"A fantasia pode ser uma amiga", diz autora de 'A ilusão dos 50 tons' em entrevista

Com base no sucesso 'Cinquenta Tons de Cinza', Shannon Ethridge fala sobre fantasias sexuais, principalmente de casais cristãos. "Assumir que os cristãos lutam contra fantasia sexual menos do que outras pessoas é simplesmente ingênuo. Somos todos criados como seres sexuais, e todos nós temos a imaginação sexual ativa"

fonte: Guiame, Juliana Simioni

Atualizado: Sexta-feira, 13 Fevereiro de 2015 as 10:15

Cinquenta Tons de Cinza
Cinquenta Tons de Cinza

No dicionário Michaelis online, fantasia é definida por ‘Obra de imaginação. Ideia, devaneio. Vontade passageira. Extravagância’. Talvez a última definição seja a que mais se encaixa ao tipo de fantasia que essa matéria aborda, a sexual.

Novamente entre os assuntos mais comentados, ‘Cinquenta Tons de Cinza’ chega ao cinema e agora apresenta os personagens Christian Grey e Anastasia Steele em forma física.

Na história, o poderoso Grey se envolve com a jovem Anastasia e apresenta a ela suas fantasias sexuais envolvendo sadomasoquismo, união de sadismo e masoquismo, ambos definidos como um tipo de perversão sexual, sendo que um aumenta o prazer ao gerar sofrimento físico em outra pessoa, e em outro o prazer é através de seu próprio sofrimento.

Em 2013, a editora Thomas Nelson lançou o livro ‘A ilusão dos 50 tons’, de Shannon Ethridge, que debate o tema de um ponto de vista psicológico e teológico. A autora tem mestrado em Aconselhamento e Relações Humanas pela Liberty University e atua como conselheira cristã.

Para melhor falar sobre sexualidade e fantasias sexuais, inclusive de casais cristãos, o GUIAME entrevistou Shannon Ethridge. Confira:

GUIAME: O que leva uma pessoa a desenvolver um gosto por sadismo ou masoquismo?

SE: Eu acredito que as fantasias sexuais são apenas uma maneira do cérebro tentar ser curado de algum trauma emocional do passado. É a nossa maneira de ‘arrumar um mal antigo’, ou "recriar um cenário para 'ganhar' desta vez". Se essas teorias são verdadeiras, então devemos perguntar: "Que tipo de experiência de vida alguém pode ter tido que exigiria tal cenário para abrir os caminhos do cérebro para o prazer?"

Em uma cena de estupro, a vítima não tem nenhuma escolha sobre o sexo. Ele está sendo imposto. Apenas na fantasia isto parece uma coisa boa. Talvez seja porque o fantasiador seja uma pessoa muito passiva, e a ideia de alguém dominar e tomar decisões sexuais seja atraente para ele. Ou talvez, observar que a vítima não tem que assumir responsabilidade pelo que está acontecendo. Ela não tem que se sentir culpada. Ela não está sendo promíscua. Estes medos de se sentir responsável, culpado ou promíscuo pode resultar de uma sexualidade reprimida, o que muitas vezes acontece em lares cristãos bem intencionados, com a mentalidade de "o sexo é sujo e vergonhoso, e aqueles que o praticam são sujos e vergonhosos."

Culpa e vergonha não são compatíveis com uma mentalidade do orgasmo, por isso a fantasia de estupro leva toda a culpa e vergonha para fora da mesa, abrindo espaço para uma festa de prazer, mesmo que o estupro não seja prazeroso na vida real. É muito fascinante como a mente funciona para garantir a nossa satisfação sexual, não porque somos pervertidos ou pessoas horríveis, mas simplesmente porque fomos projetados por Deus como seres sexuais para a formação.

À primeira vista, o fato de alguém receber um chute e ser amarrado, causa dor e humilhação. No entanto, muitos imaginam isso de forma prazerosa! Em seu livro ‘O Mundo Secreto das fantasias sexuais’, Brett Kahr realizou um estudo das fantasias sexuais de 23 mil adultos e descobriu que 25% dos entrevistados fantasiam serem amarrados; 18% dos homens e 7% das mulheres fantasiam serem espancados por alguém; e 11% dos homens e 13% das mulheres fantasiam sobre simplesmente serem espancados.

Cinquenta Tons de CinzaFalando de ser amarrado e espancado, muitas pessoas perguntam: "O que você acha de ’50 Tons de Cinza’?" Eu admito que tenho todos os tipos de emoções misturadas.

Quando se trata do personagem (e sadomasoquista) Christian Grey, de 26 anos de idade, eu queria dar um tapa nele por infligir mulheres com dor e degradação. Na história, ele já abusou quinze mulheres com suas fantasias sadomasoquistas bizarras. A outra parte de mim diz: Pelo menos ele é muito consciente de seu fetiche, é honesto sobre seus desejos e expectativas. Em relação à heroína da história, Anastasia Steele, com 21 anos de idade, parte de mim quer torcer por sua coragem em explorar sua própria sexualidade, mas apenas se isso fosse feito dentro do contexto do casamento, não em um namoro, muito menos com um homem que ela conheceu há cinco minutos! Eu queria sacudir ela pelos ombros e dizer: "Acorde, boneca! Não dê a um cara a sua virgindade pensando: ‘Há muitas coisas que eu não gosto nesse cara, mas ele é tão sexy e rico que eu vou arriscar! Certamente meu amor vai mudar ele!’. Isso pode funcionar dessa maneira nas novelas e na fantasia, mas não na vida real”.

Se você pensar em termos opostos, você descobrirá possíveis pistas. A pessoa que quer dominar e controlar, provavelmente já se sentiu fora de controle e dominado por alguma pessoa importante no passado. A pessoa que prefere o papel de submisso ou escravo, provavelmente já abriu mão do controle para não ter responsabilidade, culpa, preocupação ou ansiedade.

GUIAME: Estes tipos de fantasias são considerados pecado? Por que, ou por que não?

SE: Às vezes, a resposta instintiva dos cristãos a qualquer coisa fora do padrão sexual é assumir que é pecaminoso. No entanto, muitos cristãos lutam contra essas fantasias sexuais, e já tentaram de tudo – o jejum, a oração, aconselhamento – para se livrar desses pensamentos que permanecem profundamente arraigados em seus cérebros. Então, eu acho que seria útil considerar o que tanto a psicologia como a teologia dizem sobre este assunto.

Em primeiro lugar, vamos considerar o que a psicologia diz. Aqui estão apenas alguns exemplos, extraídos de meu livro:

"A fantasia é uma forma segura de experimentar uma atividade sexual que, moralmente, legalmente ou fisicamente, uma pessoa não pode ser capaz de fazer na vida real. O único limite é a sua imaginação."

Para o homem ou a mulher cristã, essa perspectiva pode parecer assustadora à primeira vista, como se isso fosse completamente contra o que é ensinado nas Escrituras.

Alguns psicólogos dizem que, se certas fantasias sexuais criam culpa espiritual ou agitação interna para um indivíduo, isso é ruim. E a maioria dos psicólogos reconhece que não temos que deixar as fantasias nos controlarem. Somos mentalmente capazes de controlá-las, e é também o que a Bíblia nos incentiva a fazer.

Então, vamos considerar o que a Bíblia tem a dizer sobre os nossos pensamentos:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o seu olho direito o fizer pecar, arranque-o e lance-o fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ser todo ele lançado no inferno.” (Mateus 5:27-29, NVI)
“Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus.” (1 Coríntios 6:9-10, NVI)

À primeira vista, essas passagens podem ser ainda mais assustadoras do que o que a psicologia ensina! Nós não vamos para o céu se pecarmos sexualmente? Pecamos sexualmente simplesmente olhando para alguém com uma intenção impura? Devemos arrancar nosso olho se ele nos leva a luxúria? Não me admira ver muitos abandonarem o cristianismo, porque eles se sentem como se eles nunca chegassem a tais padrões irrealistas!

Em 1 Coríntios, especialmente na parte sobre "os perversos não herdarão o reino de Deus", é fácil supor que a pureza sexual é uma questão de salvação. No entanto, assim como Jesus disse aos fariseus: "Sua pureza sexual não irá qualificá-lo para o céu", também podemos supor o contrário: "A sua impureza sexual não irá desqualificá-lo para o céu!".

Nesta passagem, Paulo estava tratando dos crentes que foram salvos, mas que continuavam agindo como aqueles que não eram. Paulo não estava dizendo aos crentes: "Se você fizer isso, você está riscado fora da lista do céu!". Ele estava dizendo: "Porque você está na lista do céu, você não deve agir como aqueles que não estão!"

Então, novamente, eu quero deixar claro que a salvação não é uma questão de pureza sexual, mas é uma questão de confiar em Cristo como seu Salvador pessoal. No entanto, a pureza sexual é um subproduto natural de quem é santificado.

Como podemos ser mais santos lutando contra essas fantasias sexuais? Adotando a estratégia de Paulo para a vitória em qualquer batalha espiritual que enfrentamos:
“Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo. (2 Coríntios 10:3-5, NVI)

Você entendeu? Com a ajuda de Deus, nós somos capazes de capturar cada pensamento e torná-los obedientes a Cristo. Somos capazes de operar dentro de nosso sistema de valores, reduzir nosso risco emocional e controlar o conteúdo de nossas fantasias.

Devemos nos sentir culpados por ter pensamentos eróticos, sonhos ou fantasias? Muitos se sentem, mas não há nenhuma razão para nos abater com algo que acontece naturalmente em nossos corpos. Nós podemos simplesmente optar por não agir como eles. Eu acredito que isto é o que significa tornar um pensamento cativo e obediente a Cristo.

Com base em algumas pesquisas, seria impossível para o ser humano não ter pensamentos eróticos aleatórios. Existem vários nervos que ligam diretamente os genitais aos nossos cérebros. Em outras palavras, não poderíamos desligar todos os pensamentos sexuais se tentássemos, a não ser, é claro, que os feixes de nervos fossem cortados.

Então vamos fazer a nós mesmos o favor de não se culpar por todo o pensamento sexual. É simplesmente irrealista esperar isso de nós mesmos. É como esperar que elefantes desistam de todos os pensamentos sobre amendoins, ou macacos deixem de pensar em bananas! Não vai acontecer.

No entanto, temos que ser extremamente cuidadosos quando as nossas fantasias sexuais se transformam em fantasias ilícitas envolvendo relações ilegais ou impróprias.
Esta definição de fantasia ilícita pode ser desconcertante, porque um monte de pensamentos sexuais das pessoas, muitas vezes se enquadram nesta categoria. De acordo com Brett Kahr, cerca de 90% dos adultos fantasiam sobre alguém que não seja seu parceiro. 90% fantasiando com alguém que não deveriam? Portanto, não podemos simplesmente declarar que isso é "perfeitamente normal?"
Não, não podemos. Como cristãos, nossos padrões de 'normal' são medidos com a Palavra de Deus, não com a vida da maioria.

O fato de que a grande maioria de nós esteja fantasiando com outra pessoa é um indicador bastante claro de que há um grande número de pessoas "andando feridas" e tentando medicar sua dor emocional através de fantasias sexuais.

Cena de Cinquenta Tons de CinzaGUIAME: Como as fantasias podem ajudar uma pessoa e em que ponto elas começam a ferir um casal? Existe um limite?

SE: Apenas a própria palavra fantasia pode ser ilícita entre os cristãos. Na verdade, a ‘fantasia’ parece ser uma palavra mais tabu do que ‘sexo’! Mas a fantasia pode ser uma amiga. Na verdade, a fantasia pode servir a muitos propósitos bons, por isso não podemos banir completamente até que você experimente!
Mas devemos ser extremamente cuidadosos para que o nosso cônjuge não cumpra qualquer tipo de fantasia sexual que seja desconfortável. Você deve se perguntar:

• Será que a sua fantasia envolve a presença de qualquer outro ser humano no planeta? Uma prostituta, uma estrela pornô, uma operadora de sexo telefônico, ou um amigo pessoal? Isso nunca é uma boa ideia! A Bíblia diz claramente que o leito conjugal deve ser mantido puro por todos (Hebreus 13:4). Tradução: Só o marido e a mulher devem estar lá!

• Essa fantasia vai fazer com que seu cônjuge se sinta usado de alguma maneira? Se assim for, a dor nunca pode ser justificada por qualquer resultado de prazer.

• Se o seu líder espiritual, chefe, ou melhor amigo descobrir que você agiu como uma fantasia, isso iria ameaçar a sua reputação ou seu relacionamento com eles? Isso iria desacreditar o seu testemunho como um seguidor de Cristo?

• Será que o seu trabalho está em perigo se os outros descobrirem esta parte secreta da sua vida sexual?
Campanhas políticas e carreiras desmoronaram. Ministérios implodiram. Famílias não deram certo. Tudo por causa de fantasias que nunca deveriam se tornar uma realidade.
Portanto, antes de decidir tornar uma fantasia em realidade, não se esqueça de contar os custos potenciais – para o seu casamento, seu ministério, sua família, suas amizades, suas finanças, sua reputação, etc.

GUIAME: Em sua experiência com casos reais, você sente que existem mais casais cristãos lutando com a questão das fantasias sexuais prejudiciais?

SE: Assumir que os cristãos lutam contra fantasia sexual menos do que outras pessoas é simplesmente ingênuo. Somos todos criados como seres sexuais, e todos nós temos a imaginação sexual ativa. Eu acho que os casais que frequentam uma igreja, provavelmente, lutam mais porque eles têm uma consciência maior do que o resto do mundo (o que é uma coisa boa), mas nem sempre tem alguém na igreja para falar sobre o assunto porque é raro um líder espiritual fazer companheiros se sentirem "seguros o suficiente" para compartilhar tais lutas.

Quando eu falo em igrejas, sempre sou abordada por alguém querendo falar. Não demora muito para eu perceber que eles estão pensando a mesma coisa que muitos outros pensam. "Onde está o botão? Posso simplesmente desligar o ‘botão sexualidade’, para que eu não tenha que lutar com essas tentações por mais tempo?". Claro, pode parecer muito mais fácil se tal mudança existisse. Infelizmente, isso não acontece. Enquanto nós estamos vivendo e respirando, nós somos seres sexuais. Desde o berço até o túmulo.

 

veja também