A igreja que bajula o rico

Amemos o rico. Consolemos o rico. Que o tratemos como irmão na fé quando ele se converter. O estimulemos à prática de boas obras. Sua riqueza pode gerar investimento em ciência e tecnologia, socorro ao pobre e financiamento da obra missionária. Mas, nada de subserviência e idolatria. Isso ofende a Deus, insulta ao pobre e destrói a alma do rico

fonte: guiame.com.br

Atualizado: Terça-feira, 29 Julho de 2014 as 11:13

cofre“Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, e trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajes de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé, ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés...". (Tiago 2: 1-3)

Tiago afirma que é possível tratarmos o rico como se estivéssemos diante do anjo do Senhor: “… e tratardes com deferência o que tem os trajes de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra…”. Thomas Manton nos chama a atenção, no seu comentário sobre o livro de Tiago, para o fato de a palavra grega para “tratardes com deferência" significar “olhar e observar com alguma admiração e especial reverência”.

Por quê essa admiração, culto e bajulação? O que pode levar o povo que diz conhecer “o Senhor da glória” a se deixar fascinar por um mortal? Os motivos são vários. A igreja pode, mencionando uns poucos exemplos, raciocinar da seguinte forma:

Primeiro, "estamos diante de alguém que chegou aonde chegou por ser um favorecido de Deus". É possível que a riqueza seja interpretada como demonstração da escolha divina. A igreja estaria, portanto, perante alguém digno de ser honrado em razão dos sinais exteriores da sua predestinação.

Segundo, “estamos diante de alguém que tem muito a nos ensinar, uma vez que jamais teria chegado aonde chegou se não fosse pela sua capacidade excepcional”. Por mais frágil que uma avaliação como essa possa ser, há uma tendência na maioria das pessoas de considerar o rico um grande talento.

Terceiro, “estamos diante de alguém que pode viabilizar nossos projetos, verdadeira resposta de Deus para as necessidades financeiras da igreja”. Um curto-circuito pode ocorrer na cabeça do líder que muito embora estimule o doente a procurar pela fé cura em Deus, demonstra completa incapacidade de usar essa mesma fé para fazer a obra de Deus, o que o leva a depender mais dos homens do que da providência divina.

Quarto, “estamos diante de alguém que faz parte do público alvo da igreja”. Pode acontecer de a igreja ter abraçado o mito de que há igreja que tem chamado exclusivo para o rico, e que é melhor trabalhar com grupos homogêneos quando se quer plantar igreja e fazê-la crescer. "Rico sente-se bem na presença de rico, e há pastor que não sabe pregar para o pobre!”, essa gente pode ser levada a pensar.

Quinto, “estamos diante de alguém que pode nos proporcionar prazeres que de outra forma não desfrutaríamos. Quem sabe não nos convida a fazer uma viagem ao exterior, ou nos chamar para passar dias na sua casa de praia, ou nos levar a botar os pés em restaurantes sofisticados?” É difícil entender como pessoas podem jogar seu tempo fora, privando-se da sua liberdade, sendo forçada a viver ao lado de gente oca, e tudo isso por tanto pouco. Ninguém pode dizer que o rico tem que ser necessariamente superficial e materialista, mas todos sabemos de pessoas que se privaram da sabedoria dos humildes a fim de andaram na companhia de quem só é rico na conta bancária.

Os motivos vão longe, não se resumem ao que acabou de ser exposto. Algumas dessas motivações, aparentemente, mais nobres do que outras. Mascaradas pelo disfarce da falsa virtude e compromisso espúrio com a causa de Deus. Ninguém tem energia moral para dizer de si para si mesmo que é canalha e usa a religião para ascender socialmente.

Amemos o rico. Consolemos o rico. Que o tratemos como irmão na fé quando ele se converter. O estimulemos à prática de boas obras. Sua riqueza pode gerar investimento em ciência e tecnologia, socorro ao pobre e financiamento da obra missionária. Mas, nada de subserviência e idolatria. Isso ofende a Deus, insulta ao pobre e destrói a alma do rico, que precisa sempre ser lembrado de que é um mortal, e que a maior prova de que foi salvo é a sua generosidade.

"Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida" (I Tm 6:17-19).


- Antônio Carlos Costa

 

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