado e representante do movimento LGBT Jean Wyllys (Psol - RJ) foi indiciado pelo Conselho de Ética da Câmara por quebra de decoro, após associar os nomes do pastor Marco Feliciano (PSC - SP) e Jair Bolsonaro (PSC - RJ) ao crime de terrorismo que ocorreu em uma boate gay, na cidade de Miami (EUA).

Estes dois episódios são apenas alguns dos muitos capítulos de um conflito entre os movimentos LGBT e evangélicos, que se arrastam nos cenários políticos e sociais do Brasil. Mas segundo o escritor e palestrante cristão, Daniel Mastral, este cenário é a pintura de um quadro doloroso para ambos os lados.

Falando com exclusividade ao Portal Guiame, Daniel Mastral abriu o jogo sobre suas opiniões com relação a esta 'guerra' afirmou que tem visto a Igreja perdendo a oportunidade de cumprir a sua missão em diversos capítulos desta saga, apesar das comunidades cristãs e seus líderes terem todo o direito de defenderem a preservação dos valores bíblicos e também se esquivarem dos excessos da militância LGBT.

Confira a entrevista exclusiva na íntegra, logo abaixo:

Portal Guiame: A cada dia um novo capítulo se acrescenta à saga de uma aparente guerra entre evangélicos e o movimento LGBT. Você acredita que exista alguma possibilidade dessa história se desfazer desse caráter litigioso?

Daniel Mastral: Primeiramente, agradeço mais uma vez, a honra em poder somar com este conceituado Portal, que tem trazido ao público pautas relevantes e com a profundidade e equilíbrio que o Reino merece!

Respondendo sua questão, creio que, Infelizmente não. O Movimento LGBT está buscando seus direitos civis, previstos em nossa constituição. Tanto que o pleito foi acatado. Até mesmo o Papa tem tido um postura conciliatória sobre esta questão. Quando um cristão (seja lá quem for), se expressa de forma agressiva, Isso mancha a Noiva, e nos coloca em evidência negativa perante a sociedade como um todo. A missão da Igreja é apontar o caminho. Mas, jamais julgar, sentenciar ou condenar. Quem julga é Deus. Ele é o Justo Juiz. A Bíblia nos ensina a não julgar. Nós não somos justos, tão pouco juízes. Nosso amor é contaminado e deformado. Não há como exalar o perfume de Cristo sem viver o que Cristo nos ensinou. E Ele é a expressão majoritária do amor. O amor não aponta o dedo; estende a mão. Nisso repousa a sabedoria dos sábios: prudência, prontidão a ouvir e ser tardio no falar e em se irar (Tiago 1:19). Pois quem fala demais, acaba falando do que não sabe. Um provérbio chinês corrobora para emoldurar isso melhor: “O medíocre discute pessoas. O comum discute os fatos. O sábio discute ideias”.

Guiame: Muito se fala na disputa Homofobia X Cristofobia, você acredita que alguma dessas partes esteja sofrendo certo tipo de perseguição (seja ela religiosa ou ideológica)?

Daniel Mastral: Não vejo esta linha dualista extremista. Vejo algumas exceções pontuais em cada lado, que acabam, às vezes, sendo referência para muitos. Seria o mesmo que afirmar que todo muçulmano é terrorista. Apenas uma minoria do seguimento é extremista. Há cristãos extremistas também dentro de seu legalismo e tradições. E há também, às vezes, exagero em algumas manifestações do grupo LGBT. Porém, a maioria das partes é equilibrada, a meu ver. O que não pode é haver o pré-conceito tanto de um lado como do outro. Se, por exemplo, crime de racismo é previsto em lei, logo, toda forma de preconceito, por analogia, será também uma expressão da acepção. Por outro lado, em um estado laico, nos é permitido ter nossas convicções religiosas e merecemos o devido respeito a elas. Seja qual for. Assim sendo, se um Pastor se recusar a casar um casal de homossexuais ele não estará agindo de forma preconceituosa, mas apenas defendendo o seu legítimo direito de preservar os valores que acredita e que norteiam seu caminho moral e religioso.

Assim como existe também uma ala cristã que faz casamento entre homossexuais. Eu, particularmente, tenho amigos homossexuais e isso não é impedimento para o convívio. Há respeito mútuo entre nós. São monogâmicos, não promíscuos e leais um ao outro. E quem sou eu para julgar este amor? Não vejo nenhum relato de Jesus ofendendo homossexuais de seu tempo. E eles existiam! Mas, Ele atacava frontalmente o sistema hipócrita da Igreja de seu tempo. A missão do amor é acolher e transformar. Sem acolhimento não há transformação.

O respeito entre ambas às partes é fundamental para que haja equilíbrio. Afinal, não há como conviver em sociedade sem respeitar estes valores. Quando algum destes direitos é violado, cabe ao estado, mediante suas leis, ponderar às questões e reestabelecer a ordem que o convívio social requer.

Cristãos expõem faixa contra a homofobia em manifestação. (Foto: G1)



Guiame: Há quem reaja com certa "conformidade" diante da possibilidade de que os cristãos estejam sofrendo algum tipo de perseguição por se posicionarem biblicamente diante da homossexualidade, com frases "A perseguição já estava prevista na Bíblia, etc". Mas qual deveria ser a atitude da Igreja diante desta (já prevista) perseguição?

Daniel Mastral: A perseguição aos cristãos é histórica e também profética. Jesus disse que, por amor a Ele seríamos perseguidos e odiados. Afinal, o mundo ataca aqueles que não pertencem a ele. Nós somos peregrinos aqui! Assim se fundamenta nossa expressão de fé. Se somos peregrinos, devemos deixar um rastro positivo e de amor. E não uma trilha de ódio e preconceito. Quero lembrar do notório caso da mulher adúltera narrada em João, capítulo 8. Ela foi apanhada no ato, em flagrante! As leis mosaicas davam anuência para que a tal fosse apedrejada. Este dilema é apresentado diante de Jesus. Como o Amor iria reagir? Jesus calmamente escreve na areia. Não grita, não faz discursos inflamados, não ataca, não agride, não julga...

O que ele escrevia? Certamente o pecado daqueles que carregavam as pedras, prontas para reivindicarem seus “direitos” perante a “lei”. Porém, o que Jesus escreveu causou enorme constrangimento a todos do grupo. E, um a um, a começar pelos mais velhos, foram saindo... Jesus os confrontou com o pecado. Os colocou diante do espelho de Deus. Quem não tem pecado, atire a primeira pedra!
A Palavra diz que os maldizentes, avarentos, gananciosos, mentirosos, ladrões, homicidas, etc. não herdarão o Reino dos céus. Perdi a conta de quantas vezes eu mesmo fui subtraído de valores por “líderes”. De quanta mentira presenciei. Quanta hipocrisia, falsidade, ira, orgulho, soberba fui eu mesmo testemunha. Muitos estão presos nestas teias de pecado. Outros tantos presos na pornografia. Recebo inúmeros e-mails, de líderes e de ovelhas que estão nestes cativeiros de pecado. O mesmo quadro estava ali, naquela ocasião. Jesus confrontou os presentes com seus próprios pecados. Pois, cada vez que apontamos o dedo a alguém, três dedos se apontam em nossa direção.

Por fim, ficam só Jesus e mulher... O que o Amor faz? Julga? Condena? Dá um sermão? Acusa? Agride? Não! Jesus apenas pergunta, suavemente: “Onde estão teus acusadores?”. Não havia mais nenhum ali! Então O Amor diz: “Eu também não te condeno, vá e não peques mais”. Jesus quebrou paradigmas de seu tempo. Ouviu a voz do cego a quem todos mandavam se calar. Tocou os leprosos dos quais todos tinham ojeriza. Falou com a mulher samaritana que todos rejeitavam. Olhou para Zaqueu com ternura. O olhar de Cristo procurou Pedro, mesmo enquanto Ele era espancado. Queria lembrar a Pedro: Eu te amo! Mesmo ele tendo negado a Cristo... Nosso Consolador chorou... Ele sente nossas dores e faz profunda empatia com elas. Assim age o Amor... assim devem agir os que seguem O Amor!

Guiame: Você acredita que haja influências também do âmbito espiritual neste conflito entre a Igreja e o movimento LGBT ou seria uma questão mais cultural / política?

Daniel Mastral: Pela ausência de conhecimento, o povo de Deus perece (Os 4:6). Muitos levantam a mesma bandeira ao acusar os homossexuais: “Deus fez macho e fêmea”! Não é assim? Repetimos aquilo que ouvimos, quase como um mantra. E com base nisso, formamos nossa opinião. Colocando-nos em um pedestal de superioridade. Pois bem... Quero esclarecer isso de forma sumariada, porém consistente. Adão era cego? Eva era surda? Adão ou Eva tinham algum membro faltando? Não! Eram perfeitos! Mas, hoje nascem pessoas cegas, surdas, com síndromes, sem membros, etc. Por quê? Porque nosso DNA foi corrompido desde o pecado original. Daí surgem as anomalias. Padrões fora do normal, fora daquilo que foi originalmente criado por Deus. Deixamos de ser perfeitos e passamos a conviver com a imperfeição. Analisemos Caim. Primeira geração pós-pecado. Ele planeja o assassinato de seu irmão, Abel. E, friamente, mesmo depois de ser advertido por Deus, ele mata seu irmão. Não vemos sinais de culpa ou remorso na narrativa. Hoje, a ciência chama pessoas assim de psicopatas. Algo havia mudado na natureza de Caim. Isso só foi aumentando com o tempo. Basta olhar para umas poucas décadas atrás e nos deparamos com os horrores do holocausto e as formas mais cruéis de morte e sofrimento. Poderia citar inúmeros exemplos aqui. Mas, fica claro que algo mudou...

O DNA é algo muito interessante. O que nos separa de um Chimpanzé são apenas pouco mais de 1% de nossos genes. Ou, seja, compartilhamos com o macaco 98,7% de nosso DNA. E esta mínima diferença nos fez capazes de construir cidades, satélites, computadores, aviões, compor sinfonias, poemas, etc. Então, pequenas diferenças promovem grandes mudanças. Eu acredito que há homossexuais que são assim devido a algum trauma sexual em sua infância. Outros são frutos do meio. Outros por escolha a fim de provar algo “diferente”. Portanto, há casos reversíveis, desde que este seja o desejo de quem busca esta vertente. Contudo, existem pessoas que nascem assim. Nascem “diferentes”! Fora do padrão que consideramos perfeito. Os fatores são múltiplos. Desde o que já citei sobre termos nosso DNA corrompido pelo pecado Original, até os efeitos de substâncias químicas que alteram nossos genes, como o BPA, leite de soja, etc. Não há como abarcar toda a complexidade disso em algumas linhas. Procuro me estender mais sobre este tema no meu Seminário de Relacionamentos.

Pastor Silas Malafaia (esquerda) e Jean Wyllys (direita) acabaram tornando-se dois protagonistas da 'guerra' que se instalou entre o movimento LGBT e evangélicos no Brasil. (Foto: Veja)

Conheço crianças de cinco anos que, embora sejam meninos em sua certidão de nascimento, pensam e agem como meninas. São crianças! Mas, já têm sua orientação sexual bem definida. Nasceram assim! Como podemos ter a crueldade de condenar vidas assim? Por outro lado não nascemos mentirosos, egoístas, maldizentes. Ficamos assim. Isso é uma escolha! Portanto há uma diferença a ser observada. À luz das escrituras, a prática homossexual é considerada pecado. Tanto que Sodoma foi destruída devido à sua extrema perversão e promiscuidade. Ou seja, o ato sexual não tinha como esteio o amor, mas apenas o prazer. Isso banalizou os valores de Deus. Havia sexo grupal, orgias, etc. E todo pecado tem suas consequências. Ocorre que não somos nós que iremos medir isso. E sim Deus. Fico perplexo em ver líderes religiosos atacando o homossexual, mas sendo eles mesmos, fontes de inúmeros pecados. São homicidas, pois matam sonhos e esperança de muitos com palavras mentirosas. Vendem ilusões, enganam descaradamente o povo! Roubam a esperança quando limitam o poder de Deus ao valor que você está disposto a pagar. Deus é mais que isso! Deus é amor!

Voltando a questão do DNA. Se 1,3% nos faz tão superiores aos Chimpanzés... Imagine um ser que fosse 1% superior a nós! Seríamos nós, aos olhos deste ser como primatas! Nossos maiores cientistas seriam crianças do jardim da infância. Agora vamos elevar a conta... Imagine um Ser 100% melhor que você e eu! Deus é assim! Então, como nós, limitados, pecadores, com nosso amor contaminado e deformado podemos ter a ousadia de julgar e sentenciar quem quer que seja? Católico, Budista, Homossexual, espírita, ou seja lá o que for? Nossa missão não é “ide e aponte o dedo e todos”! Mas ide e pregai o evangelho a toda criatura. E este evangelho é amor. É disso que o mundo precisa. É isso que o mundo espera de nós! Da igreja que tem como cabeça, Cristo! Que, em Seu amor, transformou o pior dia da vida do bandido pregado ao seu lado na Cruz, no dia mais maravilhoso de sua vida: “Hoje, você estará comigo no Paraíso!”

O olhar de Cristo tem compaixão e bondade. Vivemos tempos difíceis, eu sei... Amor esfriando, apostasia aumentando... Mas, ainda é possível, aos que creem, mudar o mundo ao nosso redor. Podemos ser flores do jardim de Deus e exalar o perfume do amor, da fé e da esperança aos que nos rodeiam. Aproveito o ensejo, para pedir perdão, em nome da Igreja, ao movimento LGBT. Jesus ama vocês! Ele pode transformar cada lágrima em uma pérola preciosa. Que o Amor de Cristo possa inundar nossos corações!

Deus nos abençoe e nos guarde! Na Unidade da Cruz.

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