Líderes, devolvam a minha igreja

Os líderes precisam compreender que pastorear não é trabalhar até que se tenha uma congregação imensa, mas investir no ser humano de tal modo que ele aprenda a ser como Jesus e a amar cada vez mais os outros irmãos

fonte: Guiame, Ariovaldo Ramos

Atualizado: Quinta-feira, 15 Janeiro de 2015 as 9:36

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“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um. Perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos” (Atos 2:42-47).

Líderes, devolvam a minha igreja.

Eu confesso que acho esta frase um pouco pesada. Mas foi o que ouvi de irmãos, que diziam ter recebido esta palavra do próprio Senhor Jesus, e admito que ela faz sentido em se tratando da chamada Igreja Evangélica no Brasil. Partindo, então, deste princípio, em que os líderes estariam usurpando a igreja de Jesus?

1 – Na ênfase da pregação

Em toda a história da chamada Igreja Evangélica no Brasil, nunca se vendeu tanto livro e se fez tanta palestra e conferência sobre como fazer uma igreja crescer. Esse processo evidencia que algumas lideranças estão trocando a ênfase, dada por Jesus, no amadurecimento da igreja pela lógica do crescimento. É preciso entender que o crescimento da IGREJA é problema do Espírito Santo. O texto bíblico acima mostra que os apóstolos ensinavam e os discípulos perseveravam nas doutrinas, aprendendo que a obra de Deus é o próprio homem, aprendendo que estão sendo transformados segundo a imagem de Jesus Cristo.

Deus quer que tenhamos o caráter de Jesus. Ser cristão é sair do estado de rebelião para o estado de adoração, e adorar é reconhecer que a vontade de Deus é o que existe de correto no universo. Cultuar a Deus é fazer tudo que Jesus faria se estivesse em nosso lugar. Na igreja em Jerusalém os membros estavam crescendo em ser como Jesus, e crescer em parecer com Jesus implica em viver em comunidade.

Os líderes precisam compreender que pastorear não é trabalhar até que se tenha uma congregação imensa, mas investir no ser humano de tal modo que ele aprenda a ser como Jesus e a amar cada vez mais os outros irmãos. Quando a ovelha está com um problema, ensina-se a ele a lidar com aquela situação da forma como Jesus lidaria. Se ela desenvolve antipatia por um semelhante, mostra-se a ela que é preciso olhar para aquela pessoa como Jesus olharia.

Mas este movimento, que faz as lideranças buscarem desesperadamente pelo crescimento numérico, está levando a igreja a ficar cada vez mais egoísta. As músicas demonstram isso. Onde está o “nós”? As canções só se referem à primeira pessoa, como se não fosse importante que a obra de Deus alcançasse a comunidade, mas, apenas, o indivíduo. Isso está fazendo o homem acreditar que tudo é para ele.

Olhando para a história bíblica, veremos que Moisés abriu o mar, quando estava libertando escravos; Jesus dominou o vento e a tempestade quando estava indo libertar o gadareno; o mesmo Cristo multiplicou os pães e os peixes para alimentar uma multidão; andou sobre as águas quando se encaminhava para curar os gerasenos. Mas, hoje, qual é a motivação para se buscar milagres?

Os apóstolos levavam os discípulos a orar, a ler a Bíblia, a crescer espiritualmente em prol da comunidade. Na congregação desenvolvia-se o sentimento de união, de solidariedade. Os líderes atuais, portanto, precisam tomar estes exemplos, pois usurpamos a igreja e transformamos Deus em um servo do ser humano em seus caprichos.

2 – Na mensagem

Ao iniciar o seu ministério, Jesus dizia que o reino de Deus estava chegando. As pessoas deviam se arrepender de suas práticas e jeito errado de ser. Elas deviam reconhecer que carregavam dentro de si o mal. E, hoje, a mensagem continua sendo a mesma, as pessoas continuam precisando admitir sua condição decaída de pecador, continuam precisando reconhecer que são criaturas fora do padrão de Deus.

Mas não se fala mais que o indivíduo está em rebelião contra Deus. Temos transferido a culpa para o diabo. No entanto, precisamos entender que são os homens que abriram a porta do coração para ele entrar. E, ao invés de chamar a atenção do homem para esta situação, os profetas, de hoje, estão trocando a mensagem do arrependimento pela mensagem da bênção. “Venha buscar a sua bênção”, é o que se anuncia.

É por isso que vemos tanta gente "convertida", comprometendo-se em mudar mas sem condição de assumir um novo caráter. Elas passam a freqüentar igrejas, mas não conseguem deixar de mentir, adulterar, drogar-se, cobiçar. O interior delas não está sendo trabalhado, a mensagem do arrependimento e da mudança de direção não está sendo pregada, as pessoas não estão indo às igrejas para se tornarem semelhantes a Jesus. Usar o nome de Deus com interesses próprios, para ganhar dinheiro e status, é blasfêmia, porque é blasfêmia confundir o que é santo com o que é meramente humano. E a chamada igreja evangélica não está se importando, parece ter perdido o temor de Deus.

A chamada igreja evangélica parece não se incomodar mais em se relacionar com Deus só para receber coisas. Outro dia, soube de um rapaz que afirmou iria ficar sem dar glória a Deus até que o Senhor lhe respondesse positivamente ao pedido que fez. O povo está perdendo o temor de Deus, e quando se perde o temor de Deus, ganha-se medo do diabo, tornando-se mero supersticioso. Usurpamos o Senhor da Igreja quando não ensinamos que o homem deve temer a Deus. A mensagem não pode mais ser “Venha buscar a sua bênção”. A mensagem tem que ser “Arrependei-vos e Temei ao Senhor”.

Conclusão

A Bíblia ensina que pastorear é ser exemplo. E ser exemplo é dizer ao rebanho o que Paulo disse: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (I Co 11:1). Primeiro, é necessário ser exemplo de arrependimento, mostrar que está em constante quebrantamento diante do Pai celeste e que só está de pé porque Ele sustém. O líder também tem de ser exemplo do que é ser ovelha de Jesus. Afinal de contas, se não formos como Jesus, seremos como quem?

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