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Professora diz que pai de Bernardo o criava na 'ponta da faca'

Audiência ouve sete testemunhas nesta segunda-feira (8) em Três Passos. Simone Muller era professora da criança assassinada em abril deste ano.

fonte: Globo.com

Atualizado: Segunda-feira, 8 Setembro de 2014 as 12:05

O segundo dia de audiência do caso Bernardo, em Três Passos, no Rio Grande do Sul, teve início com o depoimento de Simone Muller, professora do menino de 11 anos encontrado morto em abril deste ano. Segundo a mulher, a criança era amável e prestativa, mas tinha dificuldades de prestar atenção na aula.

Durante a audiência, a professora afirmou que Bernardo nunca foi agressivo com os amigos. “Era um menino que a gente sabia que tinha problemas emocionais. Ele usava medicação, que ele próprio controlava quando estava na minha casa”, declarou a mulher.

Sobre o pai da criança, Leandro Boldrini, Simone disse que nunca conviveu com ele e Bernardo juntos, mas que sabia da sua relação por meio de terceiros. "Leandro dizia que criava Bernardo na ponta do facão", disse. O pai é um dos réus pelo crime.

O corpo do menino de 11 anos foi achado no dia 14 de abril enterrado em um matagal na área rural de Frederico Westphalen, a cerca de 80 quilômetros de Três Passos, onde ele residia com a família. O menino estava desaparecido desde 4 de abril. Além do pai, são acusados pela morte a madrasta, Graciele Ugulini, a amiga dela Edelvania Wirganovicz e o irmão, Evandro Wirganovicz. Eles estão presos e respondem pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

“Meu sentimento é de alguém que recebe um quebra-cabeças e não consegue decifrar o que está acontecendo. A gente vai tentando entender e naquele momento nós não entendemos o que se passava. Hoje eu sei o que significa. Não sinto culpa, mas sinto impotência. Poderia ter feito algo a mais”, contou durante questionamento da promotoria do Ministério Público.

Com um auditório lotado, sobretudo pela imprensa, a única ré a acompanhar o segundo dia de oitivas desta fase do processo criminal é Edelvania Wirganovicz, que chegou ao local escoltada por agentes da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) por volta das 9h20. Os demais acusados não compareceram.

O depoimento de Simone é importante para a Justiça porque, além da ligação com o menino, sua casa foi o local em que o pai de Bernardo disse que o filho estava no final de semana em que sumiu. O pai informou à polícia no início de abril que o menino havia ido dormir na casa da mulher, que era mãe de um dos seus amiguinhos, Lucas. Em uma das suas declarações, o médico afirmou não ter se preocupado com o “desaparecimento” do menino durante o final de semana.

Ainda segundo a mulher, a criança vestia sempre de uniforme e quase nunca usava roupas próprias. Em uma das suas recordações, Bernardo chegou brabo à escola afirmando ter visto o pai e a madrasta em uma relação sexual.

“Ele chegou muito brabo, estava muito irritado. Disse que eles [pai e madrasta] tinham feito ‘aquela coisa que faz criança’, que ele viu”, falou Simone.

Além da professora, irão depor à Justiça o casal Carlos e Juçara Petry, que tinha uma relação afetiva muito forte com o menino; a ex-babá, Elaine Marisa Wentz, que relatou uma tentativa de asfixia da madrasta, e a ex-secretária de Leandro, Andressa Wagner. Outras duas pessoas completam a relação.

Segundo secretária de escola, menino não falava da irmã
A segunda testemunha a ser ouvida pela Justiça foi a secretária do colégio de Bernardo, Rosani Teresinha Neuhaus. Ela relatou que costumava dar caronas ao menino de casa à escola, e o levava para almoçar em restaurantes.

“Ele não falava do relacionamento com o pai, com a madrasta, só dizia que ela era chata. O colégio tentou falar com o pai e a madrasta uma vez. Ligamos para falar do boletim, ninguém ia, até que um dia a Kelly [Graciele] foi até a escola. O conselho tutelar foi até a escola em uma oportunidade”, relembrou.

Rosani ainda completou que Bernardo falava pouco da irmã mais nova, fruto do relacionamento do pai com a madrasta.

“Eu perguntava sobre a irmãzinha dele, como ela estava, e ele sempre cortava o assunto. Parecia que não gostava dela, de falar da família. Ele dizia que ela era chata, a Kelly. Ele sempre pedia para ir junto para minha casa, não queria ir para a casa dele”, disse.

Sobre o vídeo em que o menino aparece com um facão, ameaçando o pai, a secretária nega ter visto a criança irritada. “Assisti aos vídeos do facão, do Bernardo pedindo socorro. Nunca presenciei ele tendo uma crise, muito irritado. Quem me relatava era a coordenadora. Não conhecia o Leandro muito bem. Dentro de casa eu não sabia o que se passava”, finalizou.

Relembre a primeira audiência
Apenas quatro testemunhas das 33 arroladas foram ouvidas no dia 26 de agosto. A sessão durou cerca de 11 horas e foi restrita à imprensa. Dois réus, os irmãos Edelvânia e Leandro, estiveram presentes. Leandro e Graciele foram dispensados.

Prestaram depoimento as delegadas que trabalharam no caso, Caroline Bamberg Machado e Cristiane de Moura Baucks, além do médico Celestino Ambrosio Schmitt e a dentista Graciele Klein Dreher, que atendia o menino. Os depoimentos das duas autoridades policiais foram considerados os mais importantes.

A delegada Caroline Bamberg falou por cerca de cinco horas. Na saída, revelou pontos do que disse ao juiz. Afirmou que a polícia entregou recentemente à Justiça um vídeo extraído do celular de Leandro, que mostra o menino sendo dopado pelo pai, além de ameaças e maus-tratos em casa. Uma gravação de uma briga com facão entre o pai e o filho também foi citada. As imagens foram apagadas do aparelho, mas recuperadas pela perícia.

Novas provas da acusação
O material recuperado no celular de Leandro foi utilizado como nova prova da acusação. Para as testemunhas, os vídeos revelam a má conduta do pai e da madrasta com Bernardo e podem ser decisivos no processo.

O G1 teve acesso a um dos vídeos que mostra uma briga entre Bernardo, Leandro e Graciele. As imagens são de agosto de 2013, véspera do Dia dos Pais, e captaram gritos de socorro de Bernardo dentro de casa. Em alguns trechos, a madrasta diz a Bernardo frases como “vai ter o mesmo fim que tua mãe”, “vamos ver quem vai para baixo da terra primeiro”, “tu não sabe do que eu sou capaz”.

Em dois outros vídeos, obtidos pelo jornal Zero Hora, o garoto aparece com uma faca e depois, com um facão, na mão, e ainda chorando dentro de um armário. As imagens, de junho de 2013, mostram o médico provocando o filho. “Isso aqui vai ser mostrado para quem quiser ver. Vamos lá, machão”, afirma Leandro. A reação do menino às gravações demonstra que essa era uma prática do casal. Várias vezes, Bernardo pede que o pai pare de gravar ou apague o vídeo.

Depoimentos fora da Comarca de Três Passos
Depois da primeira audiência, novos depoimentos deram continuidade à fase de instrução do processo. Uma amiga da madrasta falou à Justiça em Coronel Bicaco. Em Tenente Portela, o depoimento foi de um policial rodoviário que abordou e multou Graciele no dia da morte do menino.

A depoente, proprietária de uma loja de roupas em Redentora, onde Graciele já morou, disse que foi procurada pela madrasta de Bernardo cerca de dois meses antes do crime. Segundo ela, a amiga afirmou que o menino era "doente" e que, por isso, ela queria que ele estivesse "embaixo da terra”. A testemunha também relatou que ouviu de Graciele que Leandro queria, assim como ela, "se livrar" do menino pelo comportamento agressivo dele. Segundo ela, "se Leandro tivesse um sítio com um poço, já teria feito isso há muito tempo".

Já o policial disse que abordou o carro conduzido por Graciele, por excesso de velocidade, na ERS-472, no sentido Tenente Portela-Frederico Westphalen. No veículo, uma caminhonete preta, estavam apenas a madrasta e o menino. De acordo com as investigações, a fiscalização do Comando Rodoviário da Brigada Militar ocorreu quando o menino era levado pela madrasta para Frederico Westphalen, onde o corpo dele foi encontrado em abril deste ano.

Em depoimento, o policial confirmou sua versão anterior. Ele lembrou ter visto Bernardo acordado no banco de trás do carro e disse que não chegou a conversar com o menino, apenas perguntou se ele usava cinto de segurança e o garoto acenou positivamente. O agente disse ainda que, quando Bernardo desapareceu, relatou o ocorrido a um colega de Três Passos e as informações foram repassadas aos agentes da Polícia Civil.

O processo
Em Três Passos serão ouvidas 33 testemunhas de defesa e acusação. São familiares, vizinhos, amigos e outras pessoas que possam colaborar com a Justiça. Depois de encerrada a primeira etapa, novas audiências serão realizadas. Foram 25 testemunhas arroladas pelo Ministério Público (MP) e 52 pelas respectivas defesas, totalizando 77 pessoas.

Após o depoimento das 33, o restante será ouvido por carta precatória, conforme o local onde residem. Ainda haverá testemunhas em Campo Novo, Santo Augusto, Palmeira das Missões, Rodeio Bonito, Ijuí, Santo  ngelo, Porto Alegre e Florianópolis (SC).

Cumpridas todas as precatórias, será designada uma nova audiência para ouvir alguma testemunha de defesa que possa ter ficado para trás por motivos como atestado médico, viagem, etc. Na sequência, haverá alegações pelas partes e a sentença do juiz para avaliar se é caso de pronúncia (se vai a júri ou não).

Entenda
Conforme alegou a família, Bernardo teria sido visto pela última vez às 18h do dia 4 de abril, quando ia dormir na casa de um amigo, que ficava a duas quadras de distância da residência da família. No dia 6 de abril, o pai do menino disse que foi até a casa do amigo, mas foi comunicado que o filho não estava lá e nem havia chegado nos dias anteriores.

No início da tarde do dia 4, a madrasta foi multada por excesso de velocidade. A infração foi registrada na ERS-472, em um trecho entre os municípios de Tenente Portela e Palmitinho. Graciele trafegava a 117 km/h e seguia em direção a Frederico Westphalen. O Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM) disse que ela estava acompanhada do menino.

O pai registrou o desaparecimento do menino no dia 6, e a polícia começou a investigar o caso. No dia 14 de abril, o corpo do garoto foi localizado. Segundo as investigações da Polícia Civil, Bernardo foi morto com uma superdosagem de um sedativo e depois enterrado em uma cova rasa, na área rural de Frederico Westphalen.

O inquérito apontou que Leandro Boldrini atuou no crime de homicídio e ocultação de cadáver como mentor, juntamente com Graciele. Ainda conforme a polícia, ele também auxiliou na compra do remédio em comprimidos, fornecendo a receita Leandro e Graciele arquitetaram o plano, assim como a história para que tal crime ficasse impune, e contaram com a colaboração de Edelvania e Evandro.

 



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