Nossas caixas de fios emaranhados

Nossas caixas de fios emaranhados

Atualizado: Terça-feira, 11 Março de 2014 as 2:25

fiosA vida e suas situações cotidianas. Quando nos mudamos e chegamos à casa nova, fazemos uma vistoria, e rapidamente (pelo menos os mais atentos e minuciosos como eu) não deixam passar nada.
 
Eu costumo anotar tudo, tudo mesmo. Providências tem que ser tomadas, como instalação de TV, internet e telefone fixo.
 
Tem pouco mais de um mês que nos mudamos para uma outra cidade. Mas antes que você me pergunte, sim, eu já fiz minha vistoria pessoal. Quando contratei o serviço de internet, já vieram os problemas que, mesmo após um mês, ainda não foram solucionados. Na hora de adquirir o pacote do serviço, a atendente me chamou de “doutor”, disse que eu não encontrararia serviço melhor e que, a qualquer momento que precisasse, eles estariam prontos para me atender. Você já escutou algo assim?
 
Bem, esse artigo se trata de algo ligado ao Procon e clientes insatisfeitos? Na verdade, quero pensar sobre como pequenos descuidos no processo de construção de uma edificação podem gerar dor de cabeça, cansaço e aquela desesperança quanto a tudo e todos, inclusive quanto a eu e a você.
 
Após vários telefonemas, promessas da visita do tal técnico (“hoje sem falta, no mais tardar amanhã”), horas perdidas e tudo mais, ontem finalmente o interfone tocou. Era realmente o técnico. Imagina minha satisfação!
 
Tudo começou bem até que tivemos que abrir a caixa para passar o cabo que traria fim à minha espera. Você consegue imaginar como estava a caixa de cabos e fios? Com palavras não conseguirei te explicar. Posso garantir que a visão era desanimadora. Puxamos, forçamos, tentamos mudar a direção, suor e lágrimas foram deixados pelo piso e depois de horas… nada. Tudo misturado.
 
Consegui tirar lições da caixa e seu emaranhado de fios. Às vezes minha vida está exatamente assim, por causa da falta de cuidado, desatenção e falta de perspectivas.
 
Olho e não consigo enxergar um só pequeno espaço que permita que algo novo chegue e me leve a ter, quem sabe, uma percepção melhor das coisas, de mim mesmo e do mundo. Algumas caixas ficam escondidas, trancadas e quando precisam ser abertas:  nossa, que susto!
 
O técnico ficou de voltar hoje à tarde, então com mais tempo. Vai trazer um outro técnico que, segundo ele mesmo, tem mais experiência com esse tipo de situação. E quanto a mim e você, não temos também nossas caixas emaranhadas? Elas não precisam ser abertas? E mesmo após o susto, às vezes não é necessário desfazermos de fios inúteis para dar mais espaço ao que realmente importa?
 
Por que não temos o zelo de nos cuidarmos. Será isso egoísta de nossa parte? Ao abrir aquela caixa, me vi frente a frente comigo mesmo e minhas neuras, dúvidas, inquietações, por vezes desesperança e falta de cuidado comigo mesmo. Percebi que continuo carregando coisas inúteis, e preciso abrir espaço.
 
Xi, agora será tarde demais? Vamos ter que refazer toda instalação, ficarei para sempre sem internet, mudarei de casa?
 
Nada disso. Como se trata da vida, a caixa me leva a reavaliar, descer ao porão e com coragem permitir que espaços sejam abertos, coisas sejam jogadas fora, e a conexão seja limpa, sujeita a  oscilações, mas nada que me faça desistir.
 
Se perseverarmos, vamos perceber que quando abrirmos as tais caixas nos conheceremos um pouco mais, nos tornaremos mais conscientes e teremos uma vida relevante. Relevante ao ponto de influenciarmos outros a abrirem suas próprias caixas e a vencerem seus monstros interiores.
 
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Jeverton “Magrão” Ledo

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