Israel, diplomacia e o futuro das relações entre judeus e cristãos

Na conclusão da entrevista, o líder da Casa Apostólica aborda o direito de Israel à autodefesa, os compromissos do Manifesto, o papel do Brasil e o diálogo entre cristãos e judeus.

Fonte: Guiame, Silas AnastácioAtualizado: quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 13:59
Apóstolo Paulo de Tarso, líder da Casa Apostólica e relator do Manifesto contra o antissemitismo. (Foto: Arquivo pessoal)
Apóstolo Paulo de Tarso, líder da Casa Apostólica e relator do Manifesto contra o antissemitismo. (Foto: Arquivo pessoal)

Na primeira parte desta entrevista, o apóstolo Paulo de Tarso explicou as razões que o levaram a redigir o Manifesto contra o antissemitismo e defendeu uma revisão histórica e teológica da relação entre cristãos e judeus.

Nesta segunda parte, ele trata das implicações práticas do documento, do posicionamento da Casa Apostólica e dos desafios políticos e diplomáticos envolvendo Israel.

O Manifesto reúne a assinatura de líderes cristãos de oito Estados brasileiros e foi encaminhado aos presidentes do Senado e da Câmara, aos chefes dos Três Poderes, à sociedade brasileira e à comunidade judaica.

O texto também recebeu a revisão de especialistas das áreas jurídica e política, entre elas a consultora legislativa Clarita Maia e a deputada federal Greyce Elias, reforçando a credibilidade da iniciativa.

 

6. ISRAEL, AUTODETERMINAÇÃO E SEGURANÇA

Como responde a quem diz que apoiar o direito de Israel à autodeterminação e à autodefesa é “tomar partido” no conflito?

Quem defende valores sempre toma partido. Eu tomo partido da história, da verdade e da justiça.

Do ponto de vista bíblico, temos registros antigos de compra e venda — como Hebron e a caverna de Machpelá, compradas por Avraham, e o Monte Moriá, comprado por David HaMelech. As Escrituras registram preços, compradores e vendedores. Do ponto de vista histórico e jurídico, Israel exerceu o direito de autodefesa em guerras como as de 1967 e 1973.

Sim, eu tomo partido. E aqueles que me criticam também tomam. A diferença é em favor de quem e de quê.

O manifesto condena os ataques de 7 de outubro e o terrorismo em todas as suas formas.

 

Que mensagem o senhor quer enviar ao público internacional?

Não podemos aceitar que uma organização — ou um “projeto de Estado” — tenha, em sua própria carta, o objetivo de destruir outro povo. Se a comunidade internacional tivesse reagido com firmeza a esse tipo de ideologia, muitas famílias hoje estariam vivas.

Crianças assassinadas diante dos pais, pais mortos diante dos filhos, meninas violentadas e executadas, jovens massacrados enquanto dançavam. A família Bibas não pode mais simplesmente viver a sua vida. Isso é moralmente inaceitável.

Organismos internacionais que relativizaram essa realidade e governos que apoiam ou justificam tais grupos têm responsabilidade. Nosso silêncio também.

 

Ao mesmo tempo, o senhor fala da “sacralidade de cada vida humana”. Como equilibrar apoio à segurança de Israel e preocupação com civis palestinos?

A frase de Golda Meir continua atual: se os que hoje se definem como “palestinos” amarem mais seus filhos do que odeiam o povo judeu, muita coisa mudará.

O ensino sistemático do ódio para crianças é uma tragédia moral. O dever da comunidade internacional é condenar tanto o terrorismo quanto a instrumentalização de civis como escudos humanos. Toda vida é sagrada — judaica ou árabe. Justamente por isso, apoiar Israel em sua autodefesa responsável é também uma forma de rejeitar a cultura da morte promovida por grupos terroristas.

 

7. COMPROMISSOS CONCRETOS DA CASA APOSTÓLICA

Quais serão as primeiras ações práticas após a publicação do Manifesto?

Primeiro, divulgá-lo amplamente para que seja lido, discutido e aplicado — começando pelas lideranças cristãs ligadas à Casa Apostólica e alcançando outros segmentos, inclusive católicos e outros grupos religiosos.

Também queremos levar esse debate aos espaços institucionais: direitos humanos, relações exteriores, educação. Com apoio de frentes cristãs de vários segmentos, esperamos contribuir para que a sociedade brasileira, que é plural e pacífica, perceba o perigo do antissemitismo disfarçado.

 

O que está sendo planejado em termos de cursos, viagens, intercâmbios e diálogo com lideranças judaicas?

Já é prática nossa visitar Israel com regularidade, reconhecendo-a como a nação judaica de Israel, e somos sempre bem recebidos e respeitados em nossa fé. Do nosso lado, temos o dever de oferecer o mesmo respeito às demais expressões religiosas.

Queremos intensificar viagens de estudo, cursos sobre a Shoá e o antissemitismo, e mesas permanentes de diálogo entre líderes cristãos e judeus, para falar de Bíblia, história, presente e futuro com amor, respeito e dignidade.

 

Como garantir que o Manifesto não seja apenas um gesto pontual?

Trabalhando para que ele se torne referência em ambientes religiosos, educacionais e culturais, com revisões periódicas, metas e acompanhamento. Nosso compromisso é de permanência, não de emoção momentânea.

 

8. BRASIL, POLÍTICA E DIPLOMACIA

Que papel o senhor acredita que o Brasil deveria desempenhar em relação a Israel?

O Brasil precisa reconhecer, com honestidade, que Israel é uma democracia real em meio a um ambiente regional marcado por regimes autoritários. A diplomacia brasileira tradicional precisa ser revisitada, porque a maioria do povo brasileiro tem simpatia por Israel e pela comunidade judaica, mas isso raramente entra no debate eleitoral.

O resultado é uma política externa que, muitas vezes, não representa o sentimento majoritário da população e adota posições que, na prática, soam hostis ou até antissemitas, como vimos em especial nos últimos anos.

 

Como tem sido a receptividade da Frente Parlamentar Evangélica e de outras lideranças políticas ao Manifesto?

Surpreendentemente positiva. A Frente Parlamentar Evangélica e outras lideranças políticas mostraram grande sensibilidade e apoio, o que deu ao Manifesto uma visibilidade que talvez não alcançássemos sozinhos como liderança religiosa.

 

O senhor teme algum custo político por se posicionar de forma tão clara?

Não temo. Sei que críticas virão, mas pergunto a mim mesmo: e se foi exatamente para este tempo que fomos chamados? Nosso dever é fazer o que é certo, mesmo que isso nos leve a passar pelo “vale da sombra da morte”. Cremos que o Eterno está conosco.

 

9. REPERCUSSÕES NA IGREJA E NA COMUNIDADE JUDAICA

Que reações o senhor já recebeu de outros líderes cristãos?

Até aqui, recebi apoio integral de líderes cristãos que se manifestaram. Muitos me disseram que o Manifesto expressa algo que eles mesmos sentiam, mas ainda não tinham colocado em palavras.

 

E da parte da Comunidade Judaica, no Brasil e no exterior?

Tenho recebido manifestações de apoio e gratidão, como se eu estivesse fazendo algo extraordinário. Honestamente, vejo isso apenas como fruto da bondade de Deus que alcançou meu coração.

Cada palavra de honra e cada gesto de gratidão que recebo de irmãos judeus eu devolvo em adoração ao Eterno, nosso Deus.

 

O senhor acredita que o documento pode inspirar outros movimentos cristãos em outros países?

Acredito, sim. Já estamos compartilhando o texto com amigos que atuam em parlamentos de outros países, especialmente na Argentina, para que iniciativas semelhantes possam surgir em outros contextos nacionais.

 

10. MENSAGEM FINAL A JUDEUS E CRISTÃOS

Que mensagem o senhor gostaria de dirigir diretamente ao leitor judeu do Times of Israel, talvez desconfiado da história do cristianismo em relação ao seu povo?

Penso em Ruth, a moabita, uma não judia que viu, na vida de sua sogra Naomi — uma judia da tribo de Judá —, a bondade do Deus de Abraão, que cuida de viúvas, estrangeiros e vulneráveis. Ruth decidiu unir seu destino ao do povo de Naomi: “O teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus”.

Esse é o sentimento do meu coração. Não queremos “ser judeus”; somos gratos a Deus por ter nos feito como somos. Mas desejamos unir nosso destino, em amor e solidariedade, ao destino do povo judeu, confiantes na promessa do Deus de Abraão, Isaque e Jacó: a sua presença eterna.

 

Se tivesse de resumir seu apelo a judeus e cristãos em uma frase para o futuro, qual seria?

“Am Israel Chai. Adonai Melech, Adonai Malach, Adonai Imloch Leolam Vaed — O povo de Israel vive. O Eterno reina, reinou e reinará para sempre.”

 

Silas Anastácio (@silasas15) é referência na promoção das relações Brasil-Israel. Escritor, palestrante e articulador, fortalece o diálogo entre lideranças, defende a liberdade religiosa e combate o antissemitismo, conectando universos cultural, diplomático e social.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Por que os cristãos precisam enfrentar o antissemitismo: a visão de um líder evangélico

 

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