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No Rio de Janeiro, inquéritos revelam alianças entre milícias e traficantes

Investigações mostram que grupos paramilitares arrendam territórios para a venda de drogas

fonte: O GLOBO

Atualizado: Terça-feira, 16 Setembro de 2014 as 8:05

Se no início do processo de expansão territorial os milicianos vendiam a imagem de “justiceiros” contrários ao tráfico de drogas, a situação agora é bem diferente. Os grupos paramilitares não veem problemas em fechar acordos com traficantes, contrabandistas de armas e contraventores. É o que revelam inquéritos e processos criminais em julgamento na Justiça do Rio.

Uma das investigações mostra que até mesmo a Favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá — berço das milícias no Rio —, tem hoje um ponto de venda de drogas, na localidade de Pinheiros. Ali, é possível consumir maconha e cocaína sem qualquer repressão, algo que, até alguns anos, era proibido por milicianos — eles cobravam de taxas de segurança para afastar viciados.

A relação entre paramilitares e traficantes começou a se desenhar em 2010, quando milicianos de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, foram flagrados em interceptações telefônicas negociando armas com integrantes da facção criminosa que controlava o Complexo do Alemão dois meses antes da ocupação policial, em novembro daquele ano.

Posteriormente, investigações da Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) mostraram que alguns milicianos passaram, inclusive, a arrendar territórios para que traficantes explorassem a venda de drogas. Em geral, esses acordos se davam com o enfraquecimento dos grupos paramilitares em decorrência da prisão de seus chefes durante operações policiais.

— Isso só comprova que o negócio deles é dinheiro. Não têm escrúpulos. Fazem acordos com traficantes, contratam matadores da contravenção e negociam armas. Eles tomam os territórios para exploração pela violência de todos os serviços, lícitos ou não — afirmou o titular da Draco-IE, delegado Alexandre Capote.

Foi assim nos morros do Banco (no Itanhangá), do Fubá (Campinho), de São José Operário e da Covanca (Praça Seca). A estratégia adotada para garantir recursos aos paramilitares, entretanto, resultou em guerras nessas regiões. Diante do enfraquecimento dos milicianos, os traficantes passaram a se recusar a pagar pelo arrendamento.

Há outras situações, como a que aconteceu em Campo Grande. Ali, milicianos ocuparam áreas antes dominadas pelo tráfico e acabaram cooptando antigos aliados das facções criminosas para atuarem nos grupos paramilitares. Foi o que aconteceu com Reinaldo Ramos Lobo, o Sprinter. Ex-integrante da quadrilha que vendia drogas na Favela do Barbante, ele passou a atuar como pistoleiro para os paramilitares, conforme denúncia assinada pelo promotor Marcus Vinícius da Costa Moraes Leite, da 20ª Promotoria de Investigação Penal do Ministério Público.

— Tem se tornado frequente a associação entre milicianos e traficantes. O que não chega a surpreender, pois eles têm em comum a ânsia por lucros — diz o promotor, que atua em investigações sobre as milícias desde 2009.

QUADRILHAS TAMBÉM EXPLORAM CAÇA-NÍQUEIS

A associação para a exploração de máquinas caça-níqueis é outra atividade criminosa já adotada pelos grupos paramilitares. Milicianos atuam na contravenção de forma organizada, com estrutura para a manutenção dos equipamentos e pessoal exclusivo para o recolhimento de lucros.

Foi o que provou uma investigação sobre uma das maiores quadrilhas da Zona Oeste do Rio, que levou a Justiça a condenar, em fevereiro passado, o policial militar Carlos Henrique Garcia Ramos a 12 anos de prisão. Segundo a denúncia que foi apresentada, ele era o miliciano responsável pela coleta do lucro obtido com a exploração de caça-níqueis nos bairros de Campo Grande, Cosmos, Guaratiba e Paciência. Ele também atuava em agiotagem.

Outro miliciano do grupo, Jadir Jerônimo Júnior, o Gorilão, gerenciava a exploração de caça-níqueis espalhadas por Santa Cruz, Mangaratiba, Angra dos Reis e parte de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele também é acusado de participação em extorsões e homicídios.

Em outro inquérito, o promotor Marcus Vinícius da Costa Moraes Leite, da 20ª Promotoria de Investigação Penal, denunciou Bruno Cardoso Moraes Gouveia, o Bruninho do Barbante, como um dos responsáveis pelo recolhimento do lucro obtido com as máquinas caça-níqueis no Morro do Barbante, em Campo Grande. As quantias recolhidas por ele eram depois entregues a Jadir, que se encarregava de repassá-las a Maciel Valente de Souza, apontado pela polícia como braço direito do ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman.

PRÓXIMO PASSO: O COMÉRCIO DE DROGAS

Professor de Direito Penal e estudioso do assunto, o juiz Murilo Kieling, do 3º Tribunal do Júri, lembra que, historicamente, as milícias são movimentos populares em que grupos armados se reúnem para enfrentar um momento político. Sua principal característica, segundo ele, é justamente a transitoriedade:

— A nossa milícia nasce com essa mesma natureza, porque foi criada por pessoas que se uniram para enfrentar a criminalidade diante da carência do poder público. Na sua célula embrionária (Rio das Pedras), teve aprovação total. Mas, quando os milicianos perceberam o poder que tinham nas mãos e o lucro que poderiam auferir, passaram a ser uma forte organização criminosa.

Kieling diz que, para pagar a policiais, bombeiros, militares excluídos, matadores de aluguel da contravenção e do tráfico, os milicianos começaram a cobrar por outras atividades, além da já conhecida taxa de segurança:

— Eles passaram a cobrar do comércio de gás à venda de imóveis. Mas o grande perigo está no próximo passo. Já negociam com traficantes e vão assumir o comércio de entorpecentes. Afinal, o dinheiro da cocaína da maconha rende mais que o do gás. E eles não precisam mais do discurso de liberar as famílias do vício das drogas. Já são os malfeitores e vão se transformar numa espécie de Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

 

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