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Jô Soares fala sobre mau momento que viveu; leia

fonte: O GLOBO

Atualizado: Sexta-feira, 12 Setembro de 2014 as 11:35

Foram três semanas de internação e um mês e meio afastado da TV. "Me tiraram do bico do urubu", disse Jô Soares, aos 76 anos, ao marcar esta entrevista. O urubu, no caso, foi uma pneumonia que resultou numa septicemia. Já delirando, no dia 25 de julho, ele foi levado contra a vontade para o Hospital Sírio-Libanês por Flávia Soares, com quem se casou em 1983 e hoje mantém uma "separação que não deu certo, de amizade e amor mesmo", como diz. Recuperado e seguindo uma rotina de exercícios fisioterápicos, ele voltou à TV na segunda-feira, retomando o "Programa do Jô", no ar na Globo desde o ano 2000. Humorista, dramaturgo, escritor, jornalista, ator, ele conta que ainda se sente nervoso em todas as estreias. Agora não foi diferente. "Fiquei na maior emoção. Chorei. Foi um renascimento."

Disseram que você estava com câncer e até que tinha morrido. O que houve de fato?

Chegaram a afirmar que eu tinha tido uma parada cardíaca depois de morto. E como Drauzio Varella, meu amigo há 37 anos, me acompanhou e é oncologista, publicaram num blog que eu estava com câncer. Quer dizer que se ele fosse ginecologista eu teria então sofrido um aborto? Tive uma pneumonia seguida de septicemia. Começou na segunda-feira, com uma dor de garganta de que eu fui cuidando com um sprayzinho inocente. Falei com o Drauzio, que me disse para não entrar no antibiótico porque ele poderia mascarar alguma coisa. Na quinta, fiz um jantar na minha casa para quatro amigas. A noite correu ótima, mas eu estava me sentindo cansado. À 1 hora, quando elas saíram, meu motorista pediu para ir para ir embora e eu não deixei. Uma atitude totalmente atípica. O normal seria eu dizer "claro, rapaz, vai descansar". Eu já estava, portanto, com um comportamento estranho. Aí, tive insônia. Tomei um remédio para dormir e, quando acordei, às 9h da noite, avisei a Anne (Porlan, produtora do programa) que eu não poderia gravar e que teríamos que usar um especial com Ariano Suassuna. Mas achei que seria coisa de um dia.

Como se deu conta de que era algo mais sério?

Foi a Flavinha, que estava numa reunião de trabalho (ela é designer), teve uma intuição e foi lá em casa me ver. Ela percebeu que eu não estava bem e eu reagi muito a isso. Ela me obrigou a ir para o hospital. Fui discutindo com ela no caminho, mas já estava delirando, com a pressão a cinco por dois. Quando chegamos ao Sírio, eu já estava me dirigindo ao Fabinho, um rapaz da produção do programa. Só que o Fabinho não estava lá. Me dei conta de que a gente morre sem saber, sem notar. Mas a bactéria já estava entrando na corrente sanguínea. Eu estava desidratado e inchado ao mesmo tempo. Meu pé parecia o da Miss Piggy. Perdi oito quilos, passei uma semana na UTI e duas no quarto. Agora, vejo veias no meu pé que não sabia que tinha.

Teve medo?

Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, por isso não senti medo. As pessoas que me amam sofreram mais do que eu. E fui melhorando aos poucos. Na primeira semana, não conseguia andar da cama à porta. Soube que teria que passar um tempo no hospital e fui levando umas coisinhas para lá: minha bicicleta, a AppleTV... A Anne disse que eu teria de chamar um caminhão de mudança na saída. Aos poucos, com a fisioterapia respiratória e muscular, fui melhorando. Agora estou fazendo duas horas por dia de exercícios. Sou muito disciplinado e obediente, as moças que me acompanham ficam impressionadas. E mudei bastante a minha alimentação. Por incrível que pareça, eu fazia apenas uma refeição por dia. Agora, como manda o figurino, estou fazendo três.

Você soube, durante a internação, dos boatos? Ficou magoado?

Não li, mas me contaram. Drauzio me disse: "Saiu um necrológio seu". Para mim, isso não significou nada, não me afetou. Isso só acontece por falta de verificação das notícias, em lugares em que se publica qualquer coisa. Leio jornais, mesmo em suas edições eletrônicas, mas só aqueles em que confio. Leio blogs, mas só de jornalistas confiáveis. Fora o fato de que trabalho na maior rede de televisão da América Latina. Se acontece algo comigo, eles vão noticiar, não é? Estou fragilizado, então até chorei quando o (William) Bonner e a Patrícia Poeta disseram, no "Jornal Nacional", que eu tinha tido alta e que era "uma boa notícia". Você não imagina as manifestações de carinho que recebi.

Como foi retomar o trabalho?

Fazer o programa pra mim é sinônimo de vida, diversão e brincadeira. Minha atividade é muito lúdica. Quando perguntam "o que vai ter de novo no programa neste ano?", eu respondo sempre: ué, as pessoas que vêm dar entrevista. O programa é sempre novo, e isso não depende de mim. Quando comecei, o Ziraldo me disse que não haveria três pessoas por dia para entrevistar. Eu disse que ele estava enganado. E tinha razão. O próprio Ziraldo já foi várias vezes e, quando senta ali, tem sempre um papo novo. Vou trabalhar cheio de energia, é gratificante. Quando voltei agora, fiquei nervoso, com sempre nas minhas estreias. Ao receber o carinho das produção, as flores, o calor das palmas da plateia, chorei. Sou muito emotivo. Há filmes que me fazem chorar como uma vaca só de contar a trama a alguém e nem são tristes.

Você teve uma saída pela ironia, brincou com a história da boataria. Qual o lugar do humor na sua vida?

 O humor está em tudo para mim. Tenho 55 anos de profissão e sei que não quero mais fazer programa de quadros de humor. Foi uma fase. Chegou um ponto da minha vida em que eu disse: eu sei que posso fazer um programa de entrevistas e é o que quero. Meus personagens existem, mas estão hibernando. Não sinto falta deles. Exercito isso em espetáculos solo que monto eventualmente. Já fiz sete deles.

Há toda uma geração de humoristas aí fazendo sucesso. Você acompanha? Gosta?

Há talentos extraordinários entre eles. Acompanho sim. Gosto muito do trabalho do Marcos Veras e do Victor Sarro. E adoro a Clarice Falcão. Ela é linda, meiga e cínica. Já disse ao Gregorio que ela é minha!

Agora que você retomou as atividades normalmente, está com algum projeto literário, ou no teatro?

Fiz, em parceria com Maurício Guilherme, uma adaptação de "Troilo e Crésida", de Shakespeare. Por puro prazer, sem perspectiva de montagem. A peça tem uma dose de humor e irreverência grande. É ambientada na Guerra de Troia, mas com muitas críticas à corte elisabetana.

Você disse que levou a AppleTV para o hospital. Gosta de séries?

Tanto quanto você. Atualmente, estou acompanhando "The Knick". Adoro as produções inglesas e ando vidrado em "DCI banks".

 

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