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Terceiro preso por linchamento diz: 'Não matei"

fonte: Globo.com

Atualizado: Sexta-feira, 9 Maio de 2014 as 2:06

agressãoO terceiro homem preso por suspeita de participar do linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, que morreu na segunda-feira (5), afirmou que havia usado cocaína no dia da agressão. A mulher morreu após ficar dois dias internada no Hospital Santo Amaro, em Guarujá, no litoral paulista. Ela foi confundida com uma sequestradora de crianças que fazia magia negra com as vítimas, após um boato divulgado na página Guarujá Alerta, no Facebook.
Inicialmente, em entrevista concedida à equipe do G1, o suspeito, identificado como Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 23 anos, dizia ser inocente. "Eu levantei a cabeça dela, vi que não era a pessoa da foto, mas não podia fazer nada, porque a comunidade estava muito revoltada. Não deu tempo de fazer nada, até porque ela tinha dito que era ela mesma que tinha sequestrado e matado as crianças", afirmou.

Posteriormente, o homem contou que havia feito uso de entorpecentes no dia que agrediu a dona de casa, mas disse que não foi responsável pela morte de Fabiane. "Duas primas [minhas] me seguraram, eu não a matei. Acredito que ninguém tem o direito de tirar a vida de outra pessoa. Eu tinha usado cocaína naquele dia, fui lá por causa dos efeitos da droga, mas não a matei", declarou.

O delegado responsável pelo caso, Luiz Ricardo Lara, porém, negou a versão dada pelo suspeito, que foi preso no município de Peruíbe, onde teria ido para prestar serviço a um familiar, depois de passar por Itanhaém, também no litoral paulista. "Essa versão não condiz com a realidade. Estamos esclarecendo o caso graças à ajuda de denúncias que temos recebido diariamente e de testemunhas da comunidade de Morrinhos, que também estão sendo fundamentais para averiguar todas as diligências do caso", apontou.
As investigações continuam, e outras prisões devem ser feitas em breve, segundo Lara. "Além dos três detidos, mais dois mandados de prisão já foram expedidos pela Justiça. Estamos atrás desses suspeitos, que também são da comunidade, assim como dos outros, mas eles ainda estão foragidos", completou o delegado.

Governador criticou agressão
Durante a inauguração da Maternidade Ana Parteira, em Guarujá, na quarta-feira (7), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, criticou duramente a ação dos moradores que espancaram a dona de casa.

"O episódio foi muito triste. [Ofereço] Nossa total solidariedade à família e o empenho da polícia em prender os criminosos e fazer Justiça. Um já foi preso, e a polícia já identificou outros cinco. Talvez até o fim do dia [quarta], estarão presos também. Isso é inadmissível. Um ato de barbaridade cometido contra uma pessoa inocente que não tinha nada a ver com o episódio, com o boato. Lamentável que isso tenha ocorrido", destacou Alckmin.

Quem são os outros presos
Os outros dois suspeitos presos são Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 19 anos, e Valmir Barbosa, de 48. Segundo a polícia, os dois confessaram participação no linchamento da dona de casa.Jesus e Lopes estão entre os cinco suspeitos identificados com a ajuda de imagens gravadas e publlicadas na internet por moradores do bairro Morrinhos, onde o crime aconteceu.
Lopes foi preso na madrugada de quinta-feira, após uma denúncia anônima recebida pela Polícia Militar. O rapaz é suspeito de ter passado por cima da dona de casa com uma bicicleta. Ele passou a madrugada na Delegacia Sede de Guarujá. Em depoimento à polícia, o homem se disse arrependido. "Peço desculpas à família, estou muito arrependido. Desculpa mesmo. A gente vê a nossa mãe em casa, nossa tia, e imagina que poderia ter sido com elas. O que pesa mesmo é a consciência", afirmou.

Já Barbosa alegou que tem filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações à vítima – de que ela sequestrava crianças para rituais de magia negra – fossem verdadeiras. "Aconteceu e aconteceu. Não posso fazer mais nada", disse o suspeito.

O dono da página Guarujá Alerta, que divulgou o boato que levou ao espancamento e à morte de Fabiane, prestou depoimento na terça-feira (6). Segundo o advogado Diego Scarpa, seu cliente está sendo muito ameaçado. "São ataques injustos, estão atacado ele de forma injusta. Em momento algum, será comprovado que meu cliente postou ou incitou a população", defendeu.

Enterro
Centenas de pessoas acompanharam, na manhã de terça-feira, o enterro de Fabiane, que deixou marido e dois filhos – um de 12 anos e outro de 1 ano. A cerimônia reuniu familiares e amigos, que não se conformam com a crueldade do crime.

O enterro foi realizado no Cemitério Jardim da Paz, em Morrinhos. O marido de Fabiane, Jaílson Alves das Neves, disse que não sente ódio dos suspeitos. “Para mim, a ficha não caiu. Apesar da brutalidade, não guardo ódio, não guardo esse sentimento ruim no coração. Espero que não aconteça com mais famílias. Essas pessoas que a agrediram e as que assistiram e não tiveram a coragem de salvar uma pessoa inocente não deram nem tempo de defesa para minha esposa. Quero que eles reflitam e que isso não aconteça nunca com a família deles”, explica.
A população não quer que a imagem do local fique manchada por causa do crime brutal. "Minha maior revolta é que eles fizeram com que a imagem do meu bairro fosse destruída. Eles acabaram com a imagem das pessoas que moram aqui e que são honestas e de bem", lamentou Maria José Dias, que era amiga da vitima há 25 anos.
Maria José foi a última pessoa a ver a dona de casa ainda com vida. "Ela foi buscar uma Bíblia que tinha esquecido na igreja. Tinha pedido para que eu não esquecesse de rezar por ela. Ela estava bonita no sábado, tinha acabado de cortar e pintar o cabelo. Ela se despediu e disse que ia ao médico. A Fabiane nunca fez mal a ninguém. Tiraram o direito de uma bebê crescer ao lado da mãe. Isso não se faz. Essas pessoas chutaram uma mãe indefesa", afirmou.

Revolta de internautas
Dezenas de usuários do Facebook criticaram duramente o administrador da página Guarujá Alerta, e um deles chegou a dizer que o perfil seria tão culpado pela morte da dona de casa quanto seus agressores. Em alguns comentários, os usuários condenaram a publicação do retrato falado, mesmo sabendo que se tratava apenas de um boato.
Em uma publicação feita no fim da tarde de segunda-feira, o dono da página disse que está colaborando com as investigações e que não irá se pronunciar sobre o caso para não atrapalhar o trabalho da polícia.

Confusão
De acordo com o inquérito, o retrato falado atribuído a Fabiane havia sido feito por policiais do Rio de Janeiro, da 21ª DP (Bonsucesso), em agosto de 2012. Na ocasião, uma mulher foi acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe em uma rua de Ramos, na Zona Norte da cidade.
Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela sequestradora.

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