Antes de lançar desafios, que tal compreendê-los?

Antes de lançar desafios, que tal compreendê-los?

Atualizado: Sexta-feira, 28 Março de 2014 as 3:03

dúvidaNão é de hoje que o esvaziamento semântico da palavra “evangélico” gera incômodo, indignação e, tantas vezes, vergonha por aquilo que atribuem ao termo. Nem por isso, vou despojar-me do valor que ele traz em sua profundidade e significado. Então, antes de “lançar meu desafio”, pretendo começar resgatando alguns itens essenciais para a reflexão:
 
1. A fé evangélica não é uma inovação recente, uma nova “marca” de cristianismo que foi lançada na última moda “gospel” do momento ou que alguém decidiu inventar. Na verdade, faço aqui eco às sábias palavras do tio John (Stott), que diz:
 
“Atrevemo-nos a dizer que o cristianismo evangélico é o cristianismo original, apostólico, o cristianismo do Novo Testamento (1)”.
 
2. A fé evangélica não é um desvio da catolicidade (história da Igreja) e nem um desvio do cristianismo ortodoxo.
 
3. A fé evangélica não é sinônimo de fundamentalismo. Basta ler um bom livro sobre a história da Igreja para constatar que estes aspectos possuem diferentes conotações nos processos históricos.
 
Fenômenos evangélicos?
 
Diversos fenômenos marcam a dinâmica do campo religioso na atualidade. Em se tratando da população jovem, há contínuas buscas por uma expressão de fé que dê sentido às suas vidas. Isto alavanca o processo religioso. Todavia, estas manifestações exóticas disponíveis entre os vários sistemas religiosos, promovem, de fato, uma espiritualidade saudável? Estariam estes movimentos em sintonia com o Evangelho? Ou, neste caso, com a Fé Evangélica?
 
Os “Jesus Movements” não nasceram agora. Já existiam muitos outros espalhados por aí. Direciono aqui meu recorte ao fenômeno “Loucos por Jesus”, na qual tenho presenciado com frequência jovens usando camisetas e postando frases nas redes sociais.
 
Nestas últimas semanas, minha “timeline” no Facebook bombou de vídeos postados por estes jovens que compartilhavam devocionais e desafiavam outros a fazerem o mesmo. Legal a iniciativa… mas baseada em quê? Para quê? E, por quê?
 
Diante disso, sinalizo alguns desafios antes de desafiar:
 
1. É essencial conhecer as juventudes, antes de evangelizá-las
 
Alguém disse que “não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece”. Devemos compreender as mudanças históricas, sociais, culturais, religiosas e seus impactos na vida de cada jovem. Identificarmos suas vulnerabilidades e potencialidades e por meio de experiências partilhadas, estabelecer de maneira honesta, uma acolhida diferente daquela tão performática que permeia os ambientes e jargões igrejeiros.
 
2. Tempos (pós) modernos: e eu com isso?
 
Das últimas décadas pra cá, simultaneamente, ao lado cultura moderna, tem emergido também a cultura pós-moderna. Deste movimento histórico, diversas modificações exercem direta influência sobre o comportamento, os valores e a mentalidade de cada indivíduo. Essas duas culturas encontram-se justapostas no mesmo espaço/tempo. Porém, sabe-se que muitos valores da modernidade, como: a busca da felicidade, a democracia, o diálogo, a justiça, a sexualidade e o respeito à diversidade, ainda continuam sendo importantes para os jovens.
 
Não reconhecer tais valores, é isolar-se numa bolha e flutuar por aí. Você pode até ser ultraespiritual e viver numa certa galáxia, mas, por favor, não chame isso de igreja. Um gueto religioso, talvez. A “Missio Dei” nos direciona para o mundo.
 
3. O fenômeno do “emocentro”
 
Não, eu não escrevi errado! Hemocentro são os lugares onde se realiza doação de sangue. Refiro-me aqui ao fenômeno que nomeei de “emocentro”, a emoção no centro de tudo. Se na modernidade a razão era exaltada, hoje, as emoções são demasiadamente acentuadas. A cultura da sensação concede às emoções uma absoluta prioridade, o que tem provocado constante esvaziamento intelectual e vem devastando nossa geração. É inegável a importância da subjetividade e, portanto, das emoções nas diversas esferas da vida. Entretanto, a vida é muito mais do que “sentir/desejar”. O subjetivismo domina não apenas a cultura vigente, mas está presente nas igrejas do Brasil (e do mundo). È só lembrar daquela infeliz frase: “Hoje o culto não foi bom. Não senti nada. Não senti Deus!”.
 
A crise na intelectualidade cristã traz sérias consequências para nosso tempo. Eu desafio a geração da “cultura da emoção”, que leia urgentemente autores como Agostinho, C.S. Lewis e N.T. Wright. Um parágrafo apenas, e isso será revertido. Você terá fome de continuar lendo e buscará alimentar outras questões. A fé evangélica é muito mais que “sentir”.
 
4. O crescimento da neopentecostalidade: um novo campo missionário?
 
Talvez o fenômeno religioso que mais tenha chamado atenção em nosso caldo cultural brasileiro nos últimos anos é a proliferação do neopentecostalismo, que enfatiza a subjetividade do fiel (ou seria cliente?) em seu método evangelístico (ou seria empresarial?).
 
Baseados em quê? No Evangelicalismo? Nenhum dos quatro evangelhos, nem as cartas de Paulo, nem o Antigo Testamento, nem a Bíblia inteira apresentam pontos que sustentam a Teologia da Prosperidade. Não seriam então os arraiais neopentecostais um campo missionário?
 
Além disso, muitas igrejas pentecostais, por uma série de fatores (alguns intencionais), têm aderido à Teologia da Prosperidade. Em muitos casos, o fato se dá porque estes pastores não possuem formação ou embasamento crítico para discernir estes conceitos. Não se faz necessário um trabalho de Teologia Pública no campo da Educação Cristã, justamente para capacitar muitas destas pessoas que amam servir na vida eclesiástica, mas que por tantos motivos não tiveram condições de aprimorar seus ministérios ou sequer conhecer as ferramentas para isso?
 
Considerações finais
 
Diante dos enfrentamentos de evangelizar as juventudes na contemporaneidade, precisamos saber que a Igreja não está começando do zero. É necessário conhecer o caminho histórico percorrido até aqui. E que revela um tesouro muito precioso que nos foi dado por herança. Resgatar o sentido da Missão (“Missio Dei”), compreender a importância do evangelismo centrado no Evangelho, exige testemunho de fé baseada no conhecimento da Palavra de Deus que nos proporciona discernir, refletir e propor alternativas para nossos tempos. A mensagem de Jesus Cristo nos leva à prática do serviço à comunidade e à transformação da sociedade.
 
Aceita o desafio? Está lançado.
 
 
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Notas:
 
1. A Verdade do Evangelho: um apelo à unidade. John Stott. ABU Editora. 2000, p.15.
2. Esta é uma versão mais curta do artigo publicado aqui.
 
• Vinnicius Almeida

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