E setembro se foi …

Nos últimos 10 anos e um pouco mais, o mês de setembro também significou no mercado evangélico do Brasil o período dos grandes lançamentos.

fonte: Observatório Cristão

Atualizado: Quinta-feira, 2 Outubro de 2014 as 4:35

E setembro se foi …O mês de setembro é, sem dúvida, um período especial em meio a todos os outros meses do ano. É no mês de setembro que comemoramos a chegada da primavera, estação do ano que nos traz uma sensação de renascimento, de frescor, da mudança da natureza, em especial do desabrochar das flores, do esplendor das plantas e tudo mais. É um período onde, especialmente em outras regiões do planeta onde o inverno é bem rigoroso, a mudança do clima e a sensação de que o verão está prestes a chegar mudam os ânimos de todos.

Também acho que a partir deste mês é que nos damos conta de que boa parte do ano já se foi e de que a partir de agora começa oficialmente a contagem regressiva para as festas natalinas, o novo ano que se avizinha.

E antes que os atentos 66 leitores deste blog comecem a pensar que meu calendário está confuso porque este texto está sendo publicado em pleno mês de outubro, me adianto a explicar que o início da criação deste post se deu dias atrás, ainda no mês de setembro, entre uma viagem do Rio de Janeiro para a capital paulista. Agora finalizo este mesmo texto no saguão do aeroporto Santos Dumont onde daqui a pouco sigo para uma viagem bate e volta até Campinas. Como não vi necessidade de mudar o lead do texto, sigo escrevendo incensando o mês de setembro.

Vamos de volta ao texto …

Nos últimos 10 anos e um pouco mais, o mês de setembro também significou no mercado evangélico do Brasil o período dos grandes lançamentos, fossem eles na área fonográfica, editorial ou mesmo de confecções e afins. Afinal, era justamente no mês de setembro que todos os anos acontecia a Expo Cristã, que na verdade surgiu sob o nome de FICOC – Feira Internacional do Consumidor Cristã. Tenho orgulho de ter participado de todas as edições deste evento como expositor, em diferentes empresas. A primeira edição foi no ExpoMart Center, na Vila Guilherme, em São Paulo, uma espécie de shopping desativado. Um local meio esquisito, mas que acabou atendendo às metas estabelecidas. Já na primeira edição a presença de expositores, lojistas e até mesmo público consumidor foi bem interessante e serviu de estímulo para novas edições nos anos seguintes.

A tristeza neste momento é porque emprego o verbo “acontecer” no passado, afinal a Expo Cristã não aconteceu em 2013 e novamente neste ano não foi realizada. Em 2013 foi realizada a primeira edição da FIC promovida pela Geo Eventos, mas assim como a própria organizadora do evento, a feira não sobreviveu a uma segunda edição. Ou seja, o mercado ficou órfão de uma feira oficial do mercado reunindo os grandes players em diferentes setores. E pelo andar dos acontecimentos e a tradicional falta de coesão reinante no mercado, a possibilidade de não termos mais uma feira nos moldes anteriores é bem real.

Todo grande ramo de negócios tem uma feira oficial a cada um ou dois anos. Isso acontece na área de molas de caminhão, de produtos de segurança, de games, de produtos fisioterápicos, de turismo, indústria automobilística, informática e por aí vai … então como pode um mercado que vem crescendo em número de consumidores ano a ano, que possui importantes players em diferentes áreas, mídias segmentadas, canais de distribuição próprios, não ter uma única feira em nível nacional?

Para não ser injusto ou mesmo tendencioso, cabe registrar que a ASEC, entidade que reúne as principais editoras do segmento evangélico no país, realizou nos últimos anos a FLIC, espécie de Expo Cristã exclusiva para o mercado editorial – entre outras justificativas, o fato de não contarem com a presença de gravadoras neste evento era porque assim não teria barulho! Realmente, na primeira e última vez em que estive neste evento, o silêncio era absoluto, quase sepulcral. Só que em 2014, a ASEC resolveu juntar suas forças (e silêncio!) com o Salão Internacional Cristão, outra feira que foi realizada nos últimos anos sem ter conseguido muita relevância no mercado e principalmente de público e expositores.

Coincidentemente estava em São Paulo na época em que este evento reunindo as 2 feiras aconteceu em São Paulo, no Espaço Imigrantes. O evento aconteceu faz 2 ou 3 semanas atrás e a minha expectativa era a menor possível, afinal mesmo sendo uma pessoa bastante atenta às novidades, notícias e tudo o que ocorre no meio, até então não havia recebido informação alguma do evento. Ou seja, a possibilidade de não me deparar com uma feira nos moldes da Expo Cristã era real e de fato foi o que encontrei numa visita que não durou mais do que 50 minutos. Sim! Em parcos minutos consegui dar uma olhada panorâmica em toda a feira, conferi os stands, revi alguns amigos e pude conferir tudo com muita tranquilidade, pois afinal a presença do público naquele local era a menor possível. Ainda assim acabei recebendo 6 CDs (para ouvir com carinho, sempre!), conversei com uns 2 artistas independentes e tirei umas 2 ou 3 fotos. Ou seja, frustração geral, irrestrita, absoluta.

Recordo-me que em meus tempos de Line Records, com um stand de mais de 400 metros quadrados (quase um latifúndio!), montamos uma estrutura que contava com massagistas atendendo aos lojistas em pausas relaxantes, máquina de chocolate derretido distribuído a todos os visitantes e ainda, um touro mecânico. Pra completar, para o stand levamos a impressionante quantidade de 220 mil CDs e DVDs para serem comercializados em 6 dias de feira. Montamos uma verdadeira Muralha da China com caixas e mais caixas empilhadas pelo stand e corredor da feira. Artistas, lojistas, mídias, público de todo o Brasil marcavam presença na feira. Era uma grande festa, uma oportunidade para rever amigos, fazer novos contatos e principalmente divulgar e fazer bons negócios. Numa destas edições, já pela Graça Music, lembro-me que lançamos 16 títulos diferentes durante a feira, o que garantia sempre visibilidade e muito movimento no stand.

O clima nem sempre era amistoso. Tínhamos constantes embates com a organização da feira, principalmente pela questão da poluição sonora (e que barulho!) dos stands cada qual competindo em muitos decibéis para ter a atenção do público e sobrepujar a concorrência. Meninice absoluta! Algumas edições depois, pessoalmente percebi que essa babel sonora não levava a lugar algum e mais afugentava do que aproximava os clientes. Então, a partir desta constatação, nos nossos stands nem aparelho portátil de som levávamos. Mas além do barulho, a feira também era conhecida pelo enorme afluxo de pessoas. No sábado, em especial, as hordas de adolescentes, jovens, gente de todo tipo, idade, denominação e estilo se acotovelavam pelos cada vez mais estreitos corredores da feira. No fim do dia, a imagem era dantesca com pilhas e pilhas de lixos amontoados nos corredores típico do “Lixão de Gramacho” em Duque de Caxias.

Antes mesmo do início da feira a tensão era clara com a organização e principalmente as montadoras que não cumpriam prazos e sempre atrasavam a entrega dos stands para os expositores. Até uma certa fase, havia uma clara disputa entre os expositores para ter o mais nababesco espaço na feira. Alguns stands traziam projetos carnavalescos com 2 andares, muita suntuosidade, o que poderíamos hoje definir como o stand-ostentação. Ao fim da feira, na hora do desmonte dos stands, sempre me batia uma tristeza, uma angústia ao ver que aquela ‘casa’ que nos acolheu por 6 dias não existiria mais daqui alguns minutos. Muito interessante como, mesmo com cansaço absurdo, ainda sentia falta daquele tumulto alguns dias depois.

A Expo Cristã não era para amadores. Definitivamente não! Tinha muitos problemas de gestão, muitos ajustes a se fazer … sem dúvida! No entanto, o mercado evangélico se tornou órfão com a descontinuidade deste projeto. E infelizmente não vejo muita chance desta situação ser revertida nos anos mais próximos. O nosso meio sempre foi marcado pela absoluta falta de visão de grupo, de associação, de interesses mútuos em prol de algo mais relevante. Faltam lideranças, executivos, empreendedores que tenham disposição para fazer algo que realmente beneficie o mercado. No melhor estilo haraquiri, o próprio mercado vem contribuindo para o enfraquecimento deste ambiente de negócios.

Como forma de tentar suprir esta perda da Expo Cristã, algumas promotores de eventos regionais investiram na realização de feiras similares. Neste ano tivemos a Gospel Fair em Goiânia que tem tudo para se firmar no calendário pelos próprios anos. A Expo Evangélica de Fortaleza segue forte depois de 10 anos de realização e se consagra como a principal feira cristã do Nordeste do país. Para 2015 já foi lançada uma feira em Natal/RN com a organização da equipe da boa revista Propagar. E ainda em 2014, o Vale do Paraíba em São Paulo, às margens da Via Dutra, comemora a realização da Expo Vale em São José dos Campos, evento que por sinal, estarei conferindo pessoalmente. Todas estas iniciativas são válidas, mas estão anos luz de distância do que já foi a Expo Cristã!

Meu desejo é de que um dia possamos ter novamente uma feira que conte democraticamente com editoras, mídias, gravadoras, promotores de eventos, empresas de suprimentos para igrejas, confecções e todo tipo de empreendimento que contribua para uma melhora do mercado gospel e da própria igreja evangélica brasileira. Esta é minha expectativa.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, alguém que já carregou muitas caixas de CDs nas costas, que recebeu em torno de 2 mil CDs, DVDs, pastas, releases, fotos, CDRs e afins durante anos e anos de feira.

P.S. – Este texto é dedicado ao grande amigo Eduardo Berzin, empreendedor do mercado gospel que teve a coragem de investir na realização da feira e que hoje faz muita falta a todos nós.

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