"Ave, Arvi"

"Ave, Arvi"

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:26

De cada líder que segui ao longo da minha vida eu tenho procurado destacar fundamentalmente um aspecto: a unicidade do seu legado. Eles não cruzariam o meu caminho por acaso ou fatalidade. Os mestres vivem sob a égide do saber. E um eterno discípulo deve apenas aprender.

Sempre. Em todo tempo.

Aprendi que um era carismático, outro extraordinariamente sereno, um terceiro muito comprometido com seus valores; isso sem contar aquele que constantemente é taxado de perfeccionista, dado o seu zelo.

Mais do que uma conotação essencialmente religiosa, de acordo com os dicionários a evocação "Ave" foi uma saudação muito usual entre os romanos, e equivale a expressão "salve" (do latim). Pois bem, mais do que um "Ave Cesar", um "Ave Maria" ou um "Salve para a Xurupita", eu sugiro uma elocução a um distinto desconhecido. Um brinde à honra.

A um verdadeiro líder, uma merecida saudação. E no glossário da honra esse é o que melhor enuncia o seu nome. Afinal combina, corrobora, rima.

Então, com a sua permissão: "Ave, Arvi".

Um nome único. Simples até de soletrar. Breve quanto à efemeridade da vida. Um elogio à simplicidade. Um convite à discrição.

Um líder inesquecível. Seu jeito peculiar conquistou minha confiança e fidelidade. Sua capacidade de delegar imprimiu em mim a coragem suficiente para, com precisão, receber e passar o bastão ministerial.

Um orador sem igual. Atrevo-me a dizer que suas palavras são tão bem colocadas que tenho a impressão de poder ouvir a pontuação entre elas.

Uma elegância verbal. Um discurso irretocável. O seu sermão é mais do que uma homilia, é uma aula de dicção.

Um escriba sem pena. Enquanto uns fazem da escrita o seu mundo, outros, em poucas palavras nos conduzem para dentro do seu contexto.

Um guardião da ética. Seu critério de seleção ao crivo ministerial é ímpar. O sigilo ainda é o seu companheiro, embora isso tenha caído em desuso em nossos dias. Um viajor na contramão dos moralistas.

Um mestre, enfim. Sua contribuição ao meu ministério foi notória.

Singular, eu diria. Tão única quanto o meu primeiro ofício depois do episcopado: uma cerimônia fúnebre. Afinal, um verdadeiro mestre nos ensina tanto a sorrir para os nubentes apaixonados diante do altar quanto a consolar os pedaços da família diante do corpo inerte do ente querido.

Salve, mestre.

Nosso tempo juntos não durou apenas uma fração de tempo de nossas vidas. Permanece intacto em minha memória.

De todas as lições aprendidas (e apreendidas), talvez a principal é aquela que prevê a eternidade dos conceitos e legados que somente um mestre por excelência pôde me ensinar. E que conseguiu me convencer.

Se a vida não nos brindar um novo encontro, é possível que ela tenha razão. Mesmo porque nossa vivência, acredito, foi intensa o suficiente para sobrevivermos sem a necessidade de completar a cota da satisfação.

Com a sua aquiescência, e mui respeitosamente:

Ave, Arvi!

Neir Moreira

Neir Moreira é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, psicólogo formado pela UFPR e pós-graduando em Educação. www.neirmoreira.com

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