Bike e oração

Bike e oração

Atualizado: Quinta-feira, 27 Fevereiro de 2014 as 1:45

bicicletaOntem resolvi sair dar um role de bicicleta. Em um raro momento de folga, decidi rodar um pouco. A Nathy ia para a igreja na reunião das mulheres e eu não quis ficar em casa. Decidi sair. Coloquei um short, tênis, camiseta e lá fui. Enchi os pneus e parti para o asfalto. Era quase oito horas da noite, mas ainda estava claro. Saí com as palavras de Jesus “ide por todo mundo” na cabeça. Pensei muito nesse texto, mas não nos sentido de sair (ide) para evangelizar, mas pensei em sair para conhecer minha cidade, e ao conhecer minha cidade orar pelas pessoas e por mim mesmo. Saí com o desejo de orar e pedalar. A cada pedalada eu fui tentando lembrar-me das pessoas que pediram que orasse por elas, tentando lembrar-me dos pacientes do hospital em que trabalho, tentando lembrar-me dos dependentes químicos que estão lutando para se libertarem dos vícios. Fui tentando lembrar-me das pessoas que marcaram minha vida, das igrejas por onde passei. Agradeci muito.
 
Orei muito e quando me toquei já estava no pedágio que divide Rio Claro de Araras. Parei no pedágio, onde pude ver parte de Rio Claro e orei por minha cidade natal. No pedágio lembrei-me do filósofo Walter Benjamim, que estou lendo e gostando muito de suas abordagens e reflexões. Ele fala em seus textos que um filósofo tem que saber ser um “flânuer” (expressão francesa) para designar uma pessoa sem compromisso com um roteiro que sai vagando observando a cidade. No português usamos a expressão “flanar” para “caminhar sem destino” ou “andar sem rumo”. Para Benjamim precisamos sair pela cidade flanando, observando a nossa cidade de forma despreocupada. Precisamos olhar para a cidade onde vivemos como se fôssemos visitantes e estivéssemos vendo-a pela primeira vez. Retornei do pedágio à cidade de Araras e fui andando pelas ruas orando. Por onde passava lembrava-me dos irmãos (ãs) da igreja que moram naquela região. Orei pelas famílias da igreja, orei pelos dependentes químicos da cidade, orei pelos moradores de rua, orei pelos idosos, orei pelos jovens. Ao passar pelas faculdades orei por nossa juventude, ao passar perto dos hospitais orei pelos enfermos e acompanhantes, ao passar pelas escolas orei pelos professores e alunos.
 
Ao sair de casa pensando no “ide” de Jesus pensava em sair ao mundo de forma diferente. Sempre saio pela manhã com a missão pastoral de cuidar das ovelhas e de alcançar novas vidas para o aprisco do Senhor. Só faço isso porque oro muito. Ontem saí não para evangelizar e cuidar, mas para orar. E ao sair para orar aprendi a flanar. Saí orando e pude ver outra realidade. Vi outra cidade. Vi onde ficam as profissionais do sexo, onde os dependentes usam drogas, vi homens abarrotando os bares de esquina, vi muitas pessoas embriagadas em plena segunda-feira, vi garotas novas com trajes sensuais querendo olhares e buzinadas andando ao redor do lago. Vi muitas pessoas preocupadas com a saúde fazendo caminhadas, vi pessoas sedentárias comendo mais do que precisam nas lanchonetes. Vi e conheci o seu Gilberto, catador de materiais reciclados, feliz por receber um lanche. Vi os carros luxuosos passando com o ar condicionado, mas também vi garotos andando de chinelos velhos na periferia. Vi outra cidade e suas reais necessidades. Rodei mais de 40 km, voltei com as pernas doendo, com o corpo suado e com o espírito renovado. Como aprendi com Rubem Alves levei meus olhos para passear, mas não gostei muito do que vi, por isso orei mais e voltei com o
desafio de orar mais e mais.
 
Saí para orar e de fato orei muito, mas ao flanar vi que preciso trabalhar mais para levar o evangelho que cura e restaura a alma a tantas vidas. Hoje ao sair, e durante a semana quero que as imagens do meu role fiquem em minha mente me lembrando de tudo, para que eu não me esqueça de divulgar a mensagem da salvação, que é o remédio para todas as mazelas humanas. Preciso usar mais minha bike para perder calorias e ganhar mais entusiasmo para a oração e ganhar mais desejo de alcançar as almas perdidas. Quando eu começar a ficar estagnado vou precisar lembrar-me da minha bike. Ela está me esperando, eu é que não tenho tempo para flanar pela cidade. Oro para poder ter tempo para andar de bike e para poder orar pedalando. Bóra pedalar gente!
 
 
 
• Jeferson Rodolfo Cristianini
 

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