Quando a simulação ocupa o lugar da presença

Solidão, luto e a busca por consolo em tempos de inteligência artificial.

Fonte: Guiame, Fernando MoreiraAtualizado: quarta-feira, 4 de novembro de 2026 às 17:23
Mulher teria mandado criar robôs com imagens dos pais falecidos. (Captura de imagem/Instagram/aryenecambraia)
Mulher teria mandado criar robôs com imagens dos pais falecidos. (Captura de imagem/Instagram/aryenecambraia)

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia... (2 Coríntios 1:3-4).

Recebi um vídeo, gerado por inteligência artificial, que mostrava uma jovem recriando seus pais falecidos por meio de robôs humanoides com seus rostos, gestos e características pessoais. A ideia era aliviar o peso do luto, como se fosse possível recuperar, pela tecnologia, algo daquilo que a morte interrompeu.

A cena me lembrou o filme Blade Runner, de Ridley Scott, lançado em 1982. Nele, a Tyrell Corporation, responsável pela criação dos replicantes, utiliza uma frase emblemática em sua publicidade: “Mais humano que o humano”. No livro Organize a sua vida e cresça, essa reflexão ganha uma pergunta que merece nossa atenção: será que um dia as máquinas serão mais humanas que os humanos? Deus é amor! Embora a inteligência artificial consiga reproduzir expressões de afeto e produzir respostas que parecem carregadas de emoção, uma simulação convincente não é, por si só, uma experiência de amor. Uma máquina pode reproduzir palavras de consolo, mas isso não significa que exista ali a mesma experiência humana de amar, sofrer e compartilhar a vida.

A Bíblia nos alerta para o poder do engano. Jesus se refere ao diabo como pai da mentira (João 8:44). Isso não significa que toda tecnologia seja má, mas nos lembra de que nem tudo o que parece verdadeiro corresponde à verdade. Quando a aparência ocupa o lugar da realidade, precisamos exercer discernimento.

Até que ponto deixaremos o bom senso de lado para viver uma ilusão? Uma narrativa? Uma realidade construída para atender aos nossos desejos, mesmo que nos afaste das pessoas de verdade? O sábio rei Salomão escreveu: O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria (Provérbios 18:1).

Hoje, sistemas de inteligência artificial podem reproduzir características de pessoas falecidas, utilizando fotografias, vídeos, gravações de voz e mensagens para criar avatares capazes de simular conversas. Essas tecnologias, conhecidas como griefbots ou deadbots, levantam questões éticas, emocionais e espirituais que ainda estamos aprendendo a compreender.

Recentemente, conhecemos a história de um pedreiro de 49 anos que viajou mais de dois mil quilômetros, do Maranhão até Minas Gerais, acreditando que encontraria uma mulher com quem poderia começar uma nova vida. A mulher, conhecida nas redes sociais como Jéssica Fazendeira, era uma personagem criada por inteligência artificial. Segundo as reportagens, a solidão, agravada pela morte de sua mãe, contribuiu para que Edimar acreditasse nas promessas que recebia pela internet.

Em um caso, a tecnologia promete prolongar simbolicamente uma presença perdida. No outro, constrói a expectativa de uma presença que não existia da maneira imaginada. Em ambos, surge uma pergunta que vai além da tecnologia: O que estamos buscando quando a solidão nos leva a procurar, em uma simulação, aquilo de que sentimos falta na vida real?

 

Simulação não é realidade

A indústria do chamado pós-vida digital já permite criar representações de pessoas falecidas a partir de seus rastros digitais. A tecnologia pode reproduzir padrões de linguagem, voz e comportamento, produzindo interações que se parecem com conversas reais.

Precisamos distinguir duas coisas: preservar a memória de alguém e simular uma interação com essa pessoa. Uma fotografia preserva um momento. Uma gravação conserva uma voz. Uma carta nos permite reencontrar palavras que alguém escreveu. São registros que nos ajudam a lembrar. Um avatar interativo, porém, pode ir além: produzir respostas novas, como se a pessoa falecida ainda estivesse participando da relação.

O problema não é simplesmente a existência da tecnologia. É o que esperamos dela e o que ela pode nos levar a acreditar. Não é mais a pessoa, mas uma representação dela. E o perigo começa quando confundimos essa representação com a presença de quem partiu.

Uma resposta produzida por um algoritmo não é necessariamente aquilo que o falecido pensaria, diria ou desejaria. Mesmo quando a reprodução é convincente, não podemos confundir semelhança com identidade, nem interação artificial com reciprocidade humana.

Pesquisas acadêmicas sobre os deadbots já discutem riscos relacionados à autonomia, ao consentimento, à dependência emocional e à exploração comercial da vulnerabilidade dos enlutados. Isso não significa que toda utilização seja necessariamente prejudicial, mas mostra que não podemos tratar essas ferramentas como se fossem emocionalmente neutras.

A questão, portanto, não é declarar que toda tecnologia é má. É reconhecer que nem tudo o que conseguimos fabricar é capaz de suprir aquilo de que precisamos. Nem tudo o que parece presença é presença. Nem tudo o que produz alívio produz cura. Nem tudo o que se diz Deus é Deus!

 

Quando a solidão se transforma em vulnerabilidade

Em uma sociedade na qual a atenção se tornou um ativo comercial, até a solidão pode ser transformada em oportunidade de negócio. Seguidores, visualizações e vendas podem valer mais do que a verdade sobre quem está do outro lado da tela.

O problema é que a necessidade de ser visto, amado e acolhido não é uma fraqueza. É parte da experiência humana. A vulnerabilidade surge quando essa necessidade é explorada, quando perdemos a capacidade de avaliar as promessas que recebemos ou quando não encontramos apoio suficiente para atravessar momentos difíceis.

Quantas vezes alguém precisou de uma conversa verdadeira, de uma visita ou de um abraço, mas recebeu apenas uma resposta automática, uma curtida ou uma promessa vazia? Por que você parou de convidar alguém para um simples café? Que tal baixar a guarda, deixar algumas mágoas de lado e chamar seu marido, sua esposa, um amigo ou alguém de quem você sente falta? Sem grandes planos, sem precisar resolver tudo. Apenas se sentar, conversar, ouvir e sorrir. Talvez seja disso que estejamos precisando mais.

A IA não toma café!

Não se trata apenas de tomar café. Trata-se de estar presente. De perceber o silêncio de alguém. De ouvir uma história pela segunda ou terceira vez, sem demonstrar impaciência. De oferecer um abraço sem precisar encontrar as palavras certas. Há coisas que não precisam ser sofisticadas para serem extraordinárias. Às vezes, o que alguém mais precisa não é de uma resposta inteligente, mas de uma pessoa disposta a ficar.

 

O luto que não foi vivido e a culpa que não pode ser comprada

Existe outra dimensão nessa discussão: o remorso. Às vezes, só percebemos o valor da presença quando ela deixa de existir. Enquanto nossos pais estão vivos, adiamos uma visita, uma ligação, uma conversa. Acreditamos que haverá outra oportunidade. Que amanhã teremos tempo. Que depois resolveremos aquilo que ficou pendente, porém nem sempre existe um depois.

Nenhuma tecnologia pode devolver o tempo em que deixamos de estar presentes. Um avatar pode produzir palavras que gostaríamos de ter ouvido, mas não pode provar que aquela pessoa realmente as teria dito. Um vídeo pode criar uma cena emocionante, mas não transforma uma oportunidade perdida em uma experiência que de fato aconteceu. Não podemos comprar o perdão nem reconstruir o passado.

Isso não significa que estejamos condenados a viver presos à culpa. Significa que precisamos reconhecer nossos erros, buscar a graça de Deus e permitir que o arrependimento transforme a maneira como vivemos e amamos daqui para a frente. O salmista nos lembra: Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido (Salmo 34:18).

Há esperança para quem carrega remorso. Há graça para quem reconhece seus erros. Há um caminho de amadurecimento para quem compreende, ainda que tarde, o valor da presença. Não podemos mudar tudo o que fizemos, entretanto podemos decidir o que faremos a partir de agora.

Não precisamos esperar pela perda para aprender a amar.

 

O que o luto nos ensina sobre a presença de Deus

Em João 11, diante da morte de Lázaro, Jesus não se apresenta como alguém indiferente à dor daqueles que ama. Ele vê Maria chorando, encontra pessoas enlutadas e chora. O versículo mais curto de muitas traduções bíblicas contém uma das imagens mais profundas sobre a humanidade de Cristo: Jesus chorou (João 11:35). Jesus sabia que ressuscitaria Lázaro. Ainda assim, chorou. Isso nos ensina que a esperança não elimina a dor e que a fé não exige que finjamos estar bem quando estamos sofrendo. Saber que Deus tem poder não significa compreender todos os seus caminhos. Crer na ressurreição não significa que a despedida deixe de doer.

Há uma diferença entre atravessar o sofrimento com esperança e tentar fingir que ele não existe. A presença de Deus não deve ser usada para diminuir a dor de alguém, mas para sustentar quem a atravessa.

Jesus advertiu: E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará (Mateus 24:12). Essa advertência nos convida a refletir sobre o que acontece quando o amor perde espaço em nossas relações. Vivemos um tempo de conexões abundantes e, paradoxalmente, de muitas experiências de isolamento.

A independência, quando confundida com autossuficiência absoluta, pode nos levar a desprezar a necessidade de vínculos. A impaciência pode nos fazer abandonar relacionamentos que exigem cuidado. O egoísmo pode transformar pessoas em recursos: enquanto são úteis, permanecemos por perto; quando precisam de nós, desaparecemos.

Algumas relações são abusivas, unilaterais ou prejudiciais, e estabelecer limites pode ser necessário. Amar não significa aceitar exploração. O desafio é discernir entre proteger-se de uma relação nociva e abandonar todas as relações que exigem paciência, responsabilidade e compromisso. É aqui que a comunidade cristã tem uma responsabilidade que não pode ser terceirizada para a tecnologia.

A Igreja é um corpo vivo, mais do que uma instituição que fala sobre consolo. É uma comunidade na qual o consolo se torna concreto.

Um telefonema pode fazer diferença. Uma visita pode fazer diferença. Uma refeição compartilhada, uma escuta sem pressa, uma oração oferecida com sensibilidade e o acompanhamento contínuo podem ajudar alguém a perceber que não foi esquecido. Quem foi acolhido pode aprender a acolher. Quem experimentou a misericórdia pode deixar de tratar o sofrimento alheio com indiferença.

Não precisamos ter todas as respostas para cuidar de alguém. A fé não apaga a saudade nem transforma a morte em algo insignificante. Ela nos oferece uma esperança que não depende de negarmos a realidade.

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (Mateus 5:4).

 

A presença que ainda podemos oferecer

O que buscamos, no fundo, é algo profundamente humano: ser vistos, ser amados, pertencer a algum lugar e saber que nossa existência importa para alguém. Talvez precisemos reaprender algumas coisas que pareciam óbvias: visitar enquanto há tempo, ouvir antes de aconselhar, pedir perdão quando erramos, estabelecer limites quando necessário e não deixar para amanhã todo gesto de amor que podemos oferecer hoje. Não basta concordar com essas ideias. É preciso transformá-las em atitudes.

Hoje, tome a iniciativa. Envie uma mensagem. Faça uma ligação. Convide alguém (gente como a gente) para um café. Se for possível e bem-vindo, faça uma visita. Não espere ter o discurso perfeito. Não espere que todas as mágoas estejam resolvidas. Não espere a oportunidade perfeita. Comece com um gesto sincero. Seja igreja. Ofereça a tão rara, atenção. Não invista em quem drena suas forças, mas em que precisa de vida.

A presença de Deus não é uma justificativa para a ausência humana. Ao contrário, o consolo que recebemos deve nos tornar mais atentos ao sofrimento de quem está perto de nós.

Lembre-se da promessa: Não te deixarei, nem te desampararei (Hebreus 13:5). Que essa promessa não seja apenas uma frase que repetimos nos momentos difíceis, mas uma verdade que nos ensine a confiar em Deus e a não abandonar aqueles que precisam de nós. Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja se as máquinas serão um dia mais humanas que os humanos.

Enquanto tentamos ensinar as máquinas a simular a presença, não estamos nos esquecendo de aprender a estar presentes uns para os outros?

Jesus está voltando! Desperta, tu que dormes e Cristo te iluminará!

 

*Este artigo foi inspirado em uma postagem nas redes sociais que viralizou ao relatar o caso de uma mulher que teria encomendado robôs para simular a aparência e a presença de seus pais falecidos. A história serviu como ponto de partida para uma reflexão sobre os avanços da inteligência artificial, os limites éticos da tecnologia e a vida com Deus.

 

Fernando Moreira (@prfernandomor) é pastor da Igreja Batista do Povo, Doutor em Teologia e Mestre em Computação. MBA em Vendas, Marketing e IA. Membro da Academia de Letras. Mentor de alunos de MBA. Associado Haggai Internacional (HLE). Une o conhecimento técnico, teológico e executivo. Escritor. Palestrante.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: A Torre, a Serpente e o Algoritmo: Quando a tentação de ser Deus encontra a IA – Parte 2

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