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Sabesp tirou do Cantareira mais que previsto por 8 meses, diz especialista

Professor defende redução na retirada de água para estoque durar mais. Segundo ele, erro da Sabesp foi não ter feito redução drástica já em 2014.

fonte: globo.com

Atualizado: Segunda-feira, 9 Fevereiro de 2015 as 4:43

represa da Jaguari
represa da Jaguari

O engenheiro civil e sanitarista José Roberto Kachel dos Santos, de 62 anos, aponta que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) retirou mais água que o recomendado do Sistema Cantareira durante ao menos oito meses entre 2013 e 2014.

Ex-funcionário da Sabesp, onde trabalhou por 34 anos, ele diz que indicações previstas na outorga concedida em 2004 e em recomendações da Agência Nacional de Águas (ANA) foram desrespeitadas, agravando o quadro da crise hídrica. Segundo ele, a empresa também ignorou um próprio plano interno que previa a adoção do rodízio a partir do começo de 2014.

Kachel explica que as reduções na retirada de água do Cantareira foram insuficientes e muito acima do indicado pela regra operacional, o que levou ao esgotamento prematuro e desnecessário do Cantareira. Ele fala com base nos dados disponibilizados pela Sabesp, pelos órgãos que gerenciam o serviço de água no Brasil e de meteorologia.

A consequência, segundo ele, deverá ser  um rodízio radical 4x2 ou 5x2 para evitar o esgotamento total do restante do volume morto 2 e do volume morto 3 antes do início de setembro. O próprio diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, já admitiu em janeiro que o rodízio de cinco dias sem água e dois com água pode ser adotado caso o nível das represas continue caindo.

Segundo Kachel, a capacidade de fornecimento de água do Cantareira, que era de mais de 30 metros cúbicos por segundo está reduzida a menos de 10 metros cúbicos por segundo e não se sabe quantos anos levará para voltar ao normal.  "Não é uma crise de curto prazo. Irá durar anos", afirmou.

A Sabesp informou em nota que segue rigorosamente as determinações dos órgãos reguladores do setor, a ANA e o DAEE, no que se refere à retirada de água dos sistemas de abastecimento. Segundo a Sabesp, em relação aos níveis dos sistemas, a medição também é feita de acordo com a regulamentação e a supervisão destes órgãos.

Segundo Kachel, os números atuais de chuva e reservas acumuladas indicam que maio pode ser o limite para parte dos dois principais sistemas que abastecem a região metropolitana. Neste mês deve se esgotar o principal reservatório do Sistema Alto Tietê (a represa Ponte Nova) e também o segundo volume morto do Cantareira.

Os cálculos do especialista tomam como base as chuvas registradas pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) até o começo de fevereiro. Ele tem mestrado em engenharia sanitária e doutorado em hidráulica e saneamento.

Retirada do Sistema Cantareira
Segundo o professor, a Sabesp e o DAEE têm de obedecer regras de retirada estabelecidos em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA). São as chamadas curvas de aversão ao risco (CAR) que indicam quanta água pode ser retirada do sistema Cantareira simulando reservas de 5% e de 10% ao final de um ano.

A conta é feita com base no que entra e sai da represa e levou em consideração, para efeito de projeção, o pior cenário possível, no caso de São Paulo, a seca de 1953. "(Mas) o cenário para cálculo não era mais a seca de 1953 e, sim, 50% das mínimas da série histórica, o que implicaria em reduzir a retirada do Cantareira para o que está hoje, isso em junho de 2014", afirma.

Os cálculos apresentados pelo professor revelaram que, considerada a meta de manter 5% do estoque de água ao final de um ano, a Sabesp ultrapassou os limites de retirada estabelecidos pela curva de risco em oito meses, entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 e entre junho e julho de 2014. Na projeção de uma reserva de 10% ao final de um ano, o não cumprimento dos limites ocorreu em 12 meses, de agosto de 2013 a julho de 2014.

Ele cita um exemplo: se tivesse adotado o rodízio na Grande São Paulo e reduzido a retirada a partir de janeiro de 2014 em 4,3 metros cúbicos por segundo, a Sabesp teria ficado com 28,7 a 27,2 metros cúbicos por segundo e se enquadrado nos limites indicados pela curva de aversão ao risco.

Em vez disso, no mês de janeiro, a vazão foi de 33,05 metros cúbicos por segundo, e no mês de fevereiro, de 32,64 metros cúbicos por segundo,  nos dois casos, acima do previsto pela curva de risco.

Acordo quebrado
Kachel lembra que em fevereiro de 2014, foi criado o Grupo Técnico de Assessoramento para Gestão do Sistema Cantareira (GTAG). Em março, abril e maio houve acordo entre a Agência Nacional de Águas (ANA), o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e a Sabesp sobre o caminho a ser traçado.

A partir de junho, segundo o especialista, as vazões afluentes (chuvas e rios) caíram muito, e, no segundo semestre, a ANA deixou o grupo por não concordar com a postura da Sabesp de não reduzir de forma drástica a retirada de água.

Kachel afirma que a seca desse ano é muito pior do que a de 1953, usada até recentemente pelos técnicos como exemplo do cenário mais adverso a ser enfrentado. Para ele, mesmo que o governo do estado tivesse feito antes as obras que agora anuncia para compensar o Cantareira, isso amenizaria o problema, mas não reduziria a gravidade da questão.

"Nós estamos com vazão afluente no Cantareira da ordem de sete vezes menor do que a média. É um fenômeno hidrológico extremamente anormal."

Kachel diz que seria preciso reduzir a retirada da água do Cantareira dos atuais cerca de 15 a 16 metros cúbicos por segundo para 10 ou 12 metros por segundo, para chegar até novembro.  "E rezar para chover em novembro porque agora não tem mais o que fazer. Eu não diria [que o cenário é] catastrófico porque o pessoal vai usando criatividade, vai achando saída, vai convivendo. Agora, é uma situação bastante desconfortável, bastante séria, bastante complicada."

O especialista afirma que, se mantidas a entrada e a retirada de água no sistema, a água do terceiro volume morto do Cantareira termina no início de setembro.  Segundo o ex-funcionário da Sabesp, a redução da retirada para 12 metros por segundo implicaria na necessidade de implantação de um rodizio de cinco dias sem água.

Isso garantiria que o volume morto três duraria até pelo menos novembro. "Seria uma garantia para esperar que até novembro chova", afirmou.

Esgotamento no Alto Tietê
Além do Cantareira, o Sistema Alto Tietê também está no limite, segundo Kachel. O sistema é composto pelas represas Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba. Maior do sistema, a Ponte Nova tem 27,98 milhões de metros cúbicos.

"Da Ponte Nova está se retirando entre 8 e 9 metros por segundo. Seria conveniente reduzir essa vazão produzida, da mesma forma que se está falando que é necessário fazer no Cantareira", diz ele.

Kachel afirma que, apesar da queda inédita no nível das represas, sempre vai haver vazão afluente, isso é, água brotando do subsolo e dos rios que contribuem para o reservatório.

"Não vai secar tudo completamente. Vamos ficar sem regularização", diz. Segundo ele, esse estoque mais longo seria possível se tivesse sido adotado desde o início da seca um controle mais efetivo da retirada da água.

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