Por que não assisto mais TV aberta?

Não há humor, há bizarrices; não há informação, há seleção de notícias que produzirão audiência; não há dramaturgia que explore cultura ou que gere reflexões sociais, há enredos miseráveis que só desbravam a sexualidade

fonte: Ultimato jovem

Atualizado: Sexta-feira, 1 Agosto de 2014 as 12:13

televisãoA princípio, julgo ser amplamente necessário divulgar explicitamente o fio condutor de minha opinião: não sou contra a televisão aberta, popular, grátis por assim dizer. Aliás, como eu poderia me posicionar contra, diante do uso louvável – mesmo que raro – que se faz dela? Seria o mesmo que discordar do ato de uma dona de casa se utilizar da faca para partir seus legumes, levando em conta o fato de que há assassinos que se apoderam do mesmo instrumento para matar. Portanto, meu problema não é com o objeto, mas é com sua manipulação. Minha inquietação se manifesta na medida em que o manejo deste meio, a televisão aberta, torna-se uma verdadeira incubadora de desinteligência.

Por que não assisto mais à tevê aberta? Bem, eu posso não apenas lhe responder, mas posso [e prefiro] lhe mostrar. Para fazer isto, precisarei de sua colaboração. Caso você deseje aceitar, comece sintonizando sua televisão em um canal popular da TV aberta — seja num sábado qualquer ou numa tarde de domingo. O ideal é que você faça isto quando estiver no ar algum programa de auditório, com um apresentador simpático, dinâmico e engraçado. Posso lembrar de alguns: Programa do Faustão, Caldeirão do Hulk, Legendários, Pânico na TV, Programa Sílvio Santos, Programa Eliana, Domingo Legal, O Melhor do Brasil, dentre outros.

Agora, procure elementos comuns entres todos estes programas e você se surpreenderá com o resultado: eles dispõem dos mesmos artifícios para fidelizar sua atenção e a de sua família, sem que vocês percebam que estão se divertindo com entretenimento barato num cativeiro de opções idênticas. Talvez você ainda não tenha observado, mas este fenômeno é exatamente o descrito pelo rapper Gabriel O Pensador em sua música “Até Quando?”: “A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.”

Mulheres seminuas ou semivestidas [como você preferir], que banalizam a sensualidade feminina, ou seja, que a extrai da intimidade matrimonial e a negocia com o público, e em público; jogos “quiz” de perguntas e respostas que desafiam os participantes com acertos que valem dinheiro e erros que levam uma torta à “cara”; reportagens com reforma de carros velhos, acabamento de imóveis, encontros de familiares distantes e viagens de volta às terras de pessoas humildes [leia-se: nordestinas], como se a responsabilidade socioeconômica assumida por estas emissoras milionárias fosse satisfeita somente com gotículas de assistência social.

Isto tudo, sem falar no sensacionalismo vulgar com as notícias de celebridades, os aplausos ao cantor convidado que teceu a “complexa e erudita trilha sonora do momento e os quadros fúteis de paqueras superficiais que nada deveriam gerar, além da seguinte autoindagação: por que eu estou consumindo isto? Exatamente! Você e quem quer que seja, quando se assenta no sofá e aperta o botão ligar/desligar do seu aparelho televisor para se distrair com a programação da TV, está abrindo, concomitantemente, as janelas do consumo. Não digo “consumo” no sentido de comprar, mas com o significado de “se alimentar”, de “se nutrir”. E do que você pode estar se alimentando na TV aberta brasileira? Ora, de dejetos e refugo!

Não há humor, há bizarrices; não há informação, há seleção de notícias que produzirão audiência; não há dramaturgia que explore cultura ou que gere reflexões sociais, há enredos miseráveis que só desbravam a sexualidade (hétero ou homossexual), a traição (familiar ou profissional) e uma certa dose altíssima de ganância por poder e dinheiro, que, com uma vista grossa adequada, qualquer pai pode deixar sua filha assistir a este tipo de novela; não há esportes, há monopolização do futebol. Percebe agora como o conteúdo é selecionado para manter você ludibriado o bastante para não enxergar que não há conteúdo algum? Você compreende que as aparentes escolhas que o controle remoto supostamente lhe proporciona, funcionam como aquele velho ditado sobre o homem: “só mudam de endereço”?

Mas qual seria a solução, então? Assinar uma TV a cabo? Deixar de assistir à televisão se isto não for possível? Bem, a melhor alternativa é assinar sim uma TV paga, que, com um acervo vasto de verdadeiras opções, o problema poderá ser minimamente resolvido. Todavia, se este luxo não estiver ao alcance de quem o almeja, existe ainda a possibilidade de redigir uma seleção – mesmo que curta – não de canais, mas de programas razoavelmente assistíveis da TV aberta para o lazer residencial, o que necessitará, obviamente, de um crivo maduro, lúcido e ideológico para que haja êxito nesta tarefa. Menciono alguns programas: CQC, A Liga, Conexão Repórter, Profissão Repórter, The Noite, Agora é Tarde, Fantástico, De frente com Gabi etc.

Visto isso, creio ser preciso lembrar que a programação do final de semana da TV brasileira só foi um estereótipo do qual me apropriei, a fim de demonstrar a miserabilidade de um conjunto que se manifesta durante toda a semana. Contudo, não dá pra citar todos os canais que gostaria, muito menos seus itinerários de entretenimento. Este artigo é só um breve esboço de minha indignação. Está na hora de sair do sofá, mudar de canal ou lutar por uma legislação a respeito. De fato, não é tão utópico dar fim ao problema, ao passo que somos nós que possuímos, literalmente, o controle nas mãos para fazê-lo, pois se existe uma coisa na produção televisiva que é bastante clara, é que, quando um programa de TV não dá ibope, ele desaparece.

 

• Marlon Teixeira

 

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