Humor gospel quebra tabus e atrai milhares de seguidores no Youtube

Apesar de não terem um alto retorno financeiro – diferente de canais de humor seculares que são patrocinados –, nomes como Desconfinados e Porta Estreita tem atraído milhões de seguidores que se identificam com a mensagem de humor.

fonte: Guiame, com informações de Veja

Atualizado: Segunda-feira, 30 Março de 2015 as 9:03

O ator Jonathan Nemer, do canal do YouTube Desconfinados, vestido como Xuxa. (Youtube/ Desconfinados)
O ator Jonathan Nemer, do canal do YouTube Desconfinados, vestido como Xuxa. (Youtube/ Desconfinados)

 

O humor gospel tem tido cada vez mais aceitação entre os evangélicos. Vídeos humorísticos começaram a serem emplacados na internet entre 2009 e 2010, mas foi em 2014 que os acessos e as contratações começaram a ser expressivas para os stand-ups cristãos.

Apesar de não terem um alto retorno financeiro – diferente de canais de humor seculares que são patrocinados –, nomes como Desconfinados e Porta Estreita tem atraído milhões de seguidores que se identificam com a mensagem de humor. Além dos views, contratações e a venda de produtos também engajam o trabalho de humoristas em apresentações de stand-up comedy gospel.

Desconfinados

O canal Desconfinados tem sido um destes destaques. Criado em Marília, no interior de São Paulo, é gerenciado pelo advogado Jonathan Nemer, membro da igreja Comunidade Ágape, e pelo produtor Thiago Baldo, católico, ambos com 29 anos.

"Nossos esquetes não têm palavrão nem apelo sexual, são censura livre. Esse é o nosso único compromisso com a religião", diz Nemer, que garante não ter grandes tabus na hora de escolher a temática dos vídeos. "Falamos dos erros da religião, de igrejas. Queremos levar as pessoas a refletir. Nossa ideia não é fazer evangelismo, é abrir os olhos dos cristãos. Por isso o nome, queremos tirar as pessoas de confinamentos mentais.”

O Desconfinados existe desde 2013, mas foi no ano passado que alcançou um grande número de seguidores. No total, o canal já soma 19 milhões de views. "Há seis meses, a nossa audiência média mensal era de cerca de 1 milhão de visualizações. Hoje, temos 3 milhões", diz Nemer, que durante o dia trabalha no escritório de advocacia com o pai, e faz o papel de humorista nas noites e fins de semana.

Comparado com o canal Porta dos Fundos, o número parece tímido. No entanto, é considerado uma vitória para os comediantes cristãos, principalmente por causa da resistência do público. "Como sou do meio cristão, posso falar com mais propriedade da religião, ao contrário de outros humoristas, que se descolam da verdade. Eu estou dentro e vejo o que acontece. A grande sacada dos nossos vídeos é fazer a pessoa se identificar e querer compartilhar nas redes sociais", explica Nemer.

O canal é um dos poucos que se propõe a conquistar cliques fora das paredes das igrejas. "O limite do humor é subjetivo. Há temas de que tratamos que não julgo ofensivos. Outros abordamos com o pé atrás, mas foram bem recebidos", conta.

Porta Estreita

Mais cauteloso que o Desconfinados, o Porta Estreita – nome que lembra o grupo Porta dos Fundos, fazendo referência a um versículo bíblico do livro de Mateus – prefere não fazer piadas com dízimo, pastores e outras religiões ou vertentes espirituais. "Nosso foco é mostrar os erros cotidianos de um evangélico. É um canal de humor com exortação sobre o caráter", diz o fundador e diretor Gilson Munhoz Andreazzi, 51, da igreja Batista Filadélfia.

O canal, que conta com mais de 16 milhões de visualizações desde o seu lançamento, em 2013, faz piadas para convertidos. "Quando um não cristão cai no canal sem querer, ele não entende a nossa proposta. Critica dizendo que somos uma cópia mal feita do Porta dos Fundos", conta Andreazzi.

"Produzimos as esquetes com o nosso bolso", diz o fundador do Porta Estreita. "O YouTube paga muito mal e a gente não tem suporte de um grande canal de humor, pois é difícil conseguir patrocínio para conteúdo cristão."

"Também começamos a receber pedidos de apresentações em congressos, acampamentos e outros eventos cristãos, onde também conseguimos uma renda", conta Andreazzi, que afirma não ter um cachê fixo, mas o negocia de acordo com o tamanho do evento e com o valor do ingresso cobrado pelo local.

Stand-up Comedy Gospel

Ao contrário do canal Desconfinados, o humorista de stand-up, Dennys Ricardo, 39, usa o humor para conquistar novos fieis, especialmente jovens, e evita fazer anedotas com o nome de outras igrejas. Idealizador do espetáculo “Pecado É Não Achar Graça!”, Ricardo também é publicitário e pastor na Comunidade Apostólica Livre, em São Paulo.

"Faço piada com temas generalizados, posso até estereotipar um tipo de pessoa, sei que a carapuça vai servir, mas evito dar nomes para não fechar portas no futuro", explica.

"O cristão tem uma resistência com a comédia na igreja, sente como uma mistura de profano e sagrado. Existe um tabu, mas eu decidi encarar o desafio", conta Ricardo, pioneiro no stand-up comedy gospel, lançado por ele em 2009.

Entre os que conseguiram se estabelecer no meio e sobreviver da carreira de comediante gospel está Paulo Zamparo, 24, criador do espetáculo de stand-up Santo Riso. Há dois anos, o jovem de Itapecerica da Serra (SP), que hoje mora em Osasco e frequenta a igreja Quadrangular, abandonou a profissão de administrador de empresas para se dedicar totalmente ao humor. 

Zamparo atua além das igrejas, e se apresenta em bares e teatros, com piadas adaptadas. "No começo, recebi críticas de pessoas dizendo que stand-up sem palavrão não é stand-up. Mas hoje sinto que o público está ficando cansado dos excessos de alguns humoristas e meu espetáculo é mais bem aceito, pois sou diferente", conta Zamparo, que também participa de pegadinhas em programas e quadros de TV como o Táxi do Gugu, na evangélica Record.

 

 

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